Deixei a mão cair. O sangue seco e vermelho quase manchou a toalha branca. No salão do “Grand-Hotel”, o ar estava pesado com lírios e perfume doce, abafado e intoxicante ao mesmo tempo. Valerij Pavlovitch Kotov ostentava sem limites. Cinco milhões por uma única noite — para que todos entendessem:
Kotov ainda estava em pleno poder.— Sorria, Agata. Ao menos agora não fique zangada — murmurou meu irmão Denis ao passar por mim.Denis estava impecavelmente correto. Cabelos claros, ombros largos, mandíbula como a do nosso pai. Ao lado dele brilhava Inna — nossa irmã mais nova,
cujas fotos na internet recebiam curtidas como flocos de neve. Ambos eram como o pai, moldados de um só gesso.E eu? Pequena, olhos escuros, cabelo sempre em caos. No meio de estranhos, que apenas toleravam minha presença com educação.
— E agora a palavra para o aniversariante! — gritou o apresentador.Meu pai se levantou, ajeitou a gravata. O silêncio caiu sobre a sala.— Amigos, colegas — começou com seu grave baixo — sessenta e cinco anos é uma idade respeitável. Construí casas, gerenciei negócios.
Mas o mais importante — meus filhos. Denis, meu representante, meu apoio. Inna, a alma da família.Seu olhar parou em mim. Afiado, avaliador.— E Agata. Nossa… artista. — Alguém riu na sala. — Sempre com tintas, sempre em algum porão. Bem, toda família tem suas peculiaridades.
Eu dei tudo para que você estivesse acomodada, mesmo que pouco útil. Mas eu sou pai, mantenho tudo unido.Meus pulmões ardiam. Trinta anos eu esperava por outra coisa. Não por esmolas. Mas por essas palavras simples: “Tenho orgulho de você.”
Tudo mudou há seis meses, quando minha mãe precisou ir ao hospital. Um exame de rotina revelou algo inesperado. O especialista me olhou por muito tempo, depois aos documentos da minha mãe.— Agata Valerievna, há algo errado aqui. Segundo os resultados, não há parentesco sanguíneo entre você e seus pais.
A biologia não faz milagres.Saí da clínica atordoada, com a cabeça latejando. Em casa, abri o compartimento escondido na escrivaninha da minha mãe. Uma foto antiga: um jovem, cabelo castanho, olhar astuto. Atrás estava escrito: “Artur. Tver. 1994.”
— Ele era um mestre, restaurador — explicou minha mãe, enquanto eu mal conseguia conter minhas perguntas. — Seu pai estava na Sibéria naquele ano. Eu estava sozinha… Artur não sabia de nada. E Valerij… ele percebeu tudo imediatamente, assim que você saiu do hospital. Mas ele permaneceu em silêncio.
Para ele, você era um defeito, uma lembrança de que nem tudo podia ser controlado.Levantei-me. A cadeira arranhou alto no chão.— Pai, posso dizer algumas palavras? — alcancei o microfone.Meu pai fez uma careta, mas não ousou causar escândalo diante dos convidados.
— Muito bem, filha. Diga algo significativo.Minhas mãos tremiam, mas a voz estava firme:— Você disse que eu sou a peculiaridade desta família. Que você “me criou”.— Agata, sente-se — sussurrou Denis da primeira fila.— “Você é uma vergonha para a família!” — repeti o que ele me disse um mês atrás,

quando não permiti que ele usasse meu ateliê para seus fins. — Você mostrou a todos. Disse que eu não mereço seu nome.Silêncio como em um túmulo. Até a ventilação pareceu parar de funcionar.— Hoje trouxe um presente para você. O mais honesto da sua vida.
Tirei um envelope da bolsa e deixei sobre a mesa.— Aqui está uma folha do laboratório. Na semana passada, peguei um fio de cabelo do seu paletó. Preto no branco: você não é meu pai. Zero por cento de compatibilidade. E sabe de uma coisa? Isso só me faz sentir melhor.
Meu pai empalideceu, o rosto distorcido.— Você… o que está fazendo? — gaguejou.— Eu te demito. Não precisa mais fingir ser o pai carinhoso. Não precisa mais me sustentar — vou cuidar de tudo sozinha. Minha mãe revelou tudo. Meu verdadeiro pai era um criador. Ele não destruía pessoas.
Peguei as chaves com um chaveiro pesado da bolsa.— No estacionamento está um GAZ-21 “Volga”. Preto, como novo. Eu mesma restaurei por um ano e meio. Cada parafuso é verdadeiro. Queria mostrar que eu também posso criar.As chaves caíram em sua mão. Ele amava carros assim. Os olhos brilharam.
— Mas você é estranho para mim. Apenas uma pessoa fria. Então fico com o carro. Ele é perfeito demais para estar ao lado de suas peças sem alma.Segui em direção à saída.— Boa noite a todos. Não vai ser entediante.Lá fora, a “Volga” esperava. Entre os carros de luxo importados, parecia uma rainha. Entrei.
O cheiro de couro antigo, óleo e estrada preenchia o interior.O motor acordou com um som profundo. Os faróis cortaram a escuridão.O celular vibrou. “Pai”.Olhei para a tela e desliguei.Na minha frente estava Tver. Lá morava a irmã de Artur, que encontrei na internet. Ela me esperava.
Pisei no acelerador. No retrovisor, as luzes se apagavam, as falsas palavras e uma pessoa que por trinta anos tentou me apagar.Eu não era mais uma Kotova. Eu era eu mesma. E foi a decisão certa.Ela liga para a filha. Ela diz: “Oi, mãe, estou ocupada.” Sem resposta. Apenas um “like” como retorno.


