Quando Oksana chegou a casa, não conseguiu acreditar no que estava a ver. O marido e a sogra estavam a vender o apartamento dela às escondidas — e já tinham convidado os potenciais compradores!
A chave rodou na fechadura com um único movimento, seguido de um clique suave. Oksana franziu a testa. A porta de entrada estava fechada apenas com o trinco inferior; a fechadura principal não tinha sido acionada.
Isso significava que alguém estava em casa.
No entanto, naquela manhã, Vitaly jurara que passaria o dia inteiro no trabalho e que, à noite, iria visitar a mãe. Para Oksana, aquilo já se tornara habitual. Nos últimos meses, o marido chegava cada vez mais tarde, enquanto a sogra lhe telefonava quase todos os dias, inventando diferentes motivos para lhe pedir dinheiro.
Oksana tirou os sapatos e entrou silenciosamente no corredor. Ouviam-se vozes vindas da sala de estar.
— Estou a dizer-vos que este apartamento está em excelentes condições! — dizia alegremente Lyubov Petrovna, a sogra. — Tem divisões luminosas, uma boa distribuição e o metro fica perto. Por este preço, não vão encontrar nada melhor!
Oksana ficou imóvel.
O apartamento dela?
Espiou cuidadosamente pela entrada da sala. Três pessoas estavam sentadas lá dentro. Vitaly estava instalado no sofá, ao lado da mãe, que explicava alguma coisa a um homem e a uma mulher desconhecidos. Sobre a mesa havia plantas do apartamento, documentos e chávenas de chá.
— A cozinha está um pouco antiquada, mas isso pode ser facilmente resolvido — continuou Lyubov Petrovna. — O mais importante é que o edifício é sólido e as paredes são espessas.
A mulher desconhecida assentiu.
— Sim, a localização é muito importante para nós. Mas o proprietário está de acordo com a venda?
Vitaly soltou uma risada nervosa.
— Claro que sim. Já está tudo combinado.
Oksana sentiu como se o chão lhe desaparecesse debaixo dos pés.
O proprietário?
Era ela a proprietária. Tinha herdado aquele apartamento dos pais antes de se casar. Vitaly não tinha qualquer direito legal sobre o imóvel, para além de viver ali.
Oksana entrou na sala.
— Muito interessante — disse calmamente. — E quando foi que decidiram vender o meu apartamento?
O silêncio instalou-se imediatamente.
Vitaly levantou-se de um salto, como se tivesse levado um choque elétrico.
— Oksana! Tu… já chegaste?
— Como podes ver, sim — respondeu ela, fixando o olhar na sogra. — Talvez me expliquem o que estão a fazer em minha casa.
Lyubov Petrovna ficou confusa durante um instante, mas rapidamente recuperou a compostura e esboçou um sorriso confiante.
— Oksana, não comeces com os teus escândalos. Estamos apenas a mostrar o apartamento a estas pessoas.

— O meu apartamento?
— Sim, o teu apartamento — respondeu a sogra, irritada. — Mas tu e o Vitaly são uma família. Numa família, tudo deve ser partilhado.
Oksana soltou uma risada amarga.
— Curioso. Quando era eu a pagar as despesas do apartamento, ele era apenas meu. Agora que decidiram vendê-lo, de repente passou a ser de todos?
Vitaly aproximou-se dela e falou em voz baixa:
— Por favor, não comeces agora. Eu explico-te tudo.
— Ótimo. Começa. Porque estás a tentar vender o meu apartamento pelas minhas costas?
Vitaly desviou o olhar.
— Precisamos de dinheiro.
— Quem precisa de dinheiro?
— A família!
Oksana cruzou os braços.
— E de que quantia estamos a falar?
Lyubov Petrovna intrometeu-se na conversa.
— Tu não vais compreender. O Vitaly tem problemas, as dívidas acumularam-se. Encontrámos uma solução e tu tens de nos ajudar.
— Vendendo o meu apartamento?
— Não há outra saída! — respondeu a sogra bruscamente. — Afinal, vocês são casados. Não podes guardar os teus bens só para ti.
Oksana olhou para o casal desconhecido.
— Peço desculpa, mas parece que vos deram informações falsas. Eu não autorizei a venda do apartamento e não tenho qualquer intenção de o vender.
A mulher trocou um olhar constrangido com o marido.
