Duas horas antes do banquete, o noivo resmungou: “Você é apenas uma serviçal conveniente!” — mas perdeu para sempre o apartamento de outra pessoa.

Denis apareceu à porta da cozinha enquanto apertava o cinto das calças. Lançou um olhar rápido ao relógio da parede e estalou a língua com irritação, como se aquele pequeno som já fosse suficiente para expressar a sua impaciência.

— Já estás quase pronta? — perguntou, encostando-se ao batente da porta, de braços cruzados. — Eu ainda tenho de me vestir, e tu estás há uma hora a tratar de uma única camisa.

Lídia não respondeu de imediato. Desligou calmamente o ferro de engomar, alisou o tecido uma última vez e colocou a camisa num cabide com todo o cuidado. Só então se virou para ele.

— Está pronto — disse baixinho. — Aqui. Experimenta.

Denis pegou na camisa, virou-a nas mãos e examinou as costuras com olhar crítico. Não demorou muito até encontrar um defeito.

— Outra vez não apertaste o botão do punho. Sinceramente, estou sempre a ter de corrigir o básico depois de ti.

Lídia esfregou a testa, cansada.

— Denis, estou desde manhã de pé — disse ela com calma. — Recebi o estafeta, conferi o bolo, passei a tua roupa a ferro enquanto estavas a dormir. Podes, pelo menos hoje, parar com as críticas?

Ele sorriu. Não um sorriso carinhoso, mas condescendente — como alguém que fala com uma criança.

— Oh, não comeces com o papel de mártir. Os meus amigos nem percebem porque é que vou casar contigo. Não tens chama, não tens energia. És apenas… conveniente. Nada pessoal, apenas um facto.

Mas tens um apartamento T3 numa boa zona e um cargo de chefia. Cozinhas bem, pagas as contas. És o apoio perfeito para alguém que está a construir um negócio a sério.

As palavras ficaram suspensas no ar.

O ferro ainda estava quente nas mãos dela, mas dentro de Lídia tudo arrefeceu. Dois anos passaram-lhe pela mente: promessas, “projetos” que nunca avançavam, despesas que ela assumia, esperança que ela carregava sozinha.

— O que disseste? — perguntou ela, quase num sussurro.

— A verdade. Não faças essa cara, tu sabes bem — respondeu ele, já a virar-se para o quarto. — Anda, despacha-te. Os convidados já estão a chegar. Os meus pais já estão a caminho do restaurante.

Ele não fazia ideia de que, naquele momento, tudo tinha acabado.

Lídia não chorou. Não gritou. Apenas vestiu o casaco, calçou os sapatos, pegou na mala e saiu. A porta fechou-se com um clique seco, mas Denis não a seguiu.

Lá fora, o ar frio e húmido bateu-lhe no rosto. Inspirou fundo, como se pela primeira vez em muito tempo pudesse realmente respirar. Abriu o telemóvel automaticamente.

Aplicação do banco.

Dois movimentos rápidos.

Todas as suas poupanças voltaram para a sua conta pessoal.

Depois bloqueou o cartão.

O cartão que Denis usava todos os dias.

Em seguida, ligou à irmã.

— Zhanna, ouve-me com atenção — disse com firmeza. — Cancela tudo.

— O quê? Já está toda a gente lá!

— Eu não vou casar com ele.

Silêncio.

— Tens a certeza?

— Agora tenho.

A próxima paragem foi o notário. Entrou apressada, sem fôlego.

— Preciso de revogar uma procuração imediatamente — disse ela.

O homem mais velho olhou-a por cima dos óculos e acenou.

— Quem volta tão depressa já percebeu tudo — disse calmamente. — Está a fazer o correto.

Em poucos minutos, Denis perdeu qualquer autoridade legal sobre os assuntos dela.

O telemóvel não parava de vibrar.

“Onde estás?!”
“Os convidados estão à espera!”
“Porque é que o cartão não funciona?!”

Lídia sorriu ligeiramente.

Quando voltou a casa, Denis já lá estava. Andava de um lado para o outro, furioso, o rosto vermelho.

— O que é que fizeste?! — gritou. — Onde está o dinheiro?!

— Onde deve estar — respondeu ela calmamente. — Comigo.

— Era nosso!

— Não. Era meu.

— Põe tudo como estava!

— Também revoguei a procuração.

O rosto dele perdeu a cor.

— Tu destruíste-me!

— Não — disse Lídia suavemente. — Eu parei-te.

A campainha tocou. Zhanna estava à porta, com um técnico atrás dela.

— Viemos mudar a fechadura — disse ela.

Denis percebeu finalmente.

Vinte minutos depois, estava no corredor com as malas.

— Vais arrepender-te — murmurou. — Quem é que te vai aturar?

Lídia olhou-o com calma.

— Eu vou.

A porta fechou-se.

Dois meses depois, a primeira neve cobria a cidade. Lídia estava à janela com uma chávena de chá quente nas mãos. O apartamento estava silencioso, organizado e finalmente dela.

A carreira tinha melhorado. Fora promovida. À noite, frequentava aulas de cerâmica — algo que Denis chamava de perda de tempo.

Ele já era apenas uma memória distante.

Lídia observou a neve cair.

Agora sabia: às vezes, a decisão mais importante não é ficar e aguentar.

É sair a tempo.

E quando se sai, não se perde tudo.

Recupera-se a si própria.

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