Ouvi a voz de Alla antes mesmo de abrir a porta do salão de festas.
Aguda. Alta. Confiante. O tipo de voz capaz de preencher uma sala inteira sem sequer fazer esforço.
Ela estava no meio de um pequeno grupo, segurando um copo de suco e contando a todos sobre o marido.
Eu estava meia hora atrasada. Kostia tinha se atrasado no trabalho porque o equipamento de refrigeração de um supermercado na Rua Zarechnaya havia quebrado. Depois de trocar o compressor, lavar as mãos, trocar de roupa e chegar ao ponto de ônibus, ele descobriu que o ônibus já tinha ido embora. Precisou esperar o próximo.
— …e vocês conseguem acreditar, meninas? Agora ele é o diretor de toda a divisão regional! — dizia Alla. — Trezentas pessoas respondem a ele. Trezentas!
Então ela me viu.
— Ah! Olhem só quem finalmente chegou. Nossa pequena discreta! Estávamos justamente falando sobre nossos maridos.
Tirei o casaco e me sentei na única cadeira vazia.
Bem na frente dela.
Vinte e cinco anos haviam se passado desde que terminamos a escola. Dos nossos trinta e dois colegas, apenas dezoito tinham aparecido. Era um restaurante comum, um jantar simples, e cada um havia contribuído com três mil rublos.
Nada de luxuoso.
Mas Alla parecia ter vindo preparada para fazer uma apresentação.
— Trezentos funcionários — repetiu ela com um sorriso. — Vocês conseguem imaginar a responsabilidade? Todos os dias ele toma decisões que afetam salários, entregas e empresas inteiras. Quando chega em casa, ainda passa mais duas horas trabalhando no laptop. Eu digo: “Desliga isso e descansa!” Mas ele não consegue. As pessoas estão esperando pelas decisões dele.
Nina, que certa vez havia se sentado ao meu lado na escola, inclinou-se em minha direção.
— Onde está seu marido?
— Em casa. Ele não pôde vir. Tinha trabalho.
— O que ele faz?
— Repara equipamentos de refrigeração.
Falei baixinho.
Mas Alla ouviu mesmo assim.
Ou talvez simplesmente quisesse fingir que tinha ouvido.
Ela colocou o copo sobre a mesa e olhou diretamente para mim.
Eu conhecia aquele olhar.
Conhecia desde a nona série.
— Meninas, a vida de cada pessoa acaba seguindo um caminho diferente — disse Alla. Ela fingia estar falando com todas, mas seus olhos continuavam fixos em mim. — Algumas mulheres se casam com homens ambiciosos, que constroem carreiras e sobem na vida. Outras ficam com trabalhadores comuns. Vocês sabem… pessoas que trabalham o dia inteiro e vivem de salário em salário.
Ela sorriu.
— Também é uma vida. Apenas… em outro nível.
A mesa ficou em silêncio.
Alguém pigarreou.
Nina olhou para o prato.
Senti meu rosto esquentar.
Não de vergonha.
De raiva.
Eu queria dizer a Alla exatamente o que pensava dela.
Em vez disso, lembrei-me de Kostia chegando em casa quase à meia-noite na noite anterior, depois de um chamado de emergência.
Ele havia simplesmente reaquecido o jantar e se sentado na cozinha.
Eu acordei e fui até ele.
— Por que você não está dormindo?
— Estou com fome. Estou exausto. Desculpe por ter acordado você.
Então ele comeu um prato de macarrão que o micro-ondas nem sequer havia aquecido direito.
“Um trabalhador comum.”
Era assim que Alla o enxergava.
Mas Kostia conseguia desmontar um equipamento de refrigeração apenas ouvindo seu funcionamento. Conseguia descobrir o problema pelo som do compressor ou pela menor vibração.
Era para ele que os outros técnicos ligavam quando já tinham desistido e aconselhado o cliente a comprar um equipamento novo.
Kostia chegava, passava duas horas trabalhando com as próprias mãos e, de alguma maneira, fazia a velha máquina voltar a funcionar.
Ele não tinha trezentos funcionários.
Não dirigia um carro executivo caro.
Não gastava sessenta mil rublos por noite em quartos de hotel com vista para as montanhas.
Mas nós tínhamos um lar.
Nossa filha estudava para se tornar chef.
Nossa geladeira estava sempre cheia.
E quando eu chegava em casa cansada, Kostia sempre percebia.
O que mais eu precisava?
Aparentemente, Alla precisava de muito mais.
Para ela, o valor de uma pessoa podia ser medido pelo cargo, pelo salário e pelo número de pessoas que respondiam a ela.
