Naquela noite, preparei-me com um cuidado incomum. Sem pressa, sem correria, mas com aquela calma atenta que surge quando sentimos que um encontro tem peso, mesmo sem saber exatamente por quê.
Vesti “aquela” camisa que minha filha me deu de presente de aniversário. Não era cara nem chamativa, mas tinha um tipo de calor pessoal que nenhuma peça comum consegue ter.
Essas roupas não são para o dia a dia. São guardadas para momentos em que não basta estar apresentável — é preciso estar em ordem, por fora e por dentro.
No caminho, parei para comprar vinho. Não queria algo exagerado, nem algo simples demais.
Algo que combinasse com um jantar tranquilo, quando não é preciso provar nada, apenas estar presente. Diante das prateleiras, hesitei por alguns minutos.
Fiquei entre duas garrafas, como se fosse uma decisão importante e não apenas uma escolha de vinho. Então me lembrei de que Larisa tinha mencionado, quase de passagem, que gostava de vinho tinto seco.
Nada enfatizado, apenas um comentário casual no meio de uma conversa. No fim, escolhi a garrafa com um castelo no rótulo e a inscrição “Margem Esquerda”. Algo nela pareceu certo.
Enquanto dirigia até ela, percebi que estava sorrindo. Sem um motivo claro, apenas com uma expectativa calma e cautelosa.
Aquele tipo de esperança que não se diz em voz alta. Talvez fosse aquela noite rara, pensei, em que não é preciso representar nenhum papel.
Em que não é preciso ser melhor do que se é. Apenas sentar diante de alguém sem tensão.
A “camisa especial” virou quase um talismã.
O vinho, um pequeno gesto de atenção, nascido de uma lembrança casual.
E na minha mente se formava uma noite adulta, tranquila.
Conheci Larisa online. Aos 49 anos, isso ainda parece um pouco estranho, mas depois de um divórcio a gente deixa de escolher caminhos com tanta certeza. Passa simplesmente a reaprender como se conectar.
Me registrei de madrugada, quase meio adormecido. De manhã, ao reler meu perfil, ele parecia um pouco desajeitado: “procuro uma conversa agradável, talvez algo mais”. Uma frase cautelosa, mas sincera.
Foi ela quem escreveu primeiro. Curta e simples: “Você tem um sorriso bonito na foto.” Fiquei olhando para a mensagem por muito tempo, como se fosse um enigma.
No fim respondi: “É a única foto em que não estou piscando.” Não foi nada especial, mas algo em mim relaxou.
Mais tarde ela contou que ficou seis meses no site, depois apagou o perfil e voltou novamente. Ela não sabia exatamente o que procurava. Eu também não.
Mas isso não precisava ser dito. As noites podem ser longas em um apartamento vazio, e o silêncio às vezes pesa mais do que uma má companhia.
Já tínhamos nos encontrado três vezes: café, caminhadas e um jantar. Larisa ria com facilidade, às vezes tocava levemente minha mão quando queria enfatizar algo.
Pequenos gestos, mas significativos. No caminho de volta, eu sempre pensava: talvez isso funcione.
Nada de grandes emoções, nenhum drama — apenas algo que cresce lentamente entre duas pessoas.
Quando ela escreveu: “Venha na sexta, vou preparar o jantar”, li a mensagem três vezes. Não queria acreditar rápido demais. Ainda assim, era uma mensagem quente, clara, quase íntima.
Então chegou a noite.
A porta abriu quase imediatamente, como se ela estivesse esperando logo atrás dela. Larisa estava elegante em um vestido bonito. Ela parecia segura, bem composta, bonita.
Mas desde o primeiro instante senti uma distância estranha. Não nas palavras, mas na atmosfera.
Não foi um “oi”.
Foi simplesmente: “Entre.”

O apartamento estava impecavelmente organizado. Impecável demais. Cada coisa parecia ter seu lugar exato, sem espaço para acaso.
Um cheiro agradável de comida assada vinha da cozinha — provavelmente frango com ervas. O ar era agradável, mas um pouco estranho.
Entreguei o vinho. Ela pegou, olhou a garrafa e a colocou sobre a mesa. Não a abriu. Esse pequeno gesto disse mais do que palavras.
“Sente-se”, disse ela, apontando para o sofá da sala.
Não ao lado dela, não perto — mas em frente. Como se uma linha invisível já estivesse traçada entre nós.
Naquele momento eu ainda não sabia, mas algo já estava decidido.
Larisa não tinha pressa. Escolhia suas palavras com cuidado, como se já as tivesse preparado antes.
“Acho que preciso te dizer uma coisa logo de início”, começou.
Assenti, mas por dentro já estava tenso.
“Você é uma boa pessoa. Atencioso, calmo…”, disse ela com um leve sorriso que não chegou aos olhos. “Mas eu não sinto o que deveria sentir.”
A frase não foi dura. Não foi cruel. Foi apenas clara e definitiva.
E, estranhamente, não senti raiva nem mágoa. Apenas silêncio — e um alívio lento, como se finalmente tivesse colocado no chão algo que carregava há muito tempo.
“Entendo”, respondi depois de uma pausa.
E era verdade. Não porque eu não tivesse esperança, mas porque não havia mais dúvida na voz dela.
Conversamos mais alguns minutos. Educadamente, à distância. Trabalho, viagem, rotina. O vinho permaneceu fechado na mesa, o jantar no forno já não importava.
Eu me levantei primeiro.
“Obrigado pela sinceridade”, disse, sem reprovação.
Ela me acompanhou até a porta. O “até logo” foi mais suave, mas ainda distante.
No corredor, parei por um instante. Não por dor, mas para deixar a noite assentar dentro de mim. Então saí para o ar frio.
E algo inesperado aconteceu: eu sorri.
A camisa ainda estava em mim. O vinho na sacola. E a noite já não parecia uma perda, mas uma possibilidade encerrada.
E, de algum modo, isso trouxe paz.

