Meu marido decidiu me dar uma lição e fez um “acerto de contas” diante da família. Eu disse uma frase — e os parentes imediatamente “se lembraram de assuntos urgentes”.

E ali, sobre o meu chá, de repente ficou claro: aquilo não era uma discussão.

Era um teatro.

Só que eu não tinha recebido nenhum papel — por isso tive de improvisar.

Enquanto isso, o Stas folheava a sua “lista”, que claramente tinha sido preparada naquela mesma manhã, enquanto ele treinava diante do espelho no papel de “gestor de crises familiares”.

— Segundo ponto — disse ele solenemente. — Não há controlo adequado das despesas domésticas. Alimentação. Roupa. Despesas da casa.

O tio Boris, nesse momento, mordia um sanduíche com ar entediado, como se as acusações fossem apenas ruído de fundo.

Eu pouso a colher.

— Isto é interessante — disse eu. — Então vamos esclarecer uma coisa. Isto é um relatório financeiro ou uma performance familiar?

— Isto é uma conversa séria! — explodiu o Stas.

— Numa conversa séria normalmente há números — respondi. — Não apenas estados de espírito.

A Anna Georgievna inclinou-se para a frente, como quem finalmente encontra o momento certo para intervir.

— Os números não significam tudo, Ilona. O papel de uma mulher é criar um lar, não competir com o marido.

Sorri, mas já não era um sorriso gentil.

— Tens razão — disse eu. — Criar um lar é importante. Por exemplo, também é importante que não haja dentro dele um espetáculo constante de humilhação.

A “plateia” ficou tensa por um instante. O Stas, por outro lado, parecia estar à espera disto: levantou a cabeça.

— Vês? É exatamente disso que falo! — apontou para mim. — Tu levas tudo como um ataque! Não se pode falar contigo normalmente!

— Não, Stas — disse lentamente. — Com você é que não se pode falar normalmente. Essa é a diferença.

O ar pareceu congelar na sala.

A Lenochka soltou um suspiro indignado, e a Anna Georgievna olhou para mim como se eu tivesse acabado de anunciar que ia vender a herança da família e mudar-me para Marte.

O rosto do Stas ficou vermelho.

— Isso não devia ter sido dito — disse ele, num tom ameaçador e baixo.

E foi nesse momento que chegou o instante que, mais tarde, todos iriam contar de forma diferente: eles como drama, ele como vitória, eu como libertação.

Pousei a chávena na mesa.

— Está bem — disse eu. — Então vamos falar de forma que todos entendam.

Olhei à volta. Nenhum deles se mexia.

— Isto não é um jantar de família — continuei calmamente. — É uma cena encenada, onde eu sou o bode expiatório e tu, Stas, és o herói que “resolve tudo”.

O Stas abriu a boca, mas não saiu som nenhum.

— A única diferença — continuei — é que esta história não funciona. Porque eu não vou continuar a participar.

A Anna Georgievna já estava visivelmente ofendida.

— Ilona, isso já é falta de respeito!

— Não — olhei para ela. — Isto é reconhecimento.

O tio Boris tossiu baixinho.

— Eu só vim para comer — disse ele suavemente, como se tentasse devolver o universo ao seu eixo original.

Mas já era tarde.

O Stas levantou-se de repente.

— Muito bem — disse ele. — Então diz. Tu não respeitas esta família.

Antigamente, eu provavelmente teria tentado explicar. Ou ficaria em silêncio. Ou tentaria “apaziguar”.

Desta vez, apenas acenei com a cabeça.

— Não — disse simplesmente. — Eu não respeito este espetáculo.

O silêncio deixou de ser tenso.

Passou a ser vazio.

Como no fim de uma peça em que as luzes se apagam cedo demais e os atores ainda ficam ali no escuro, sem saber se acabou ou se houve um erro de sinal.

O Stas olhou para mim e, pela primeira vez, não havia nem raiva nem superioridade.

Só confusão.

— Tu estragas sempre tudo — disse ele, por fim.

Sorri, mas agora já cansada.

— Não, Stas — respondi. — Eu só não continuo a participar.

Peguei na minha chávena, tomei o último gole, e pouso-a.

— Se isto foi um “jantar de família”, obrigado pelo convite.

Levantei-me.

A caminho da porta, não ouvi nada imediatamente atrás de mim. Ninguém gritou, ninguém me chamou de volta. Como se todos ainda estivessem a tentar perceber em que ato da peça estavam.

À porta, parei por um instante.

— Ah, e Stas — disse sem me virar. — Para a próxima escreve um melhor guião. Este foi demasiado óbvio.

E saí.

O ar frio da escada foi estranhamente sóbrio. Como se alguém tivesse baixado o volume do mundo de repente.

E, pela primeira vez naquela noite, eu não estava a pensar no que cada um pensava.

Mas sim no quão silencioso pode ser um lugar onde já não é preciso representar nenhum papel.

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