— Então, o que exatamente seu marido faz? perguntei finalmente.
Alla imediatamente se animou.
Era evidente que estava esperando por aquela pergunta.
— Ele é diretor regional de uma grande rede de supermercados. Vinte e oito lojas em toda a região. Fornecedores, aluguéis, funcionários, negociações… O telefone dele nunca para de tocar. Às vezes digo: “Desliga!” Mas ele responde: “Não posso. Os negócios não esperam.”
Ela suspirou orgulhosamente.
— Isso é responsabilidade. Nem todo mundo consegue lidar com isso.
Nina tentou rapidamente mudar de assunto.
— Vocês viajam muito?
Alla sorriu.
— No ano passado fomos para as montanhas. Ficamos em uma suíte de dois andares com vista para um desfiladeiro. Sessenta mil rublos por noite.
Ela fez uma pausa para dar efeito às palavras.
— Mas valeu a pena. Quando você acorda de manhã, as nuvens estão praticamente na altura da janela. Não se ouve nada além dos pássaros.
Ela falava como se estivesse lendo um catálogo de viagens de luxo.
Eu me lembrava desse hábito desde a escola.
Alla nunca simplesmente contava uma história.
Ela se apresentava.
Depois, a conversa passou para os filhos.
A filha dela estudava em uma escola particular com um programa intensivo de idiomas.
O filho fazia aulas de tênis com um treinador particular.
— Nunca devemos economizar dinheiro com nossos filhos — declarou ela.
— Eles são um investimento.
Percebi que estava rasgando um guardanapo de papel embaixo da mesa.
Então meu telefone tocou.
Kostia.
Saí para o corredor.
— Como você está? — perguntou ele. — Está com frio? Começou a chover. Quer que eu vá buscá-la?
Minha garganta apertou.
— Não, ainda está cedo. E você, como está?
— Tudo bem. Terminei o chamado. Estou na oficina agora, reconstruindo dois compressores.
Fechei os olhos.
Ele havia passado o dia inteiro dirigindo pela cidade, levantando e consertando equipamentos pesados e, em vez de ir para casa descansar, ainda estava trabalhando na oficina.
E, mesmo assim, estava mais preocupado se eu estava com frio na reunião do que consigo mesmo.
— Está tudo bem — respondi baixinho. — Ligo para você depois.
— Está bem. Dê um abraço em todos por mim.
Voltei para dentro.
Alla agora falava sobre o carro do marido.
Executivo.
Preto.
Interior de couro.
Ar-condicionado de quatro zonas.
Pensei no nosso velho carro usado.
Kostia o havia comprado três anos antes. Não era bonito, mas funcionava.
Ele mesmo trocava o óleo.
Ele mesmo trocava as pastilhas de freio.
“Por que pagar alguém se eu mesmo posso fazer?”, dizia sempre.
E eu concordava com ele.
Então Alla baixou a voz.
— Sabe o que eu penso? Sucesso não é sorte. É trabalho duro todos os dias. Meu marido acorda às seis da manhã e vai dormir à uma da madrugada. Ele sacrifica a saúde, o tempo e os nervos. Algumas pessoas ficam sentadas em oficinas esperando chamados e acham que fizeram algo de suas vidas.
Ela olhou diretamente para mim.
— Ambições diferentes. Atitudes diferentes em relação à vida.
Ela nunca disse o nome de Kostia.
Não precisava.
Todos entenderam.
E foi naquele momento que eu realmente fiquei furiosa.
Não porque ela estivesse insultando meu marido.
Ela sequer o conhecia.
Eu estava furiosa porque ela fazia aquilo na frente de pessoas com quem eu havia estudado durante tantos anos.
E ninguém a impedia.
Ninguém dizia:
“Alla, chega.”
Todos simplesmente olhavam para os próprios pratos.
Foi então que percebi uma coisa.
Eles tinham medo dela.
Medo de sua confiança.
De sua voz alta.
De seus brincos caros.
De sua certeza de que era, de alguma maneira, melhor do que todos os outros.
Porque, se você desafiasse Alla, se tornaria o próximo alvo.
Então todos permaneciam em silêncio.
Mais tarde naquela noite, o marido de Alla chegou.
Era alto, vestia um terno caro e carregava uma pasta de couro.
Alla praticamente brilhava.
— Ah, aí está meu marido! Ele prometeu passar aqui!
Ele se aproximou educadamente e cumprimentou todos.
Mas, quando olhei para ele com atenção, a imagem não combinava nem um pouco com a história.
Ele parecia exausto.
Tinha olheiras profundas.
A gravata estava frouxa.
Ele se deixou cair na cadeira ao lado da esposa e soltou um longo suspiro.
