Damian estendeu cuidadosamente a caneca para Ilona.— Beba. Tem mel e erva-de-são-joão. Aquece por dentro — disse com voz baixa, tranquila.As mãos de Ilona tremiam ao tentar segurar a caneca quente. Um gole, e o líquido ardente queimou seus lábios,
mas à medida que descia pela garganta, espalhou-se lentamente pelo corpo, como uma chama invisível que devolvia a vida. De repente, pela primeira vez em meses, ela se sentiu viva. O frio, o cansaço e o medo se dissiparam, restando apenas o calor.
Damian sentou-se ao seu lado, os olhos brilhando à luz da lareira, como se quisesse guardar cada momento. Parecia alguém que protege uma chama de vela ao vento: atento, cuidadoso, mas profundamente guardando tudo que não podia ser dito.
— De onde você veio? — perguntou com voz baixa, mas séria.— De Gyimes… — sussurrou Ilona, quase para si mesma. — Eu estava fugindo.— Fugindo de quem?À luz do fogo, ele não olhou para ela. Apenas observava as chamas crepitando,
enquanto lá fora a neve cobria o mundo como um manto branco e cintilante.— Da minha própria vida… que não era minha — disse Ilona suavemente, quase enterrando a dor dentro de si.
Damian assentiu. Nas montanhas, ninguém precisa questionar o outro.
Cada um carrega seu próprio fardo, e nem toda ferida gosta de luz.Ilona estendeu cuidadosamente as pernas, sentindo o sangue fluir novamente. Damian lhe ofereceu uma camisa seca pendurada num gancho.— Vista. Vai ficar um pouco larga,
mas está seca — disse, e havia algo de cuidadoso em sua voz.Ao puxar a camisa pela cabeça, ele percebeu uma cicatriz fina e branca no ombro dela.— Quem fez isso com você? — escapou de seus lábios, enquanto a sombra das lembranças passava por seus olhos.
Ilona estremeceu.— Não importa mais. O importante é que eu saí — sussurrou, escondendo sob a blusa os vestígios do passado com um gesto pequeno, mas firme.
Damian fechou os punhos. Havia um brilho de dor antiga em seu olhar.
— Às vezes, o homem se transforma em monstro quando acredita ser dono de tudo — murmurou, quase para si mesmo.Ilona o encarou. Havia curiosidade, medo e uma pequena esperança em seus olhos.— Você também está fugindo de algo,
não é, Damian? — perguntou suavemente, mas com firmeza.O homem sorriu amargamente e fixou o olhar no fogo.— Eu era médico em Brașov. Não consegui salvar minha esposa. No inverno… um inverno tão cruel que quase se perde a própria alma.
Dizem que Deus leva os melhores, mas às vezes sinto que envia os anjos para o lugar errado. Desde então, vivo aqui, entre as montanhas, ouvindo a solidão, o vento e o sussurro suave das ervas.O coração de Ilona se apertou. Quis tocá-lo, mas conteve-se.
— E agora você está sozinho? — perguntou baixinho.— Com o vento, com as ervas, com os lobos… e isso basta — respondeu, mas havia nos olhos a solidão que nunca se apaga totalmente.— Talvez… — Ilona sorriu suavemente — Talvez Deus não tenha errado.
Só precisou esperar alguém por quem lutar de novo.Damian levantou o olhar. Por um instante, parecia que o tempo parara. A neve lá fora silenciava, e o vento parecia descansar.Quando Ilona adormeceu, Damian permaneceu junto à lareira, observando sua respiração.
Cada suspiro era uma prova de vida. Delicadamente, cobriu-a, e pela primeira vez em anos, não como médico, mas como ser humano, cuidava de outra pessoa. De uma mulher que talvez o destino enviara para que ele sentisse novamente.
Pela manhã, os primeiros raios de sol atravessaram a janela, e os cristais de gelo brilhavam como diamantes. O cheiro da sopa fumegante e do pão fresco preenchia o quarto.— Você não dormiu? — perguntou Ilona.— As montanhas não deixam ninguém dormir muito
— respondeu Damian, e seu sorriso, pela primeira vez, era puro e humano.Ilona comeu e falou baixinho:— Não posso voltar. Lá… não me esperam pessoas, mas monstros.— Então fique aqui — disse ele simplesmente. — Até decidir o que quer.

Ela baixou os olhos, depois disse com voz baixa, mas firme:— E se eu decidir não ir embora?Damian congelou, depois se aproximou:— Então terá de se acostumar com o vento, a solidão… e comigo. Nenhum deles é fácil.Ilona riu, claro e caloroso.
— Depois do vento que vivi, sua voz já não me assusta.Damian abriu a porta e a chamou.Lá fora, o mundo parecia renascido. As montanhas brilhavam ao sol, o ar era translúcido, e cada respiração parecia uma prece. Ilona ficou na soleira,
o vento acariciando seu rosto, sentindo-se renascer.Damian colocou sobre os ombros dela o velho casaco.— Essas montanhas curam, se você permitir. Talvez você também.
Ilona olhou para ele.— E você, doutor?
Os olhos de Damian brilharam.— Também eu. Se você ficar.A mão de Ilona deslizou lentamente sobre a dele. Os dedos dele tremeram — pela primeira vez em anos, sentiu o calor da vida.— Então fico — disse ela simplesmente. — Até a tempestade passar.
Ou até você me mandar embora.Os dedos dele entrelaçaram-se delicadamente em seus cabelos, acariciando os fios vermelhos, como se acreditassem que o gelo nunca mais retornaria.— Então que a tempestade nunca cesse — sussurrou.
Ilona sorriu e deu um passo em sua direção. A neve girava suavemente ao redor deles, quase como uma bênção.O vento não uivava mais — apenas respirava junto com eles.Na primavera, quando a neve derreteu, a cabana deixou de ser chamada de “a casa albina da montanha”.
Os moradores sussurravam:— Lá no alto, vivem dois. A mulher ri, o homem toca violino de novo.E quando o vento varria o vale, trazia consigo uma melodia suave e calorosa, que até a tempestade escutava em silêncio.


