“Precisa de esposa? Aquela ali, com o pano sujo, serve!” zombou o homem rico. Ele não sabia que essa “piada” salvaria sua empresa.

O ar do café estava denso, como se o cheiro de leite queimado e a chuva evaporando dos casacos molhados estivessem brigando sob o teto. Lá fora, a chuva de outono caía sem parar, e os clientes traziam a rua para dentro com os sapatos enlameados, marcando o piso gasto.

Perto da entrada, acumulava-se uma poça de água marrom, enquanto os radiadores zumbiam em vão.Dasa mal se mantinha em pé. Era o segundo turno seguido. No bolso, o telefone vibrou de novo — notificação bancária.

O empréstimo estudantil era mais impaciente que qualquer cliente, e os remédios da mãe tinham ficado mais caros outra vez naquele mês. Os números eram implacáveis. E ela estava exausta.— Senhorita! Eu pedi sem açúcar! — gritou um homem da terceira mesa, batendo o cardápio ao lado do prato.

Dasa se sobressaltou. A xícara tilintou na bandeja, inclinou-se, e o café marrom escorreu pela manga branca do homem.— Você está maluca? — ele se levantou de um salto. — Essa camisa custa mais do que você ganha em um mês!

A garganta de Dasa se apertou. Não por humilhação — por cansaço.— Peço desculpas… vou buscar guardanapos…— Saia da minha frente!No fundo do salão, dois homens observavam a cena. Ternos caros, relógios elegantes, olhares entediados — sentavam-se como se tivessem entrado por engano em outro mundo.

— Sério, Ruslán, é aqui? — torceu a boca Kirill. — Por que não fomos a um café decente?— Aqui tem o café mais forte da região — respondeu Ruslán em voz baixa, tamborilando os dedos na mesa. — Em duas horas tenho uma reunião com Arkádi Semiónovitch.

Se eu não assinar o contrato do centro logístico, a concorrência me devora. E o velho vive repetindo: “Homem solteiro não é confiável. Quem não consegue sustentar uma família não sustenta uma empresa.” Como se eu tivesse que alugar uma atriz.

Kirill sorriu de lado e fez um gesto com a cabeça na direção de Dasa, que ajoelhada limpava o chão.— Ali está, por exemplo. Precisa de esposa? Damos um banho, vestimos bem. Parece discreta. Perfeita para um investidor conservador.

Ruslán ergueu a sobrancelha.— Não seja ridículo.— Aposta? Minha moto nova contra sua assinatura no clube de golfe que você não consegue convencê-la.Ruslán voltou a olhar para a garota. Pulso fino, rosto pálido, olhos vermelhos. Quebrada, mas não vazia.

— Prepare as chaves — disse ele, levantando-se.O depósito era apertado; entre caixas de legumes e sacos de farinha mal havia espaço para se mover. Dasa estava sentada numa caixa, tentando controlar o tremor das mãos.

— Podem descontar a lavagem do meu salário… — murmurou quando a porta se abriu.— Não vim por causa da camisa — disse Ruslán calmamente.Dasa levantou os olhos. O olhar dele era avaliador.— Uma proposta de negócios. Cinquenta mil forints por três horas.

— Não faço esse tipo de trabalho — respondeu imediatamente.— Você só precisa fingir ser minha esposa. Um jantar. Sorrisos, algumas palavras gentis. Nada mais.— Por que eu?— Porque não tenho tempo. E porque você precisa do dinheiro.A frase foi precisa como uma agulhada.

Dasa fechou os olhos por um instante. Empréstimo. Remédios. Comida.— Pagamento adiantado. E por escrito.Ruslán sorriu.— Fechado.Uma hora depois, Dasa estava sentada no carro com um vestido verde-esmeralda. O vestido caía perfeitamente nela, como se tivesse sido feito sob medida. Os sapatos, porém, eram impiedosos.

— Seu nome é Darja. Estamos casados há três anos. Planejamos ter filhos. Você não trabalha. Seu hobby é bordado — enumerou Ruslán.— Eu não sei bordar.— Não importa. Apenas seja um belo pano de fundo.— Pano de fundo… — repetiu ela baixinho.

O restaurante elegante era silencioso, envolto pelo tilintar de cristais e pelo aroma de vinho caro. Arkádi Semiónovitch era um homem magro de olhar penetrante. Sua esposa, Vera Pavlovna, sorria calorosamente ao lado dele.

— Quatro minutos de atraso — observou o velho.A conversa logo se voltou para o projeto. Arkádi criticou os planos com dureza.— A entrada norte será intransitável no inverno. Zona residencial, subida íngreme. Não financio.Ruslán ficou em silêncio. A derrota vibrava no ar.

De repente, Dasa falou:— A entrada norte não é para caminhões.Todos os olhares se voltaram para ela.— O tráfego pesado deve ser direcionado pelo sul, através da zona industrial. Lá existe um antigo ramal ferroviário.

Se arrendarem o terreno, haverá ligação direta com o armazém. Sem zona residencial, sem subida. Separando os fluxos, a capacidade aumenta em 15%.Silêncio.— A senhora é especialista em logística? — perguntou o velho.

Ruslán hesitou por um instante.— Ela é minha consultora principal.Arkádi assentiu lentamente.— Preparem os documentos. Se o terreno estiver regular, fechamos acordo.A chuva cessara; o asfalto brilhava como um espelho negro diante do prédio de Dasa.

— Você me salvou — disse Ruslán em voz baixa. — Como sabia?— Faço mestrado em logística de transportes. Minha dissertação é sobre isso.Ruslán entregou-lhe um envelope.— Cinquenta. E mais cinquenta pela ideia.

Os dedos de Dasa apertaram o envelope com mais força. Era mais que dinheiro. Era tempo. Era fôlego.— Acordo cumprido?— Cumprido.Ela caminhou em direção à entrada do prédio.— Dasa!Ela se virou.

— Preciso de uma chefe para o departamento de análise. Amanhã às dez no escritório. Não é favor. É proposta.— E o papel de pano de fundo?Ruslán deu um passo mais perto.— Eu estava errado.

Dasa sorriu levemente.— Vou pensar. Se o café for melhor.Pela primeira vez naquela noite, Ruslán sorriu de verdade.— A máquina de café você escolhe.Dasa desapareceu na escuridão da escada. O envelope estava quente em suas mãos, como a promessa de um novo começo.Ruslán entrou no carro e ligou para Kirill.

— Então? — perguntou o amigo, com voz sonolenta. — Ele assinou?Ruslán ligou o motor.— Prepare as chaves da moto. E saiba: foi a melhor piada da sua vida.

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