“Vou me casar com a primeira mulher que entrar neste salão!” declarou o milionário. Mas quando as portas se abriram, o riso cessou.

O pesado copo de água mineral bateu na mesa com um som surdo. A água se espalhou, molhando a borda do guardanapo branco impecável, mas Boris nem sequer desviou o olhar.

Ele tinha quarenta e nove anos, era dono de uma rede de centros logísticos espalhados por todo o país — e, naquele momento, sentia vontade de reduzir aquele restaurante pretensioso a escombros.

— Você está encarando o saleiro há dez minutos — comentou Vadim com calma, cortando um pedaço do seu bife. O garfo arranhou levemente a porcelana. — Problemas com fornecedores de novo?

Boris afrouxou o nó da gravata. Um jazz suave tocava ao fundo. Ao redor, pessoas elegantes conversavam sobre investimentos e viagens de luxo. Tudo era perfeito. Perfeito demais. E insuportavelmente entediante.

— Não são os fornecedores — disse Boris, inclinando-se para frente. — É um herdeiro. Eu preciso de um filho, Vadim. Meu avô construiu os armazéns, meu pai expandiu a frota, eu transformei a empresa em líder de mercado. Para quem vou deixar tudo isso?

Vadim parou de comer.— Você tem a Ksenia. Ela tem vinte anos e estuda finanças.— A Ksenia é a Ksenia. Eu a amo. Mas esse negócio… é pesado, é caminhão, é processo judicial, são negociações duras. Ela não sobreviveria nisso. Eu preciso de um homem.

— Você está preso no século passado — disse Vadim, tomando um gole de vinho. — É por isso que a Inna te deixou há um ano e meio. Você deveria tentar resolver isso, em vez de procurar… um “incubador”.

— A Inna está melhor sem mim — cortou Boris.Ele percorreu o salão com o olhar. Perto da janela, uma mulher perfeitamente arrumada sorriu para ele por cima do celular. Todas eram iguais. Conheciam as regras do jogo. Sabiam o valor do seu relógio.

— Sabe de uma coisa? — disse Boris de repente, e Vadim se tensionou ao reconhecer o tom. — Estou cansado de calcular tudo. Cansado de sorrisos falsos. Quero algo aleatório.

— Boris, não faça besteira…Boris apontou para as portas de vidro. Do lado de fora, a chuva gelada de novembro caía com força.— Aposta? — sorriu ele. — Eu me caso com a primeira mulher que entrar por aquela porta.

— Você enlouqueceu? E se for uma senhora idosa?— Então viverei com uma mulher sábia.As portas se abriram com um leve suspiro.Uma mulher estava na entrada.

A água escorria de seu casaco velho e grande demais, caindo no chão polido. Ela usava um gorro cinza esticado e segurava com força um saco plástico amassado. Olhava ao redor, assustada — como se tivesse entrado no lugar errado.

— Incrível… — sussurrou Vadim. — Ela é da rua.O gerente já corria em sua direção quando Boris se levantou.— Pare! — ordenou.Todo o salão silenciou.

Boris se aproximou.— Boa noite — disse com suavidade. — Meu nome é Boris. Aceita jantar comigo?Ela baixou os olhos.— Eu… é só a chuva… eu já vou embora…

— Você não vai a lugar nenhum nesse tempo. Qual é o seu nome?— …Zoya.— Venha comigo, Zoya.Na manhã seguinte, Inna estava na cozinha preparando massa quando o telefone tocou.

— Mãe, você viu as notícias? — disse Ksenia, entre o riso e a indignação. — Meu pai enlouqueceu.A manchete dizia: “Magnata da logística janta com mulher em situação de rua em restaurante de luxo.”Inna suspirou.

— Espero que isso não te afete na universidade…Enquanto isso, Zoya estava sentada na borda de um sofá de design no penthouse de Boris. Após um banho quente, limpa — mas completamente deslocada.

— Por que estou aqui? — perguntou baixinho. — Você fez uma aposta sobre mim?— Não — respondeu Boris. — Tenho uma proposta. Fique aqui por um mês. Depois, eu compro um pequeno apartamento para você. Um lugar seu.

Zoya observava o vapor subindo do chá.— Um apartamento de verdade?— Sim.— …Tudo bem. Eu fico.Duas semanas depois, Zoya vestia roupas elegantes. Mas nada parecia realmente dela.

O ponto de ruptura veio em um evento de negócios.— Então esse é o seu novo… projeto? — riu um dos parceiros, examinando-a sem cerimônia. — Já ensinou ela a usar talheres?

Zoya empalideceu.Ali, ela não era uma pessoa. Era um espetáculo.Ela deixou o copo intocado e saiu.Boris foi atrás dela.— Zoya! O que aconteceu?

— Você — respondeu ela calmamente. — Para você, eu não sou uma pessoa. Sou uma prova. Prova de que você pode fazer qualquer coisa.— O apartamento—

— Fique com ele.Ela tirou os sapatos e caminhou descalça para o frio.Um ano se passou.Boris havia mudado. Escutava mais. Controlava menos.

Um dia, parou em frente a um prédio simples:“Lavanderia Social e Centro de Acolhimento”Entrou.Zoya estava atrás do balcão.Roupas simples. Olhar tranquilo.

— Boa tarde, Boris.— Zoya… você usou o dinheiro nisso?— Você me prometeu um lar — disse ela com um leve sorriso. — Eu pensei que muitas pessoas precisavam de um.

Eles não se tornaram um casal.Mas ambos mudaram.Às vezes, a vida nos coloca diante de alguém que parece estar no fundo do poço… apenas para nos mostrar que, na verdade, éramos nós que estávamos lá. E que é preciso coragem para voltar à superfície.

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