— “Mais um jantar ‘de luxo’?” — a voz de Róbert saiu seca, carregada de ironia.
Ele respirou fundo. O aroma de limão e alecrim preenchia a cozinha, fresco e intenso, quase provocador. Contrastava com o cheiro pesado e gorduroso que ele próprio havia trazido para casa: salsichas baratas e massa cozida demais.
— “Hoje terminei um relatório difícil,” respondeu Svetlana calmamente, retirando a frigideira do fogão. “Quis preparar algo bom.”
Róbert sentou-se com força na cadeira. As pernas arranharam o linóleo, como se até a casa reagisse ao seu humor.
— “Eu revisei as nossas despesas,” disse ele lentamente, enfatizando cada palavra. “E sinceramente? Isto não é normal. Queijos artesanais, peixe, legumes fora de época… Estás a desperdiçar dinheiro. Eu trabalho até à exaustão e tu gastas tudo.”
Svetlana colocou o peixe no prato e desligou o exaustor. O silêncio caiu de repente, apenas interrompido pela chuva a bater na varanda metálica.
— “O que sugeres?” perguntou ela, sentando-se à frente dele.
Róbert bateu com a mão na mesa.
— “Orçamento separado para comida. A partir de amanhã. Cada um paga o seu.”
Ele esperava discussão. Protesto. Emoção.
Mas Svetlana apenas acenou com a cabeça.
— “Está bem. Orçamento separado.”

Na manhã seguinte, Róbert não encontrou café nem pequeno-almoço quente. Apenas um frasco de café instantâneo barato que ele mesmo tinha comprado em promoção. Svetlana já estava vestida no corredor.
— “O pequeno-almoço agora é da tua responsabilidade,” disse ela, saindo.
A porta fechou-se com um som definitivo.
À noite, o frigorífico tinha mudado.
Uma fita adesiva vermelha dividia a prateleira do meio em duas partes perfeitas.
À esquerda: caixas organizadas com etiquetas — “frango”, “legumes”, “salada”.
À direita: um pedaço de queijo seco e um pacote aberto de massa.
Róbert sorriu com desdém.
Teatro.
No dia seguinte, fez compras: salsichas baratas, massa, enlatados. Colocou tudo de propósito a ultrapassar a linha vermelha.
No início, sentia-se vencedor. Como se tivesse “ganho”. Cozinhava, comia, não fazia perguntas.
Svetlana continuava a sua rotina: trabalho, comida, limpeza, quarto. Silêncio organizado.
Mas as fissuras apareceram rapidamente.
— “Onde está o óleo?” perguntou ele uma noite, irritado.
— “Na minha prateleira,” respondeu ela sem levantar os olhos.
— “Sério que vou ao mercado por uma colher de óleo?”
— “Sim. Essa é a regra.”
Sem raiva. Apenas certeza.
Depois de duas semanas, a comida barata começou a afetá-lo. O estômago reclamava, o humor piorava. Enquanto isso, Svetlana comia refeições frescas e equilibradas, em silêncio.
— “Uma mulher de verdade espera o marido com comida quente,” murmurou ele um dia.
— “Um marido de verdade não divide a família em dois orçamentos,” respondeu ela.
No fim do mês, aproximava-se o seu quinquagésimo aniversário.
Antigamente, Svetlana organizava tudo: convidados, comida, bolo, preparação.
Desta vez, ele apenas disse:
— “Vêm vinte pessoas. Faz um jantar decente.”
— “Dá-me o orçamento,” respondeu ela.
Ele atirou um maço de notas amarrotadas para a mesa.
— “Faz o que puderes com isto.”
Ela não respondeu. Apenas anotou algo num caderno.
No dia seguinte, foi a um armazém na periferia da cidade. Luz fria, chão de betão, caixas empilhadas.
Comprou o mais barato possível: carne congelada, queijo processado, conservas, bebidas açucaradas.
Tudo cuidadosamente calculado.
Na noite da festa, o apartamento encheu-se de vozes e movimento.

Róbert ficou no centro, orgulhoso.
— “Por favor, sentem-se!”
Os convidados entraram na sala.
E pararam.
Na mesa havia comida cinzenta, massa pegajosa, carne industrial, saladas aguadas e molhos baratos. Nada fresco. Nada festivo. Nenhum aroma de celebração.
Silêncio.
— “Isto é uma piada?” sussurrou alguém.
— “Onde está a comida a sério?” perguntou outra voz.
Róbert virou-se bruscamente.
— “Onde está a comida?!”
Svetlana deu um passo à frente.
— “Isto é exatamente o que o teu orçamento permitiu,” disse calmamente. “Todos os recibos estão aqui.”
Colocou os talões sobre a mesa.
— “Quiseste separação financeira. Tens separação financeira. É assim que fica quando se transforma uma festa numa lista de preços.”
Os convidados não se sentaram. Um a um, começaram a sair, em silêncio, desconfortáveis.
Em poucos minutos, o apartamento ficou vazio.
Róbert ficou imóvel no meio da sala.
— “Humilhaste-me,” disse baixinho.
— “Não,” respondeu Svetlana. “Apenas segui as tuas regras até ao fim.”
Levou a louça para a cozinha e abriu a torneira.
O som da água encheu o silêncio.
Nessa noite, Róbert ficou sozinho na cozinha, olhando para a fita vermelha dentro do frigorífico.
De manhã, já não estava lá.
No dia seguinte, havia sacos de compras com alimentos frescos e flores sobre a mesa. Um bilhete dizia:
“O orçamento voltou a ser comum. Desculpa.”
Svetlana ficou a olhar por um momento.
Não sorriu.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, a casa deixou de parecer tensa.
Apenas silenciosa.
E tranquila.


