— Quer vender o apartamento? Ganhe-o primeiro – e não toque no meu! — disse Angelina duramente ao marido; ela não estava mais gritando, mas cada palavra era medida e cortante.

— Você quer vender o apartamento? Primeiro trabalhe por ele — e no meu, não toque! — disse Angelina ao marido, cada palavra afiada, cortante, já sem gritar, mas com um frio cintilante na voz.

“Nó oito”

O vento no décimo nono andar uivava ao seu próprio ritmo: ora agarrando-se aos ferros com choro, ora batendo no rosto com golpes secos e agudos. Angelina, pendurada no assento, selava meticulosamente as fendas entre os painéis. O trabalho combinava com ela:

exigia concentração intensa e que os joelhos não tremessem diante da profundidade que se abria sob os pés. O selante assentava-se suavemente, e suas mãos, com luvas grossas, moviam-se com precisão e experiência. Lá embaixo, os carros avançavam lentamente no trânsito,

como formigas — talvez o carro patrulha do marido estivesse entre eles.Sérgei trabalhava na polícia de trânsito. Ele era um homem de sistema: sinalizador, registro, regras. Quando se conheceram, Angelina viu nele um ponto seguro, um tipo de “seguro” sem o qual não se daria um passo vertical.

Dois anos depois, porém, esse seguro começou a se desfazer fio a fio.A noite trazia o cheiro de carne assada e de uma briga prestes a começar. Sérgei estava à mesa, mexendo no bife amaciado com o garfo. Angelina estava exausta em todos os músculos, mas a mente fria como o concreto no inverno.

— Gelya, eu só pensei… — começou Sérgei, sem olhar nos olhos dela. Ele olhava as bolhas na água mineral. — Estamos juntos há dois anos, mas ainda me sinto estranho. O que é seu é seu. O que é meu… parece que é comum.

Angelina parou com a chaleira na mão. A água caía lentamente na caneca, o vapor subia em direção à janela. Ela sabia para onde aquilo ia: essa conversa já aparecera pela terceira vez, como uma viga podre numa enchente de primavera.

— E o que você sugere? — perguntou com calma, mas cada palavra carregava tensão, um fio cortante.— O apartamento… — Sérgei finalmente ergueu os olhos. Havia ganância e insegurança em seu olhar. — Seu pai te deu de presente, certo. Mas a reforma nós fizemos, não é? Fizemos.

Também compramos os móveis. Acho justo você transferir sua parte para mim — como garantia. Somos família.Angelina colocou a chaleira no balcão. O choque do metal soou alto no silêncio. Virou-se. Decidiu: não se conteria. Sua raiva se transformaria em arma. Sérgei estava acostumado à obediência,

mas esqueceu que sua esposa trabalhava num lugar onde um único erro poderia ser fatal.— Garantia? — estalou Angelina, o rosto transformando-se numa careta que Sérgei interpretou como histeria. — Você quer garantia?! E EU não preciso?!

— Gelya, mais baixo, os vizinhos… — tentou Sérgei acalmá-la, com a mão estendida.— Eu não me importo com os vizinhos! — gritou Angelina, jogando o pano de cozinha no chão. — Você mora aqui há dois anos, não paga as contas porque “está economizando para um carro novo”, e agora ousa falar do meu apartamento?

Sérgei congelou. Ele esperava argumentos lógicos, debate — não essa avalanche emocional. Não percebeu que por trás da raiva havia um olhar frio, calculista, que acompanhava cada seu movimento.— Você quer vender o apartamento? — disse Angelina devagar, cada palavra cortante, precisa, afiada. — No meu, não toque!

Sérgei cerrrou a mandíbula. O plano havia fracassado. Sua esposa não era cera, era granito. Ele não queria recuar, procurou outro caminho — a audácia tornou-se sua segunda chance, a primeira ele queria tirar de Angelina.

Caminho escorregadio

Sérgei escolheu a tática do cerco lento. Se não podia conquistar o castelo com um assalto, precisava envenenar os poços. Começou com a própria irmã: Ksênia, mulher direta e firme, logística portuária, detestava planos manipulativos. Encontraram-se em um café. As gaivotas gritavam sobre a água.

