— Que cheiro é esse! — franziu o nariz Artem Borisovich assim que entrou. — Será que algum dia fazem algum controle sanitário aqui ou simplesmente têm nojo de entrar?
Ao lado dele, Hans, o alemão, sussurrou algo e apontou para o menu pendurado sobre o balcão.
— Aqui não se come, Hans! — riu Artem Borisovich, empurrando com o pé uma cadeira próxima à janela.
— Sente-se. Café, documentos, assinatura, e depois saímos. O combustível está quase acabando, e nesta estação só tem algum líquido amarelo nos tanques.
Alguns minutos depois, Tamara chegou, segurando um laptop antigo e engordurado.
— Estou ouvindo — disse ela calmamente. Artem Borisovich nem levantou os olhos. Ele jogou o olhar sobre um grande maço de documentos sobre a mesa, preso com um clipe dourado.
— Então, querida — começou ele, pegando um café — dois cafés. Nada dessa bebida de chicória, quero o verdadeiro, com amêndoas. E limpe bem a mesa, meu amigo vai levar um choque cultural agora.
Olhe, Hans! Este é o verdadeiro rosto da Rússia profunda. Sem dentes, sem educação, mas ainda ri com um pano esfarrapado.
Hans respondeu em um tom calmo e oficial. Artem Borisovich acenou com a mão.
— Sim, sim, Hans, tudo certo. Muito bem. Agora assine. O terreno será entregue à fábrica quase de graça. Já cuidei de tudo, ninguém vai notar que esta é uma área protegida.
Tamara cuidadosamente colocou as xícaras na mesa. Suas mãos tremiam, algumas gotas caíram sobre o papel.
— O que você está fazendo, vaca?!
— — gritou Artem Borisovich de repente, fazendo a cadeira bater na parede. — Você sabe que essa folha vale mais que toda a sua cafeteria, até mesmo seus rins? Estragou tudo!
— Desculpe, vou apagar em breve — disse Tamara baixinho, com a cabeça baixa.
— Apagar… olhe, Hans! — disse Artem Borisovich, gesticulando para Tamara. — Um ser com trabalho de um único empregado, apenas uma garçonete, com cérebro. Nem sequer percebe que acabou de estragar o seu negócio. Hans, veja a estupidez nos olhos dela! Escravos! Comem restos, dormem no pasto e ainda assim riem.
De repente, Hans interveio. Ele disse uma longa frase, apontando primeiro para Tamara, depois para Artem Borisovich. Seu rosto ficou extremamente rígido.
Artem Borisovich ficou paralisado. Não entendeu uma palavra, mas sentiu que algo estava errado.
— O que ele está resmungando? Ei, tradutor, você pelo menos aprendeu algo na escola? Traduza — o que ele disse?
Tamara lentamente se levantou. Colocou o xale na beira da mesa. Seu olhar era frio e felino, como um bisturi.
— Ele disse: “Não confio em alguém que não consegue controlar sua raiva com os fracos.
Quem age assim com o pessoal, enganará você também atrás de portas fechadas.”
Artem Borisovich respirou fundo.
— O que… o que você está dizendo?
— E mais uma coisa — continuou Tamara, agora em alemão perfeito, dirigindo-se diretamente a Hans.
O estrangeiro ficou paralisado, os olhos arregalados atrás dos óculos.
Rapidamente começou a fazer perguntas, apontando para os documentos.
— O que ela está dizendo?! — gritou Artem Borisovich. — Ela perguntou sobre o ponto 42.
O lugar onde você disse “não há acesso ao terreno”. O que você chamou de formalidade, é uma armadilha legal. Agora ela vê que você não é apenas desobediente, mas um trapaceiro.
— De onde…? — tentou alcançar Artem Borisovich, mas Tamara segurou firme, quase quebrando seus ossos.
— Eu me tornei especialista em línguas estrangeiras há dez anos — disse ela calmamente. — Trabalho aqui porque esta é a minha casa. Ouvi cada palavra sua desde que você saiu do carro.
Hans queria saber quantas “comissões” você planejava obter com esse negócio.
Artem Borisovich empalideceu, o suor secou em suas bochechas.

— Tamara… ouça. Eu… exagerei. Diga a ele que foi um mal-entendido.
— Ele diz que o negócio não vai acontecer — disse Tamara. — E ele quer seu passaporte.
Ele vai de táxi para a cidade, que já reservei. Você pode continuar admirando sua fumaça negra do smoking. É caro, e não há nada lá de qualquer maneira.
Hans se levantou, reuniu os documentos e deu uma breve reverência a Tamara. Deixou dinheiro sobre a mesa — descuidadamente, como um depósito, mas suficiente para cobrir os remédios da mãe de Tamara por dois meses.
Quando o SUV de Artem Borisovich saiu gritando do café, o silêncio caiu. Tamara foi até a janela e observou a poeira surgir lentamente.
— Tamara — tocou em seu ombro Ludmila, a cozinheira inteligente e corajosa. — Por que você fez isso? Ele quase te bateu.
— Ele não teria me batido, Ludmila. Eles são corajosos apenas nas palavras. — E o estrangeiro? Deixou cartão de visita? — Ludmila bateu na mesa.
— Deixou. Disse que o departamento de compras precisa de alguém que leia nas entrelinhas.
Tamara guardou o cartão no bolso. Sabia que sua vida mudaria amanhã.
Não porque o “príncipe” chegou de SUV, mas porque hoje ela finalmente ousou falar com todo o seu poder.
Artem Borisovich estava no estacionamento, a cinco quilômetros, sentado em um carro vazio.
O combustível havia acabado. O negócio se desfez. E em sua cabeça ainda ecoava aquela frase — a frase que ele nunca conseguiria traduzir.