— Estou com fome — disse baixinho, estendendo a mão para pegar um sanduíche.
Alla imediatamente segurou sua mão.
— Não coma isso. Você não pode. Eu pedi algo separado para você no carro.
— Estou com fome.
— Pode esperar. Você vai comer em casa.
Ele lentamente retirou a mão.
Durante alguns minutos, ficou apenas sentado, olhando para o vazio.
Então o telefone tocou.
Ele se levantou e saiu.
Alla o observou com orgulho.
— Estão vendo? Mesmo tendo três reuniões hoje e uma videoconferência com Moscou, ele veio me ver. Isso é um homem de verdade. Ele sempre encontra tempo para a família.
Olhei para o relógio.
Eram dez e meia.
Kostia provavelmente já estava em casa.
Talvez estivesse esperando por mim.
Quando o marido de Alla voltou, parecia ainda mais cansado.
Sentou-se na beirada da cadeira e falou baixinho com a esposa.
Eu não estava prestando atenção, mas ouvi alguns trechos.
— …eles rejeitaram o relatório…
— …o fornecedor não cumpriu o prazo…
— …amanhã às oito…
Alla respondeu imediatamente:
— Você é o gerente. Delegue.
— Não posso delegar algo pelo qual depois serei responsabilizado.
— Então você contratou as pessoas erradas.
O homem fechou os olhos.
— Alla, por favor. Agora não. Estou realmente cansado.
E, de repente, enxerguei aquilo que não havia percebido durante toda a noite.
Por trás da imagem da “família bem-sucedida”, havia simplesmente um homem exausto.
Um homem que mal dormia.
Um homem que nem sequer conseguia comer quando estava com fome.
Trezentos funcionários não significavam apenas trezentas pessoas.
Significavam trezentos problemas.
Vinte e oito lojas não significavam apenas vinte e oito lojas.
Significavam vinte e oito dores de cabeça.
E aquele carro executivo caro?
Era simplesmente um lugar onde ele passava horas todos os dias atendendo telefonemas.
Perto da meia-noite, todos começaram a ir embora.
Nina me alcançou no corredor.
— Não fique brava com Alla. Ela sempre foi assim.
— Eu não estou brava — menti. — Foi apenas desagradável.
Nina hesitou.
— Meu marido trabalha como encarregado de obras. Ele chega completamente exausto no fim de cada dia. Mas, quando chega em casa, brinca com as crianças. Nos fins de semana, vamos para o interior. Sinceramente, o que eu ganharia se ele passasse todas as horas em que está acordado em reuniões?
Eu sorri.
Lá fora, o ar cheirava a asfalto molhado e folhas de outono.
Liguei para Kostia.
Ele atendeu imediatamente.
— Terminou?
— Sim. Você ainda não está dormindo?
— Não. A chaleira está quente. Venha para casa.
Eu sorri.
— Estou a caminho.
Quando cheguei em casa, mal tinha tirado os sapatos quando senti o cheiro de chá.
Kostia havia preparado tudo.
Uma xícara de chá quente estava sobre a mesa.
Ao lado, havia dois sanduíches com manteiga e queijo.
Ele sabia que eu sempre chegava com fome de encontros assim porque ficava constrangida demais para comer muito na frente de todos.
— Como foi? — perguntou.
Tomei um gole de chá.
Queria contar tudo a ele.
Mas não consegui.
Repetir as palavras cruéis de Alla só iria machucá-lo.
Ele provavelmente daria de ombros e diria: “Esqueça. As pessoas falam todo tipo de coisa.”
Mas eu o conhecia.
Ele se lembraria.
E, na próxima vez que eu o convidasse para algum lugar, talvez inventasse uma desculpa para não ir.
Não porque tivesse vergonha.
Mas porque jamais gostaria de me colocar em uma situação desconfortável.
— Foi tudo bem — respondi. — Conversamos. Alla Soboleva estava lá.
Kostia sorriu.
— Soboleva? Aquela de quem você me falou? A garota que mandava em todo mundo na escola?
— Ela mesma.
— E como ela está?
Sorri.
— Ainda mandando em todo mundo.
Ele riu.
E foi só isso.
Não me interrogou.
Não precisava saber todos os detalhes.
Simplesmente sentou-se ao meu lado, tomando chá em sua caneca favorita.
A caneca tinha sido um presente de aniversário dos colegas de trabalho.
Nela estava escrito:
“Melhor técnico do mundo.”
E, de repente, compreendi o que havia me faltado durante toda aquela noite.
Não era dinheiro.
Não era status.
Não eram roupas caras nem viagens luxuosas.
Era paz.
A liberdade de ser eu mesma.
