— Tirem essa insolente! — gritou o sócio. Mas a garçonete já tinha traduzido o hieróglifo que tirava do dono todo o negócio.

A grossa pasta de couro de búfalo bateu na mesa com um estrondo, quase derrubando a pequena tigela de molho de soja.— Assine, Igor! — rosnou Oleg. — Não perca tempo! Já é manhã em Pequim, a bolsa abriu, e em quarenta minutos precisamos enviar o scan! Se não enviarmos agora, o negócio vai por água abaixo e perderemos a fábrica.

Oleg batia nervosamente a tampa da sua caneta de ouro na mesa. Era jovem, impecavelmente vestido, e seu perfume era caro. Mas seus olhos denunciavam pressa. Igor Borisovich esfregou a têmpora com cansaço.

Aos cinquenta e cinco anos, sentia-se exausto, como se tivesse sido espremido até a última gota. Seis meses de noites em claro, negociações e buscas por investidores para salvar a fábrica da falência. E agora estava na etapa final.

— Por que só agora enviaram a versão final? — resmungou Igor. — Teríamos revisado com os advogados pela manhã.— Force majeure, tio! — Oleg revirou os olhos, todo o seu corpo demonstrava exaustão. — Você conhece os chineses.

Estão sempre mudando tudo. Mas eu revisei tudo. Apenas alteraram os prazos de entrega. Negócio limpo. Assine antes que mudem de novo!No restaurante “Lótus Vermelho”, o ar estava pesado e abafado, apesar do ar-condicionado.

O aroma de especiarias orientais se misturava ao perfume forte da senhora na mesa ao lado. Igor se perdeu entre os caracteres estrangeiros, os ideogramas chineses formavam uma teia negra confusa sobre o documento à sua frente. O texto em russo ao lado também não dava total segurança: e se a tradução estivesse enganando?

— Eu sou seu filho — aproximou-se Oleg, com a voz suave, enganadoramente gentil. — Cresci sob sua orientação. Acha mesmo que eu tentaria enganá-lo?Igor suspirou. Oleg era o único em quem confiava. Não tinha filhos, e sua esposa havia falecido três anos atrás.

— Está bem. Onde assino?Uma jovem garçonete se aproximou do balcão. Magra, elegante, vestia um quimono preto, com uma plaquinha: Taja. Em sua bandeja, um bule de chá fumegante.— Chá oolong da mais alta qualidade para vocês — sussurrou, e colocou as xícaras na mesa.

Oleg nem olhou para ela, empurrando os documentos para o tio. Foi por pouco: o bule quase derramou sobre os papéis.— O que está fazendo?! — gritou Oleg, recuando. — Meu terno quase foi arruinado! Cinco mil dólares!

— Desculpe… — Taja corou de susto, mas rapidamente pegou um guardanapo e tentou limpar a água sem danificar os papéis.— Tire isso daqui! — berrou Oleg, ameaçando a garçonete. — Ligue imediatamente para o administrador!Mas Taja parou, concentrando-se em uma parte do texto.

— Igor Borisovich… — falou de repente, com a voz trêmula, mas já firme. — Não assine isto.O restaurante ficou em silêncio. Até o tilintar dos talheres desapareceu.— O quê? — Oleg olhou para ela assustado. — Do que está falando?Igor levantou lentamente a cabeça.— O que a menina disse?

— Estou estudando línguas orientais, estou no quarto ano — começou Taja rapidamente, encarando o furioso Oleg. — Aqui, no ponto 4.2. A tradução russa diz “parceria com participação igual”. Mas os caracteres chineses…

— Silêncio! — gritou Oleg, levantando-se. — Leva isso a sério? É um dialeto especial!Igor segurou a mão dele. Firme. Os anos de fábrica haviam endurecido seu aperto antes de se tornar diretor.— Coloque-a no lugar.

— Tio, não há tempo! — pálido, Oleg implorou. — Só quer dinheiro! Vou chamar a polícia!— Taja — disse Igor, sem olhar para a jovem. — Leia a letra miúda, sob o selo vermelho.Taja avançou, ignorando a raiva de Oleg.

— “Após a assinatura, Igor B. recebe posição de consultor honorário, sem direito a voto ou acesso a finanças por três meses, depois o contrato é rescindido unilateralmente.”Igor ficou sério. A caneta escorregou de seus dedos.

— Que dívida é essa? — perguntou baixinho.— É a dívida pessoal de Oleg com a empresa “Shan-Group”: doze milhões de yuans.Oleg agarrou a pasta, tentando esconder o texto.— Mentira! — gritou. — Você realmente acredita em uma garota da rua? Isso é dialeto especial!

Mas Igor não soltou a mão dele.— Abaixe.Oleg empalideceu, fechou o telefone e saiu do restaurante cambaleando, deixando o paletó para trás.Igor sentou-se, com o coração pesado de tensão e perda. Restava-lhe apenas a confiança e o destino da fábrica.

Taja permanecia, com o guardanapo amassado na mão. O administrador se aproximou, mas Igor apenas acenou:— Sente-se, Taja.A jovem deu um passo, ainda assustada, mas já não se sentia vulnerável.— Por que fez isso? — perguntou Igor.

Taja baixou a cabeça.— Meu pai tinha uma pequena oficina. Um amigo trouxe papéis sob o pretexto de “formalidades”. Ele assinou… e acabou na rua. Meu pai não suportou, morreu. Então prometi a mim mesma aprender línguas. Para não deixar ninguém enganar.

Igor ficou em silêncio, admirando a determinação da jovem.— Você me salvou, Taja. Não apenas o negócio. Minha vida.Ele tirou um cartão, escreveu seu número.— Amanhã, 9h, no escritório da “Techno-Steel”. Diga à portaria que veio falar com o CEO.

— Mas… não tenho experiência em escritório. Estou apenas estudando.— A experiência vem. Consciência ou você tem, ou não tem. Preciso de uma assistente em compras. Atenta, que lê nas entrelinhas. E, Taja… — pela primeira vez naquela noite, sorriu. — Peça algo para comer. Estou com fome.

Seis meses depois.Na sala de reuniões, a tensão era grande. Uma delegação de Xangai chegou. Igor Borisovich estava à cabeceira da mesa, calmo e confiante. À sua direita, Taja, agora de terno, cabelo impecável, a antiga menina assustada transformada em profissional determinada.

O parceiro chinês falou rapidamente ao intérprete.— Oferta generosa — traduziu o intérprete. — Estamos satisfeitos com a cooperação.Igor olhou para Taja, que assentiu discretamente e anotou algo.

“Ela disse à assistente: ‘Este velho é astuto, mas vamos contra-atacar na logística. O ponto 8.4 pode atrasar o pagamento por seis meses.’”Igor leu, e então sorriu para o parceiro.— Por favor, informe ao parceiro — disse em voz alta. — Excluímos o ponto 8.4. Pagamento somente após entrega. Caso contrário, recorreremos à concorrência em Guangzhou.

O sorriso desapareceu lentamente do rosto do chinês. Ele se curvou respeitosamente.No escritório, quando todos saíram, Igor se aproximou da janela. A cidade rugia lá embaixo. Oleg, em algum lugar na multidão, agora sobrevivendo com trabalhos eventuais no mercado. Cada um com seu destino.

Igor olhou para Taja, que organizava os documentos.— Obrigado — disse simplesmente.— Faz parte do meu trabalho, Igor Borisovich — sorriu.

Às vezes, o destino não chega com uma armadura brilhante, mas em uma bandeja, com uma mancha de molho de soja na roupa. O importante é reconhecer a tempo e não deixá-lo ser empurrado para fora da porta.

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