— Prepara o jantar para vinte e cinco pessoas, querida! Os convidados chegam daqui a uma hora, e eu trouxe o arenque para a salada “casaco de pele”! — sorriu a sogra.

“Polina, meu raio de sol, com o que você está sonhando?” – a voz de Nadejda Ivanovna atrás de mim era doce como xarope e venenosa como cianeto. – “A salada Olivier não se corta sozinha. Em meia hora os convidados chegam.”Virei-me lentamente. Ela estava na porta da cozinha,

perfeita como sempre, com o novo traje na cor do vinho jovem, o cabelo impecavelmente arrumado. Braços cruzados, olhar afiado como um bisturi, examinava cada grão de pó no meu avental, cada gota de suor na minha testa.“Já estou cortando, Nadejda Ivanovna”, disse, e minha própria voz soava estranha,

abafada, quase como de outra pessoa. “O frango. Para a salada.”“E as batatas?” – Olga entrou na cozinha com uma caixinha vazia de doces, passando pela mãe. “Nada de cozinhar com casca de novo! Festivo significa: descascar, cortar, estética. Entendeu?”

Sim, Olgachen, eu entendi. Estética significa: você está no vestido novo, dando ordens, enquanto eu, com o avental cheirando a cebola, faço tudo. Mas em voz alta eu não disse nada. Apenas meus olhos voltaram para a tigela com o frango já frio.

“As batatas estão cozidas e descascadas”, consegui dizer. “Tudo conforme o planejado.” “Boa menina”, concordou Nadejda Ivanovna, como se estivesse elogiando um cachorro por obedecer ao comando “senta”. “E não se esqueça de tirar a gelatina da geladeira e arrumar bonitinha.

E ralar o rábano. Misha adora a minha gelatina com rábano.”“Minha gelatina.” – Eu a cozinhei por seis horas, retirando a espuma, enquanto ela telefonava ou olhava para as unhas. Mas sempre seria “a gelatina da Nadejda Ivanovna”.

“E abra o vinho tinto”, acrescentou Olga, colocando um vaso brilhante sobre a mesa. “Não o barato que você comprou, mas o que trouxemos. Italiano. Precisa respirar.”Senti a raiva escorrer pelas minhas costas como água fria. Elas voltaram para a sala de estar, discutindo alto sobre o bolo,

a disposição dos lugares, a perfeição da apresentação. Eu fiquei sozinha. A cozinha, que eu havia limpado desde as cinco da manhã, cheirava a maionese, cenoura cozida e esperanças estouradas.Há sete anos, quando me casei com Misha, pensei que teria uma família.

A minha própria era silenciosa, um pouco triste – minha mãe morreu cedo, meu pai vivia nas lembranças. E aqui? Barulhenta, unida, os Karelin. Eu pensei que fosse um sopro de ar fresco. Na verdade, era uma câmara de tortura.Misha… meu Misha. Antes atencioso, apaixonado,

cuidadoso com flores, com noites românticas. Agora? Chegava do trabalho, enterrado no celular, sem perceber que sua esposa havia se tornado parte da cozinha. E se percebesse? Achava normal.“Você tem um certo temperamento, Polya. Nada pessoal. Está acostumada a que tudo seja perfeito.”

Perfeito para quem, Misha? Para você? Para elas? Para mim?A porta da varanda rangeu. Ele entrou. Meu marido, meu senhor. Jeans caros, camisa recém-passageada, perfume.“Oi, companheira de guerra, está conseguindo?” – ele me abraçou, beijou minha têmpora.

– “Mamãe diz que você é uma verdadeira heroína. Tudo dá certo para você.”Afastei-me. Maionese pingava na salada. Minha mão tremia.“Está tudo bem, Misha. Vai para os convidados. Tio Kolya e tia Galya já chegaram.”“Sim…” – pegou um pedaço de salsicha.

– “Mamãe ainda quer o arenque sob o manto. Você faz tão bem. Já comprei tudo.” – Indicou uma sacola na porta.Algo em mim se rompeu. Silencioso, afiado, como um fio que se parte.“Você é louco?” – sussurrei. “Tenho molhos, tortas, saladas – e você fala de arenque? Meia hora antes dos convidados chegarem?”

“Polina, não exagere”, disse ele severamente. “Não é grande coisa. Corte rápido, monte… você consegue.”“‘Corte rápido’…” – olhei para ele – “Você já preparou arenque rápido para trinta pessoas? Limpar o chão rápido se alguém derramou vinho?”

Ele me olhava sem entender.“Eu ajudo! Coloco a louça na máquina!”“Bravo”, sorri falsamente. “Herói dos tempos modernos.”“Sem sarcasmo”, resmungou. “Você poderia ter pedido ajuda à mamãe ou à Olga.”Essa foi a gota que fez o copo transbordar.

“Mamãe?” – minha voz metálica, dura. – “A mamãe que se maquia há horas? Ou Olga, que critica e controla? Elas devem me ajudar? No meu aniversário?”“Polina, acalme-se”, ordenou.“Não, Misha! Assim vivem os escravos. E eu não quero mais!”

Peguei a sacola e a joguei na pia. O arenque bateu no metal com um baque surdo.Nadejda Ivanovna entrou correndo.“Polina! Que tipo de falta de respeito é essa?”“Isso não é peixe”, disse eu, arrancando o avental. “Isso é um símbolo. Meu símbolo de libertação.”

“Estou em greve”, declarei calmamente. “A partir de agora.”Fechei a porta do quarto. Silêncio. Pela primeira vez em anos.De manhã, nenhum barulho de talheres. Apenas silêncio. Liberdade.Misha chegou, amassado, cansado.“Terminou com seu teatro?”

“Sim”, disse eu. “A peça acabou.”Discutimos. Ele gritou. Eu ri. Então disse calmamente:“Quero o divórcio.”Ele riu incrédulo. Ameaçou. Disse que eu voltaria.“Talvez”, respondi. “Mas prefiro pão seco em liberdade a caviar numa jaula.”Peguei meus velhos jeans, minha jaqueta, minha bolsa.

“Eu te amo”, sussurrou ele.“Não”, disse. “Você só está acostumado comigo.”Saí silenciosamente. Sem barulho.No carro, respirei fundo. Parti. Longe de tradições alheias, festas alheias, vida alheia.A chuva lavou o passado.E, pela primeira vez em sete anos, eu estava só comigo mesma.

Assustador. Mas certo.

 

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