— Disseram-nos que estava tudo acordado…
— Agora já sabem que não é verdade — respondeu Oksana.
O casal levantou-se. O homem juntou os documentos, enquanto a mulher fez um gesto educado de despedida a Oksana.
— Pedimos desculpa. Não sabíamos que havia este mal-entendido.
— Não há problema. Boa tarde.
Assim que a porta se fechou, a expressão de Vitaly mudou.
— Tens noção do que acabaste de fazer?! — gritou ele. — Eram compradores a sério!
— E tu achavas mesmo que podias vender o meu apartamento sem me consultar?
— Eu sou teu marido!
— E isso dá-te o direito de venderes os meus bens às escondidas?
Lyubov Petrovna levantou-se e colocou-se diante de Oksana.

— És uma mulher ingrata! O meu filho vive contigo, está ao teu lado, e quando precisa de ajuda, é assim que o tratas?
Oksana olhou diretamente para a sogra.
— O seu filho vive no meu apartamento. E eu não obrigo ninguém a ficar aqui.
Vitaly cerrou os punhos.
— Não me ameaces!
— Não te estou a ameaçar. Estou apenas a dizer que este apartamento é meu e que sou eu quem decide o que fazer com ele.
Oksana foi para o quarto, tirou o telemóvel da mala e ligou ao advogado. Explicou-lhe brevemente o que tinha acontecido e pediu-lhe que verificasse se alguém tinha preparado ou assinado algum documento em seu nome.
Quando regressou à sala, Vitaly continuava de pé, enquanto a mãe recolhia silenciosamente os papéis espalhados pela mesa.
— O que estás a fazer? — perguntou o marido.
— A proteger aquilo que me pertence.
— Estás a destruir esta família!
Oksana abanou a cabeça.
— Não, Vitaly. Uma família é destruída por quem abusa da confiança do cônjuge e toma decisões importantes pelas suas costas.
Lyubov Petrovna pegou na mala.
— Vitaly, vamos embora. Não vale a pena falar com esta mulher.
Quando se dirigiam para a porta, Oksana acrescentou:
— E mais uma coisa. Até que o advogado verifique tudo, ninguém voltará a entrar nesta casa sem a minha autorização. Nem compradores, nem agentes imobiliários, nem familiares.
A sogra virou-se, como se quisesse responder, mas Vitaly agarrou-lhe no braço e conduziu-a para fora.
A porta fechou-se.
Oksana ficou sozinha. Ainda se sentia no ar o perfume dos desconhecidos e, sobre a mesa, tinham deixado uma folha de papel. Ela pegou nela e começou a ler.
Era uma minuta de acordo preliminar para a venda do apartamento. O documento indicava o preço, os dados dos compradores e a data prevista para a transação. Na parte inferior, havia um espaço destinado à assinatura de Oksana.
Mas foi outro pormenor que mais lhe chamou a atenção: uma parte do dinheiro obtido com a venda seria utilizada para pagar as dívidas de Vitaly, enquanto o restante deveria ser transferido para a conta bancária de Lyubov Petrovna.
As mãos de Oksana começaram a tremer.
Aquilo não era um simples mal-entendido familiar. Eles tinham planeado tudo com antecedência.
Ela fotografou os documentos e enviou-os ao advogado. Depois, decidiu mudar as fechaduras da porta.
Nessa noite, Vitaly ligou-lhe várias vezes. Oksana não atendeu. Por fim, recebeu uma mensagem.
«Não tens o direito de me tratar assim. Fizemos isto pela família.»
Oksana ficou muito tempo a olhar para o ecrã antes de responder brevemente:
«Ninguém faz nada pela família tentando vender fraudulentamente os bens de outra pessoa.»
Pousou o telemóvel e aproximou-se da janela. Lá fora, era uma noite como tantas outras. Os carros circulavam, os vizinhos regressavam a casa e a cidade continuava a sua rotina.
Oksana sabia que os dias seguintes seriam difíceis. Vitaly e a mãe não desistiriam tão facilmente. Poderiam pressioná-la, ameaçá-la ou tentar fazê-la mudar de decisão.
Mas uma coisa já estava decidida: na sua própria casa, nunca mais permitiria que alguém decidisse por ela como deveria viver.
E, se Vitaly e Lyubov Petrovna pensavam que Oksana acabaria por ceder em silêncio, em breve descobririam o quanto estavam enganados.

