— Tire os sapatos, Kostya, o chão está limpo — ordenou de forma confiante, e largou o enorme casaco de inverno diretamente no meu puff claro.Atrás dela, a tia Liuba hesitava, sempre esquecendo de devolver o dinheiro emprestado,
e o tio Kostya estava lá também, o famoso empreendedor fracassado da família. Alguns parentes distantes estavam na porta, observando abertamente os caros acabamentos do apartamento.
Cruzei os braços sobre o peito e senti a raiva fria se acumulando lentamente dentro de mim. Tenho trinta e três anos, lidero um departamento de desenvolvimento regional. Minha vida está cheia de negociações, viagens constantes e resolução de problemas contínua.
Sei manter a compostura. Mas que um bando de estranhos invadisse meu apartamento sem aviso, nada me preparou para isso.— Taiszia Pavlovna. Tia Liuba, tio Kostya — percorri o olhar lentamente sobre eles. — Por que não avisaram que viriam?
Minha sogra deu de ombros, atravessou a sala de estar e se acomodou pesadamente no sofá. Os outros a seguiram, amarrados, e se espalharam pela sala.— Sente-se, Ksênia — ordenou Taiszia Pavlovna, como se fosse a professora da turma.
Eu permaneci encostada na parede.— Falem aí. Ouço muito bem.Ela apertou os lábios com irritação, olhou para a tia Liuba e começou seu monólogo ensaiado:
— Já faz quatro anos que você faz parte da nossa família. Os anos passam, o apartamento está vazio. Você está sempre viajando, escondida no celular. Combinamos: a mulher cuida da casa. Stas trabalha, do salário dele sai a comida.
“Ou você pede demissão ou se divorcia!” — ergueu o queixo minha sogra. — Amanhã vá ao seu chefe, assine a demissão, fique em casa, cozinhe para seu marido. Caso contrário, Stas dará entrada no divórcio. Uma enteada que não respeita a família não pode ficar de graça!
A tia Liuba imediatamente assentiu, ajustando seu chapéu torto:— Ela tem razão, Taiszia! A mulher está para o marido. E entregue seu cartão a Stas, ele controla o orçamento. Não gaste com batom enquanto Vadzhim, irmão do marido, paga os empréstimos escolares!
Quase dei risada na cara deles. Meu pagamento mensal do aluguel, que ainda pago, superava em muito o salário deles. Além disso, eu pagava estacionamento, comida, eletrônicos, férias — tudo era por minha conta. Meu salário era muito maior.
Não gritei. Apenas tirei o celular do bolso, desbloqueei a tela, liguei o gravador e coloquei sobre a mesa.— O que pretende com isso, Taiszia Pavlovna? Está me dando uma escolha? — minha voz permaneceu calma, quase acariciadora. — Então, pedir demissão e entregar o cartão?
— Exatamente! — gritou, sem perceber a gravação.A tia Liuba olhou para mim, e eu encarei seus olhos:— Há seis meses você me pediu dinheiro para consertar o telhado da casa no campo. Prometeu pagar com a colheita de outono. Não recebi nem a colheita nem o dinheiro.
A tia Liuba ficou vermelha, como se estivesse se fundindo com o sofá:— Bem… o ano foi ruim…— Tio Kostya — me virei para o homem encurvado. — Você recebeu dinheiro meu para um caminhão usado. No primeiro mês, o destruiu. E agora vem aqui me dar lição com o meu próprio dinheiro?
O ambiente mergulhou em um silêncio pesado e opressor. Apenas o zumbido constante da geladeira era ouvido. A confiança deles se dissipou imediatamente.— Este apartamento está no meu nome desde antes do casamento. Pago todas as contas. E agora — indiquei a porta — saiam. Em dois minutos, nada ficará aqui de vocês, nem pensamento, nem pegada.
Taiszia Pavlovna se levantou com dificuldade, o rosto manchado:— Mulher cruel! Stas vai te mostrar quem manda aqui!Eles saíram para o corredor, batendo o elevador e resmungando. Tranquei a porta principal e abri a janela. O ar frio bateu no rosto, afastando o cheiro de outros perfumes.
Stas chegou tarde da noite. De seu casaco, como de costume, vinha cheiro de gasolina e cigarro. Jogou os sapatos e a bolsa no puff e correu para a cozinha.— O que você fez?! — gritou, gesticulando. — Minha mãe me ligou chorando! Por que você expulsou meus parentes? Você enlouqueceu com sua posição?!
Eu estava sentada na ilha da cozinha, diante do laptop aberto. A tela iluminava uma longa tabela.— Sente-se, Stas — minha voz permaneceu calma.— Não! Você deve se desculpar com minha mãe! Ela se preocupa com nosso futuro!
— Futuro? — virei o laptop para ele. — Olhe para isso. Estes são os extratos das minhas contas durante nosso casamento. Pague o dentista da sua mãe, encerre os empréstimos do seu irmão, envie dinheiro aos seus pais — tudo eu financiei. O valor cobria até o preço de um estúdio no subúrbio.

Stas ficou em silêncio. Seus olhos se moviam de um lado para outro, os lábios mexiam sem som, tentando encontrar uma desculpa.— Isso… é por causa dos parentes. Família… — gaguejou.— Então teríamos sido família se não tivessem roubado meu dinheiro do cartão às escondidas, enquanto eu dormia ou tomava banho.
Tirei a pasta de uma gaveta, coloquei uma fina pasta plástica sobre o teclado:— Este é o pedido de divórcio. Assinei minha parte. Não há bens comuns, seu carro é de antes do casamento, assim como meu apartamento. Agora preste atenção:
Peguei o celular— Uma hora atrás bloqueei o cartão adicional, que você usava. Seu acesso ao meu salário terminou. Até amanhã você pode recolher suas coisas.Dois dias depois, encontrei Darina, advogada e minha amiga da faculdade. O cheiro de café preenchia o pequeno café. Darina examinou os documentos calmamente.
— Ksênia, isso é um presente — disse. — As transferências para a família deles foram feitas sem sua permissão. Isso pode ser julgado como enriquecimento ilícito. Eles terão que responder.Minha sogra não desistiu. Enquanto isso, invadiu meu escritório gritando “olhem só!”, mas eu reproduzi sua própria voz para todos usando o gravador. Os funcionários riram.
O tribunal foi longo. O advogado de Stas tentou distorcer as provas, mas Darina permaneceu calma a cada passo. No final, o tribunal determinou que Stas devolvesse o dinheiro levado ilegalmente, e o advogado recebeu uma advertência.
Stas e seu irmão acabaram na prisão. Taiszia Pavlovna perdeu sua casa e, no final, morreu silenciosamente, sozinha.Dois anos depois, eu estava na varanda de uma villa à beira-mar, o vento bagunçando meu cabelo, as ondas rugindo. Meu celular mostrou um número desconhecido.
— Alô — disse.— Ksênia… sou eu, Stas — a voz quebrada e estranha. — Saí da prisão… estou sem dinheiro. Pode me emprestar?Olhei para a água escura. Nada se moveu dentro de mim.— Não, Stas. Somos estranhos — respondi.
Coloquei o telefone na lista de bloqueio e o deixei de lado. O vento trouxe a brisa salgada. Todas as dívidas resolvidas, meu futuro era só meu.


