“Vai a pé, já que és tão esperta!” — riu o inspetor, rasgando a carta de condução do motorista. Um minuto depois, todos pararam de rir ao verem o cartão vermelho.

— Pare o motor! E os documentos aqui, imediatamente! A mão pesada bateu com força na moldura aberta da janela do meu carro bege, um “Logan”. O vidro antigo tremeu por dentro. Não olhei para o relógio,

mas o sol queimava a estrada e o painel de plástico quente queimava meus dedos. O ar-condicionado já havia quebrado em maio. Escolhi deliberadamente o carro mais discreto da garagem — vinha de uma fiscalização em um bairro vizinho,

e no banco de trás havia uma pasta grossa com material sobre um funcionário corrupto.O ar quente do asfalto entrou imediatamente no carro, misturado com poeira e o forte aroma de hortelã do chiclete do policial ao meu lado.

— Bom dia — falei calmamente, a mão no volante quente. — Pode me dizer o motivo da parada?— Eu sou a razão e a consequência! — rosnou o policial, limpando a testa suada com o uniforme.

O homem devia ter cerca de quarenta anos, com o rosto inchado e vermelho, olheiras profundas. Seu carro bloqueava parcialmente a estrada atrás dele, e a silhueta de um segundo policial movia-se atrás das luzes piscantes passivas.

Eu tinha 46 anos, vinte anos de serviço na segurança interna. Minha função era identificar policiais corruptos que confundiam o escritório com seu próprio bolso. Aprendi a ler as pessoas pelas primeiras palavras, pelo olhar, pela postura.

Hoje estava de camiseta cinza e calça de algodão, sem maquiagem, cabelo preso de forma simples. Ele me via como uma mulher comum e cansada — o alvo perfeito.— Entregue os documentos! — insistiu, batendo na porta impacientemente.

— CNH, registro. Não estamos aqui para brincadeiras.— Você me parou na via pública — falei calmamente. — Não se apresentou, não se identificou. O que está acontecendo? Alguma operação especial?

Os olhos dele se estreitaram. Não era o que esperava: normalmente, as pessoas naquele trecho deserto entrariam em pânico e pediriam desculpas. Minha calma o irritou.— Escute, espertinha — inclinou-se para a porta, quase entrando no carro.

— Algo me diz que você bebeu ontem e hoje está dirigindo?Sorri por dentro. Esse era o truque antigo: jogar com o medo. As pessoas ficam nervosas, juram que não beberam, e ele ofereceria a “solução”.

— Não bebi — olhei nos olhos dele. — Nunca. Mas se suspeitar, podemos registrar, chamar duas testemunhas, usar o aparelho certificado. Sob gravação.O rosto dele ficou vermelho em manchas. Não havia testemunhas naquela estrada quente e deserta.

— Conhece a lei, hein? — rangeu os dentes, cuspindo à frente do carro. — Vou chamar um guincho, seu carro vai para o depósito, você para o hospital para exame de sangue. Preparada?— Chame — dei de ombros. — E anote que o aparelho não está aqui.

Ele fungou, como uma fera irritada. Peguei o telefone, liguei a câmera e coloquei no painel.— O que é isso? — recuou um passo ao ver o indicador de gravação vermelho.— Estou registrando a comunicação

— falei alto o suficiente para ele ouvir. — Você não se apresentou, acusa sem base, ameaça. Diga seu nome e posto.Era a gota d’água. Um homem embriagado pelo poder não podia suportar um “não”.

— O que está fazendo?! — agarrou minha CNH, que segurava na mão esquerda.Em um movimento rápido, quebrou o cartão de plástico, rasgou-o e jogou os pedaços em um barranco profundo.— Vá a pé, espertinha! — riu.

— Sem isso, circule e reclame o quanto quiser. Ninguém vai acreditar.Fiquei imóvel, a garganta seca, mas não pelo calor. Lembrei-me do pai de uma colega que, seis meses antes, foi quase saqueado da mesma forma.

Um homem idoso quase desmaiou, demorando a se recuperar do estresse.Desprendi o cinto de segurança. O clique foi alto demais. Abri a porta, ele recuou um passo. O cascalho estalava sob meus pés. No barranco sinuoso, encontrei os pedaços da CNH.

Voltei, organizei-os sobre o capô, juntando-os com estilo, e fotografei.— Filme pronto? — perguntou sarcasticamente.Aproximei-me:— Nome?— Que se importa, pedestre? — sorriu.— Nome completo e posto.

— Tenente mais velho, Ilya Savchenko. Satisfeita? Agora some da minha frente.Anotei cada detalhe e lentamente mostrei minha identificação de segurança interna:— Segurança Interna, Polícia. Subchefe, Svetlana Juryevna Soboleva.

O holograma brilhou em seu nariz. Ele empalideceu imediatamente, perdendo o controle, o queixo tremendo.— Acabou de danificar intencionalmente um documento oficial, Ilya Savchenko — falei devagar, enfatizando cada palavra. — Abuso de autoridade. Ameaça.

O colega mais jovem saiu do carro, observando aterrorizado.— Nome? — perguntei a ele.— Tenente, Roman Tumanov… — gaguejou.— Sua decisão é simples — falei. — Ou conta tudo, ou será cúmplice.

Tumanov tremeu, finalmente revelou tudo.Ao longe, sirenes uivaram. A equipe operacional chegou, Savchenko não se moveu enquanto era algemado.Recuperei meu carro e continuei pela estrada empoeirada, mãos soltas no volante.

A pasta permaneceu no banco de trás. A calma voltou a mim.Um mês depois, Savchenko foi afastado e abriu-se processo criminal. Tumanov recebeu advertência e foi transferido. Minha CNH foi devolvida em 24 horas.

E continuo percorrendo essas estradas quentes e empoeiradas, de camiseta simples. Às vezes, a melhor estratégia é deixar que aqueles que perderam seu poder acreditem que estão diante de alguém indefeso.

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