“Volte para o seu apartamento comunitário!” — comemorava a sogra durante o divórcio. Ela não sabia que o pai da nora era o verdadeiro dono do negócio deles.

Júlia observou a caneta-tinteiro pesada deslizar suavemente pelo papel grosso, deixando para trás uma tinta azul profunda. Ela acompanhou, em silêncio, a assinatura final que selava o acordo de partilha de bens: declarando que não tinha mais nenhuma reivindicação.

Na sala de estar da casa no interior, ela sentou-se na borda de uma cadeira desconfortável e moderna. A chuva de outubro tamborilava monótona na janela, acompanhando cada um de seus movimentos.— Graças a Deus, acabou — disse Tamara Iljinicsna, levantando os papéis com dois dedos.

Sua manicure perfeita brilhava sob a luz da lâmpada. — Já pensei que você começaria a fazer birra, a exigir sua parte, depois de limpar o pó daqui.Júlia permaneceu em silêncio, apenas olhando para Denis — seu marido, com quem, seis meses atrás, escolheram juntos o papel de parede do quarto infantil,

mas que agora parecia completamente alheio aos acontecimentos, absorvido no celular.— Denis — sussurrou ela — você nem me olha? Vivemos cinco anos juntos.Denis ergueu os olhos, irritado, mas não havia culpa nem remorso neles, apenas cansaço da longa e desconfortável conversa.

— Júlia, não dramatize. Minha mãe está certa. Viemos de mundos diferentes. Eu busquei progresso, construí negócios com meu pai, e você… você continuou a mesma garota do subúrbio. Suas receitas, suas conversas sobre promoções de supermercado, seus suéteres felpudos…

você ainda confunde o simples com o sofisticado nas reuniões. Sinto vergonha por você na frente dos meus parceiros.— Vergonha? — um sorriso amargo passou pelo rosto de Júlia. — E quando, há três anos, durante sua doença grave, eu ficava ao seu lado à noite,

enquanto seus pais estavam nas Maldivas… isso não foi vergonha?— Ah, não se faça de Madre Teresa! — interrompeu Boris Eduardovich, o ex-sogro, apoiando-se com dificuldade na pesada mesa de carvalho. Ajustou seu relógio de ouro. — Nós te alimentamos, vestimos com roupas decentes.

Você viu como as pessoas vivem. Agora, arrume suas coisas! O carro está esperando no portão.Júlia levantou-se lentamente. Nenhuma lágrima, nenhum escândalo, apenas o peso da injustiça. Pegou sua velha bolsa de esportes, com a qual havia chegado àquela casa cinco anos atrás.

— Volte para o seu apartamento! — gritou Tamara Iljinicsna com um ar de superioridade, empurrando os papéis para o lado. — Ali é seu lugar, com outros pobres semelhantes. Ache um parceiro parecido, talvez um amante apaixonado.Júlia saiu silenciosa em direção à porta.

O pesado batente do portão cortou o seu passado de uma vez por todas.Duas horas depois, Júlia estava sentada na cozinha apertada de seis metros quadrados da mãe. O tique-taque monótono do relógio de parede e o chiado amistoso da chaleira preenchiam o espaço.

Olga Sergeevna, com profundas rugas ao redor dos olhos e mãos de operária de tecelagem, colocou diante dela uma xícara de chá quente, sem dizer uma palavra.— Te expulsaram, não foi? — disse a mãe baixinho. — Eu sabia que chegaria a isso. Eles se deixaram levar pelo orgulho.

— Mãe, eu confiei neles — a voz de Júlia finalmente tremeu. — Fiz tudo por eles. E eles me trataram como um cachorro abandonado. Me mandaram embora sem um centavo.Olga Sergeevna olhou por um longo momento para o parapeito descascado da janela, suspirou, limpou as mãos no avental e saiu.

Pouco depois, voltou com uma pequena caixa de metal, retirada de uma antiga lata de biscoitos.— Prometi ao seu pai que esperaria até você completar trinta anos ou até que a vida a forçasse a recomeçar.Júlia olhou para a caixa, confusa.

— Seu pai? Você disse que ele era apenas um engenheiro simples e morreu quando eu tinha um ano.— Ele realmente morreu — Olga abriu a caixa —, mas não era um engenheiro comum. Andrei, seu pai, desenvolvia algoritmos únicos de transmissão de dados.

Um gênio, mas completamente desajeitado em relacionamentos sociais. Tentaram comprar suas invenções por míseros centavos, ameaçaram-no. Antes de partir, criou uma fundação. Escondeu toda a fortuna para que não nos alcançasse. Ele queria que você crescesse como uma pessoa normal,

que conhecesse o valor do trabalho. Não como a juventude dourada do seu ex-marido.No dia seguinte, Júlia estava no escritório no centro da cidade. Valeriy Stanislavovich, advogado de cabelos grisalhos, vestindo um terno cinza rigoroso, examinava os documentos.

— Sua mãe agiu com sabedoria — disse o advogado, tirando os óculos. — Seu pai patenteou uma tecnologia sem a qual metade dos servidores industriais do país não funcionaria. Os royalties vão para uma conta fechada. O mais interessante é que ele colocou parte dos direitos em uma empresa em crescimento.

Esta é a “Vektor-IT”.O fôlego de Júlia se perdeu. A “Vektor-IT” pertencia à família de seu ex-marido. Boris Eduardovich se orgulhava dela, e Denis trabalhava nela dia e noite.— Qual a parte da fundação do meu pai? — perguntou Júlia, tentando manter a calma.

— Trinta e cinco por cento. E agora você terá o controle acionário, se comprar a parte de Lev Markovich — respondeu o advogado. — Cinquenta e um por cento.No dia seguinte, Júlia entrou discretamente na sala de conferências da “Vektor-IT”. Toda a liderança da empresa estava reunida.

Boris Eduardovich sentava-se à cabeceira, Denis digitava no laptop, Tamara Iljinicsna folheava uma revista.— Bem, colegas — começou Boris —, vamos votar sobre o orçamento…A porta de vidro maciça se abriu lentamente. Em vez de Lev Markovich, Júlia entrou, de terno impecável, cabelo penteado para trás,

rosto calmo, mãos sobre a mesa.Denis ficou paralisado.— Júlia? — gaguejou. — Como… como você entrou aqui?Tamara Iljinicsna corou e olhou para cima. — Segurança! Removam-na!Júlia falou baixinho, mas cada palavra era cortante:

— Cancelem a chamada de segurança. Sou herdeira da fundação de confiança de meu pai e possuo o pacote de controle de cinquenta e um por cento. A empresa está agora sob meu comando.A tensão era densa e pegajosa. O ex-sogro ficou vermelho, o olhar cheio de medo.

O rosto de Denis mostrava decepção. Tamara Iljinicsna mexia nervosamente no anel.— A empresa continuará funcionando, os empregos serão preservados. Mas o conselho de administração será completamente reorganizado — disse Júlia. — Boris Eduardovich, você será consultor, com redução salarial.

Não tomará mais decisões financeiras. Tamara Iljinicsna, você não precisa mais de diretora de PR.— E você, Denis? — perguntou, mantendo o olhar nele. — Amanhã você vai para a zona industrial. Você comandará o armazém. Talvez aprenda o que é a vida real.

Ela caminhou até a porta e se virou:— E sim, Tamara Iljinicsna, não voltei para o apartamento compartilhado. Comprei o prédio do escritório onde estamos agora. Então, agora todos nós estamos sob meu…

Visited 11 times, 1 visit(s) today
Scroll to Top