Olga mexia lentamente o mingau de trigo sarraceno no fogão quando a porta da entrada se fechou com um estrondo tão forte que os vidros do armário tremeram. A manhã de setembro apenas começava, mas seu marido já tinha saído e voltado como se tivesse sido tomado por um acesso repentino de raiva.
— Mulher, você se enganou? Por que seu cartão não funciona?! Eu queria dar seu salário à minha mãe para as compras! — gritou Igor, entrando na cozinha.
Seu rosto estava vermelho de raiva, os olhos brilhando com indignação. Olga pôs a colher de lado devagar e se virou para o marido. Igor agitava o cartão como se fosse uma prova de culpa.
— Que salário? — perguntou Olga, com calma, enquanto secava as mãos com o pano de prato.
— Aquele que você recebeu ontem! Minha mãe pediu para comprarmos uma semana de mantimentos, e seu cartão está bloqueado!
Olga assentiu, como se confirmasse uma evidência óbvia.— Sim. Já retirei todo o dinheiro adiantado.Igor parou no meio da cozinha, tentando processar o que ouvira. Seu rosto ficou ainda mais contorcido.
— Como assim, adiantado?! Sem eu saber?! Eu queria dar à minha mãe! E você estragou tudo!Ele começou a andar de um lado para o outro, gesticulando como se quisesse capturar moscas invisíveis. Olga apenas o observava, silenciosa,
surpresa crescendo lentamente em seu rosto. Em oito anos de casamento, Igor já havia pego dinheiro do cartão de Olga sem permissão, mas nunca tinha enfrentado resistência direta.— Igor, pare — disse Olga, franzindo a testa e inclinando ligeiramente a cabeça.
— Diga-me por que acha que meu salário deve ir para sua mãe.— Porque somos família! — gritou o marido, ainda andando. — A família ajuda uns aos outros! Especialmente os pais idosos!
Olga sentou-se, observando-o com atenção. Jelena Vasiljevna, sua sogra, estava longe de ser uma velhinha indefesa. Com sessenta e dois anos, tinha uma aposentadoria decente, um apartamento no centro da cidade e uma casa de campo.
Ainda assim, pedia ajuda financeira regularmente ao filho e à nora.— Idosos? — perguntou Olga. — Jelena Vasiljevna é dois anos mais nova que minha mãe, que ainda trabalha e não pede nada a ninguém.
— Não ouse comparar! — rugiu Igor. — Minha mãe trabalhou a vida toda, criou você sozinha após o divórcio! Agora ela merece descansar!
Olga lembrou-se de uma conversa recente com uma colega em situação semelhante. Antes, não entendia como alguém podia permitir que parentes se aproveitassem. Agora via claramente.
— Igor, sente-se — pediu Olga, apontando para a cadeira ao lado da mesa. — Vamos conversar com calma.
— Sobre o quê?! — continuou Igor, gesticulando nervosamente. — Coloque o dinheiro de volta no cartão imediatamente!
— Não vou — disse Olga, firme. — E vou dizer claramente: não vou mais sustentar sua mãe. Que ela use o próprio dinheiro.
Igor congelou. Seus olhos se arregalaram, a boca permaneceu semiaberta. Em oito anos, Olga nunca tinha dito algo assim em voz alta.— O que… você disse? — murmurou ele, com a voz rouca.
— O que já pensei há muito tempo. Sua mãe é completamente abastada. Aposentadoria, apartamento, casa de campo. Ainda assim, toda semana pede dinheiro — para remédios, para consertos. Vivemos do nosso salário, sem conseguir poupar nada.
Olga aproximou-se da janela. As folhas caindo na brisa de setembro anunciavam o frio que se aproximava. O inverno estava perto, e era preciso pensar em roupas quentes, aquecimento, manutenção do apartamento.
— Egoísta! — explodiu Igor. — Sem coração! Como pode falar assim de uma senhora idosa?!— Da senhora que, em oito anos, nunca se interessou pelas minhas necessidades — rebateu Olga, sem se virar. — Que pede dinheiro para compras e depois se gaba das suas novas peles para as amigas.
— Você mente!— Igor, sua mãe me contou sobre o casaco — continuou Olga. — No mês passado, quando demos dinheiro para consertar a torneira.O marido ficou em silêncio, tentando se lembrar. Olga continuou:

— Jelena Vasiljevna usou nosso dinheiro para suas extravagâncias, enquanto dizia precisar de ajuda. Isso é manipulação, Igor.— Não ouse! — gritou ele, pegando o telefone da mesa. — Vou ligar para ela e contar tudo!
Olga se virou, observando Igor discar. Suas mãos tremiam de raiva.— Alô, mãe? — começou Igor, em voz alta, no viva-voz. — Imagine, Olga retirou o dinheiro! Inacreditável, né? Pegou e escondeu de nós!
A voz de Jelena Vasiljevna soou cortante e insatisfeita:— O que quer dizer com “retirou”? Que dinheiro?— O próprio salário! Eu queria te dar para as compras, mas o cartão não funcionou!— Igor, querido — a voz da sogra suavizou-se —, nós autorizamos que ela me ajudasse!
Olga se aproximou, tentando ouvir melhor. Que autorizações eram essas? Quando e com quem? Ninguém a consultou.— Mãe, não sei o que deu nele — queixou-se Igor —, ela disse que não vai mais ajudar!
— Entendo! — disse Jelena Vasiljevna, com um tom frio. — Decidiu mostrar personalidade! Não se preocupe, meu filho, vamos ver o quanto ela é corajosa quando tiver que encarar meus olhos!
— Venha, mãe! — exclamou Igor. — Talvez você explique a ela como lidar com os idosos! Olga endireitou-se. Então agora a pressão era coletiva. A sogra chegaria e ambos tentariam ensinar a nora a gastar o próprio dinheiro.
— Jelena Vasiljevna — disse Olga, alto, para o telefone —, venha. Vamos conversar abertamente.


