A enfermeira não leu o conteúdo dos documentos em voz alta. Em vez disso, aproximou a pasta de Olena e mostrou-lhe os antigos registos médicos. As datas e as anotações clínicas correspondiam exatamente ao que Andrei acabara de admitir numa conversa com Denis: as prescrições tinham realmente sido alteradas durante as gravidezes de Olena, e o nome do mesmo médico aparecia repetidamente associado a essas mudanças.
Olena ficou a olhar para as linhas. Pela primeira vez, compreendeu que as recordações das três gravidezes que perdera não eram apenas fragmentos de dor, confusão e culpa. Existiam alterações documentadas no seu tratamento. Alguém tinha tomado decisões que poderiam ter afetado a sua saúde, e ninguém lhe explicara porquê.
— Quem prescreveu estes medicamentos? — perguntou ela em voz baixa.
A enfermeira apontou para o nome no final da página.
Olena sentiu o estômago contrair-se. Reconhecia aquele nome. Era o mesmo médico que a acompanhara durante pelo menos duas das gravidezes e de quem Andrei sempre falara com respeito. Ele dizia que o homem era experiente, de confiança, e que não precisavam de se preocupar enquanto fosse ele a supervisionar o tratamento.
— Não posso dizer-lhe mais do que aquilo que está escrito aqui — respondeu a enfermeira com cautela. — Mas tem o direito de solicitar uma cópia completa do seu processo clínico.
— Porque é que ninguém me disse que o meu tratamento tinha sido alterado?
A enfermeira baixou os olhos.
— Não lhe sei responder.
Olena voltou a examinar os documentos. Algumas anotações eram claras; outras continham abreviaturas e expressões que não compreendia. Ainda assim, um padrão começava a tornar-se evidente: as alterações tinham sido feitas em momentos particularmente delicados, e o nome do mesmo médico surgia repetidamente.
— Quem imprimiu esta cópia? — perguntou de repente.

A enfermeira ficou imóvel.
— Fui eu — confessou, após alguns segundos. — Retirei os documentos do sistema interno do hospital. Sabia que tinha o direito de consultar os seus dados médicos, mas também percebia que isto poderia ter consequências graves. Por isso, imprimi apenas as páginas relacionadas com as alterações feitas durante as suas gravidezes.
— E os documentos originais?
— Continuam no seu processo clínico. Não alterei nem apaguei absolutamente nada.
Olena não sabia se devia sentir gratidão ou medo. A enfermeira ajudara-a a descobrir algo que talvez explicasse anos de sofrimento, mas também correra riscos ao preparar aqueles documentos por iniciativa própria.
— Mais alguém perguntou por estes registos? — perguntou Olena.
A enfermeira hesitou antes de responder.
— Há alguns dias, alguém telefonou para o departamento. A pessoa perguntou especificamente pelos registos médicos dos períodos em que esteve grávida. Não explicou o motivo, e eu não forneci nenhuma informação.
Olena sentiu as mãos ficarem frias.
— Sabe quem era?
— Não. A pessoa não deu o nome.
Antes que Olena pudesse fazer outra pergunta, a porta abriu-se.
Andrei estava à entrada. O seu olhar passou de Olena para a pasta nas mãos dela e, em seguida, para a enfermeira.
— O que foi que deste ao Denis? — perguntou.
Tentou manter a voz calma, mas a tensão denunciava-o. Não parecia alguém que quisesse simplesmente compreender a situação. Parecia antes alguém que já sabia que algo tinha vindo à tona e agora tentava descobrir até onde a verdade chegara.
Olena apertou a pasta com mais força.

— Porque estás tão interessado no que o Denis recebeu?
— Porque estes são dados médicos confidenciais — respondeu Andrei rapidamente. — Não sabes no que te estás a meter.
— Então explica-me o que significam.
Olena colocou uma das páginas à sua frente e apontou para o nome do médico.
Andrei mal olhou para o documento. O seu rosto ficou rígido e, durante alguns segundos, pareceu ter-se esquecido do que ia dizer.
Aquela reação foi suficiente para despertar ainda mais suspeitas.
— Tu sabias destas alterações — afirmou Olena.
— Estás a tirar conclusões precipitadas.
— Então explica-me o que aconteceu.
Andrei deu um passo em direção a ela, mas Olena afastou os documentos.
— Ouve-me — disse ele em voz baixa. — Se começares a investigar aquele médico, vais descobrir coisas que talvez não estejas preparada para ouvir.
— Que coisas?
Andrei não respondeu imediatamente. Por fim, olhou-a diretamente nos olhos.
— Vais descobrir quem pediu pessoalmente que o teu plano de tratamento fosse alterado antes da tua terceira gravidez.
Olena sentiu como se o chão desaparecesse debaixo dos seus pés.
— Quem? — sussurrou.
Andrei desviou o olhar.
Nesse instante, o telefone da enfermeira vibrou. Ela olhou para o ecrã e perdeu toda a cor do rosto.
Era uma mensagem de um número desconhecido:
«Se entregaste a cópia, serás responsabilizada pelo que acontecer a seguir.»
A enfermeira mostrou o ecrã a Olena. Andrei leu a mensagem por cima do ombro dela e ficou completamente em silêncio.
Agora, Olena já não era a única pessoa que tinha motivos para sentir medo.
Alguém sabia que os documentos tinham sido descobertos. Alguém queria impedir que fossem investigados. E, se Andrei estivesse a dizer a verdade, a resposta sobre o que acontecera durante a sua terceira gravidez estava mais perto do que Olena alguma vez imaginara.
Olena voltou a olhar para ele.
— Tu sabes quem fez isto — afirmou.
Andrei fechou os olhos por um instante.
— Eu só queria proteger-te — murmurou.
Mas Olena já tinha ouvido aquelas palavras antes. E, desta vez, não ia permitir que servissem para pôr fim à conversa.