A certeza de que não precisava provar nada para a pessoa sentada à minha frente.
Três dias depois, Nina ligou.
— Você não vai acreditar no que aconteceu. Vi Alla no shopping.
— O que aconteceu?
— O marido dela foi demitido. Tecnicamente, o cargo dele foi extinto. Outra empresa comprou a rede e começou uma reestruturação. Toda a equipe de administração regional foi cortada.
Fiquei em silêncio.
— Pelo que parece, ele recebeu ofertas de outras cidades, mas eles não querem se mudar. E Alla… — Nina hesitou. — Não conte a ninguém que fui eu que disse isso, mas ela estava péssima. Sem maquiagem. Olhos vermelhos. Ela até estava perguntando se alguém precisava de uma professora de inglês. Ela trabalhava em uma escola de idiomas. Acho que o dinheiro está começando a ficar curto.
Coloquei o telefone sobre a mesa e fiquei olhando para a parede por um longo tempo.
A notícia não me deixou feliz.
Eu não conseguia comemorar a desgraça de outra pessoa.
Mas pensei em como a vida pode mudar rapidamente.
Ontem, sessenta mil rublos por uma noite em um quarto com vista para as montanhas.
Hoje, preocupação sobre como pagar uma escola particular.
Naquele mesmo dia, Kostia estava instalando um balcão refrigerado em um novo supermercado.
Chegou em casa de bom humor.
— O proprietário gostou. Ofereceu-me mais dois trabalhos.
Olhei para meu marido e senti um calor crescer dentro do peito.
Porque, enquanto existirem supermercados, restaurantes, armazéns, cafés e fábricas, sempre haverá alguém precisando de uma pessoa que saiba consertar aquilo que quebra.
Não atrás de uma mesa.
Não através de um laptop.
Não em uma videoconferência com Moscou.
Com as próprias mãos.
Com vinte anos de experiência.
Uma semana depois, encontrei Alla no supermercado.
Ela estava diante da seção de congelados, olhando o preço de um pacote de pelmeni.
Quase passei direto.
Mas ela me viu.
— Ah… oi.
Sua voz não tinha nada a ver com aquela da reunião.
Baixa.

Quase insegura.
— Oi.
Ela hesitou.
— Eu queria pedir desculpas.
Olhei para ela.
— Por aquela noite. Falei demais. Me comportei terrivelmente.
Por um momento, nenhuma de nós disse nada.
— Esqueça — falei.
— Não. Sério. Eu não deveria ter dito aquelas coisas. Foi estúpido.
Ela ainda não conseguia olhar nos meus olhos.
Colocou os pelmeni no carrinho e foi rapidamente em direção ao caixa.
Fiquei observando-a partir.
Naquela noite, contei a Kostia o que havia acontecido.
Ele simplesmente deu de ombros.
— Ela pediu desculpas. Isso é bom.
— Você acha que ela realmente entendeu?
— Não sei.
Ele tomou outro gole de chá.
— Mas não guarde rancor. O que isso vai fazer de bom para você?
Ele tinha razão.
Às vezes ainda penso naquela reunião.
Lembro-me de Alla se gabando do marido.
Trezentos funcionários.
Vinte e oito lojas.
Um carro de luxo.
Um quarto de hotel com vista para as montanhas por sessenta mil rublos a noite.
E então penso em Kostia.
No chá quente que me esperava.
Nos dois sanduíches.
No pequeno bilhete que ele deixa sobre a mesa da cozinha.
“Volto às sete. O almoço está na geladeira.”
E percebo uma coisa.
Talvez, aos olhos de Alla, meu marido seja apenas um “trabalhador comum”.
Mas, para mim, ele é o homem que faz nossa casa parecer segura.
O homem que não precisa de aplausos.
O homem que não precisa impressionar ninguém.
O homem que pergunta se estou com frio e se oferece para ir me buscar.
Eu não preciso de um marido com trezentos funcionários.
Não preciso de um cargo impressionante.
Não preciso de um carro de luxo ou de uma suíte com vista para as montanhas.
Preciso da pessoa que chega em casa, lava as mãos, prepara o chá e se senta ao meu lado em silêncio.
Porque a verdadeira felicidade nem sempre é barulhenta.
Às vezes, é apenas uma xícara de chá quente.
Dois sanduíches.
Um bilhete sobre a mesa da cozinha.
E alguém que pergunta:
“Está com frio? Quer que eu vá buscá-la?”
Talvez isso valha muito mais do que qualquer cargo profissional impressionante.
Você já parou para pensar no que realmente é valioso em sua vida — e no que você possui apenas porque quer impressionar outras pessoas?