— Ksju, entende… — tilintou Sérgei, servindo chá. — Lá, eu só sou tolerado. Nós estamos planejando um filho. Como posso me sentir dono se podem me expulsar a qualquer momento?Ksênia apertou os olhos, mexendo o açúcar. Conhecia o irmão: sempre dramatizava as coisas, sempre puxava o cobertor para si.

— E Angelina, o que diz? — perguntou secamente.— Está histérica — deu de ombros Sérgei. — Grita como se estivessem cortando. Nada construtivo. Entende? A ganância leva à ruína. Eu só estou tentando por nós.Sérgei “trabalhou” até no aniversário de um amigo em comum, Vadim:

chamou discretamente o tio de Angelina, Misha, homem bondoso e influenciável.— Tio Misha, você é um homem sábio — sussurrou, entre cheiro de conhaque e cebola. — Diga a Gelya. Não se pode humilhar assim um homem.

Sérgei tecia a teia semana após semana. Angelina, a pintora de fachadas do edifício alto, parecia não perceber o sussurro. Mas diante dos policiais sempre conferia as cordas, a vibração.Em casa, as “histerias” tornaram-se mais frequentes. Quebrava pratos, gritava, mas ceder jamais.

Apenas raiva e cálculo frio. Sérgei pensava que a ganância a enlouquecia — mas Angelina já havia cortado a garantia há muito tempo.

A ruptura da garantia

A resolução veio na dacha, junto aos parentes próximos de Angelina. Sérgei sentiu que era o momento perfeito: o público aquecido, o terreno preparado.— Vamos beber à confiança! — bradou. — Que falta faz em algumas famílias.Silêncio constrangedor. Angelina ergueu a cabeça, um espetinho na mão, como um picareta de gelo.

— Ousaria falar sobre a minha casa na frente do meu pai? — tilintou a voz dela. — Você, que não moveu um dedo para trabalhar por esta casa?!Ksênia levantou-se. O sorriso de Sérgei escorreu do rosto.— Você é louco, Sérgio — disse claramente. — Seu salário vai para seus jogos.

Angelina mantém a casa. E você ainda fala de parte? Audácia sem limites.Angelina expirou. A “histeria” desapareceu num instante, dando lugar a uma calma gelada e predadora.— Obrigada, Ksju — disse baixinho. Depois virou-se para o marido. — Ouviu? Tópico encerrado.

Mais uma palavra sobre o apartamento — e você vai voar.

Vida na beira da janela

Dois meses em modo de guerra fria. Sérgei vivia no apartamento, mas se sentia como um espião atrás das linhas inimigas. Angelina administrava o lar com frases curtas e imperativas:— Compre pão.— Leve o lixo.— Não toque nisso.Sérgei sentia o calor e a ausência. Cada movimento de Angelina irradiava controle.

Queda

Festa da empresa em restaurante luxuoso. Sérgei queria mostrar seu status: esposa bonita, sucesso. O álcool soltou a língua, Sérgei começou a reclamar alto:— A minha ainda se mataria por um centavo! As mulheres querem tudo para si. Nenhuma confiança… — alto, para que todos ouvissem.

Silêncio à mesa. Angelina deixou lentamente o guardanapo. Entrou um frio cristalino perfeito. Levantou-se. A cadeira rangeu. Sérgei percebeu o olhar turvo, embriagado.O tapa abafou a música. Não foi um golpe feminino, mas uma mão de trabalho decidida.

— Você não é um genro instalado, Sérgio. Parasita. Seu período de quarentena acabou. Covarde.Angelina pegou a bolsa e saiu. Os vizinhos não ousaram intervir. Sérgei ficou, envergonhado. Chegou uma foto: sacos pretos na casa dos pais, legenda curta: “SEU. LEVE.”

Sérgei entendeu: nada restava. Lá embaixo, os sacos esperavam.No alto, no 19º andar, Angelina tomava chá, observando a cidade à noite. Silêncio. Liberdade. Sem medo. Apenas a altura permanecia.

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