Dasha desligou o motor e ficou alguns segundos em silêncio dentro do carro. O interior ainda parecia carregado do cansaço do dia inteiro. No banco de trás, ouvia-se o leve farfalhar das sacolas de compras que haviam se deslocado na viagem.
No porta-malas, três potes caros de produto para madeira estavam guardados. Seu pai já tinha comentado alguns dias antes que os degraus da varanda estavam escurecendo por causa da umidade, como se até a casa estivesse lentamente se deteriorando.
Dasha massageou as têmporas. O fim do mês no trabalho era sempre exaustivo — relatórios, prazos, revisões de última hora. Como analista financeira sênior, ela era sempre a última a sair do escritório.
Mas os fins de semana pertenciam à casa dos pais. Ou melhor, à casa comprada com financiamento há cinco anos, que ela acabou sustentando sem perceber.
A ajuda virou obrigação. A obrigação virou rotina.Ela saiu do carro, pegou as sacolas e seguiu pelo caminho de pedras. Seu pai, Nikolai Petrovich, estava na varanda mexendo em um fio elétrico. Nem levantou os olhos.
— Oi, pai. Quer ajuda? — perguntou Dasha, largando as sacolas.— Minha coluna voltou a incomodar — resmungou ele. — Sua mãe está dentro.
Dentro da casa, o cheiro de comida misturava-se com uma tensão conhecida. Na sala, Rita estava deitada no sofá, coberta por um cobertor, como se o mundo inteiro devesse se adaptar a ela.
— Dash, trouxe o chá? — gritou sem olhar.— Está no saco azul.Na cozinha, sua mãe Tamara enxugava as mãos apressadamente.
— Ainda bem que você veio! Tem um problema com o imposto da terra… não entendi nada. Pode ver?
— Claro. Onde está o documento?— No escritório do seu pai, na pasta verde.O pequeno cômodo parecia sufocante. Dasha abriu a gaveta e um envelope branco caiu no chão. Selo de cartório. Não aberto.
Ela abriu.As primeiras linhas eram formais, mas uma frase congelou seu pensamento:“…todos os meus bens, onde quer que estejam… deixo para minha filha mais nova, Margarita Nikolayevna…”
Ela leu de novo. E de novo. A data era recente — apenas um mês atrás. Exatamente quando ela havia pago a reforma da cerca e enviado dinheiro para “despesas médicas” do pai.
Tudo o que ela sustentava tinha sido transferido.Atrás dela, passos.— Achou os documentos? — perguntou a mãe.Dasha se virou devagar, segurando o papel entre os dedos.— O que é isso?
O rosto da mãe perdeu a cor instantaneamente, depois endureceu.— Coloca isso de volta. Não é da sua conta.— Não é da minha conta? — a voz de Dasha era baixa, controlada. — Eu pago essa casa há cinco anos.
O pai apareceu na porta, em silêncio. Esse silêncio já era uma resposta.Rita surgiu logo atrás, indiferente.— Ah, isso? — deu de ombros. — É só papel. A casa agora é minha. Pronto.Algo dentro de Dasha ficou completamente quieto.
Não era raiva. Nem dor.Era clareza.— Tudo bem — disse calmamente. — Então que seja.Ela colocou o documento na mesa, pegou as chaves.— Aonde você vai? — perguntou a mãe.
— Para um lugar onde eu não pago pelo que não me pertence.E saiu.Foram dez dias de silêncio.Até o dia quinze.O telefone tocou.— Dasha! O cartão não funciona no mercado! — a mãe entrou em pânico.

— O banco disse que o pagamento não foi feito!Dasha tomou um gole de café.— Porque eu parei os pagamentos.Silêncio.— Como assim parou?
— Eu não pago mais por uma casa que não é minha.A voz da mãe se elevou. — Isso não é brincadeira! Vai ter multa!
— Não é mais problema meu.E desligou.
Mensagens vieram depois. Rita a chamava de egoísta, ingrata, traidora. O pai escreveu apenas: “Não esperava isso de você.”Dasha não respondeu.
Um mês depois, a mãe apareceu na porta do apartamento. Estava abatida, cansada.— Tudo está desmoronando… a Rita… o banco… — murmurou.— E o que você quer que eu faça? — perguntou Dasha.— Vamos mudar o testamento… passar tudo para você…
Dasha ficou em silêncio por um longo momento.— Eu não quero a casa.A mãe congelou. — Mas somos sua família.Dasha a encarou.— Vocês eram minha família quando era conveniente.
Ela colocou algum dinheiro na mesa.— Para os remédios do meu pai. Isso é tudo.Quando a porta se fechou, o apartamento pareceu mais leve.
Dasha ficou olhando pela janela. Lá fora, a vida continuava como se nada tivesse acontecido.Pela primeira vez em muito tempo, não havia obrigações esperando por ela no fim de semana.
Ela abriu o laptop e procurou passagens de avião.O mar não era fuga.Era o começo de algo próprio.


