O meu vizinho da casa de campo trouxe-me uma lista com 12 reclamações: respondi com uma única frase.

O meu vizinho trouxe-me uma lista com doze reclamações. Eu respondi com apenas uma frase.

O documento estava impresso.

Não era um papel rabiscado às pressas, nem uma nota improvisada. Era um texto bem formatado, com doze pontos numerados, alinhamento perfeito e espaçamento regular, como se tivesse sido preparado para um processo oficial.

Segurei a folha com dois dedos.

Em quarenta e três anos como engenheira de topografia, já tinha visto milhares de documentos: mapas de terrenos, registos de propriedades, medições de fronteiras e relatórios oficiais.

Mas nunca, em toda a minha vida, alguém que conhecia havia apenas oito dias me entregara um dossiê com doze reclamações contra mim.

— Está a falar a sério? perguntei.

O homem do outro lado da cerca assentiu.

— Completamente. Tudo foi documentado.

O nosso chalé de verão tinha sido comprado por mim e pelo meu marido há vinte e nove anos.

Semyon era maquinista de comboios. Um homem capaz de consertar qualquer coisa com as próprias mãos. A casa, o alpendre, as árvores do jardim — tudo ali tinha a marca dele.

Ele morreu há cinco anos.

Numa noite deitou-se a dormir e nunca mais acordou.

Depois da sua morte, pensei que nunca mais voltaria ali. Tudo me lembrava dele: as macieiras que plantou, o alpendre que construiu, até a cerca ligeiramente torta que ele próprio instalou num verão quente.

Mas acabei por voltar.

Primeiro por alguns dias.

Depois por algumas semanas.

E, por fim, passei a viver ali todos os verões.

O terreno vizinho ficou abandonado durante quase quatro anos. Os antigos proprietários tinham ido viver com a filha, e a casa deteriorava-se lentamente.

Até que, numa manhã de maio, apareceu um SUV branco.

O novo dono saiu com uma fita métrica e um bloco de notas. Durante horas andou pelo terreno, a medir tudo, a escrever e a observar cada detalhe.

Eu acenei-lhe.

Ele respondeu com um aceno educado, mas não se aproximou.

Na altura, não dei importância.

Poucos dias depois chegaram os trabalhadores da construção. A casa antiga foi demolida num único dia, e começou a construção de uma nova moradia moderna.

Fiquei satisfeita.

Ter um vizinho era melhor do que ter um terreno abandonado.

Esperava alguém simpático.

Enganei-me.

A primeira reclamação chegou ao quarto dia.

— O seu cão ladra sempre assim tão cedo?

A Berta, a minha velha pastor alemão, ladrava mesmo.

Principalmente aos trabalhadores dele, que começavam antes do amanhecer.

— É um cão de guarda — respondi. — Isto não é uma cidade.

Ele foi-se embora irritado.

No dia seguinte voltou.

Desta vez com uma fita métrica.

— Medi o terreno — disse. — A sua cerca invade quinze centímetros da minha propriedade.

Quase ri.

Depois de quarenta e três anos a fazer medições, sabia exatamente onde ficavam os limites.

— Tem certeza?

— Absoluta.

— Mediu com essa fita?

O rosto dele ficou vermelho.

— Vou apresentar uma reclamação oficial!

— Faça isso.

Depois disso, as queixas multiplicaram-se.

A minha macieira incomodava-o porque as maçãs caíam no terreno dele.

O meu carro antigo fazia demasiado barulho ao ligar.

A fumaça das folhas queimadas ia na direção dele.

O meu rádio de jardim perturbava o silêncio.

Até as ferramentas de jardinagem eram consideradas “antiestéticas”.

Todos os dias surgia um novo problema.

Até que, no oitavo dia, ele apareceu com uma pasta.

— Organizei tudo — disse orgulhoso.

Na capa estava escrito:

RECLAMAÇÕES CONTRA A PROPRIETÁRIA DO LOTE N.º 16

Li os doze pontos com atenção.

No último, parei.

“Um gato ruivo, presumivelmente pertencente à proprietária do lote n.º 16, foi observado várias vezes no lote n.º 17 sem autorização.”

Levantei o olhar.

— O gato?

— Sim.

— O ruivo?

— Sim.

— Não é meu.

— Mas estava no meu alpendre.

— Ele está em todos os alpendres desta região há quinze anos.

Ele cruzou os braços.

— A senhora não leva os meus problemas a sério.

E nesse momento entendi tudo.

Não era o cão.

Nem as maçãs.

Nem a cerca.

Nem o gato.

Era solidão.

Mais tarde soube a sua história.

Durante vinte anos trabalhou numa grande empresa, onde subiu de vendedor a diretor regional.

Depois a empresa faliu.

Perdeu o emprego.

Procurou trabalho durante meses sem sucesso.

A esposa acabou por deixá-lo.

Venderam o apartamento e dividiram o dinheiro.

Com a sua parte, ele comprou aquele terreno.

De repente, tudo desapareceu.

Sem colegas.

Sem família.

Sem rotina.

Sem propósito.

Apenas uma casa em construção e silêncio demais.

Virei a folha.

— Tem uma caneta?

Ele entregou-me uma.

Escrevi uma única frase.

Devolvi-lhe o papel.

Ele leu.

— O que é isto?

— O número do agente local da polícia.

Ele ficou confuso.

— Porquê?

— Porque se quer mesmo apresentar queixas, ligue para ele. Ele virá, verificará tudo e confirmará que não há nenhuma infração.

Ele ficou pálido.

Depois falei com mais calma:

— Escute. Não sei o que aconteceu na sua vida. Mas brigar com vizinhos não vai resolver nada.

Ele ficou em silêncio por um longo momento.

Depois baixou os ombros.

— Eu só queria…

Mas não terminou a frase.

Eu já sabia o que ele queria dizer.

— Venha tomar chá hoje à noite — disse. — Tenho geleia de groselha caseira.

Ele olhou para mim como se eu tivesse oferecido uma fortuna.

— A sério?

— Claro. Somos vizinhos.

Às sete em ponto ele tocou à porta.

Trouxe uma caixa de chocolates.

Sentámo-nos na varanda.

A Berta dormia tranquila aos meus pés.

E o famoso gato ruivo — o mesmo do ponto doze — saltou para o colo dele e começou a ronronar.

Ele sorriu.

— Estranho. Os gatos normalmente não gostam de mim.

— Este sabe quem precisa de companhia.

Falámos durante horas.

Do trabalho dele.

Do divórcio.

Das perdas.

Do medo de recomeçar aos quarenta e dois anos.

Eu apenas ouvi.

Às vezes, isso é tudo o que alguém precisa.

Dois meses depois, ele tornou-se administrador da nossa associação de moradores.

Revelou-se excelente nisso.

Resolveu problemas de infraestrutura.

Organizou a documentação.

Ajudou os vizinhos.

As mesmas pessoas que antes riam da sua lista de reclamações começaram a respeitá-lo.

Hoje a casa dele está concluída.

Bonita, moderna, com grandes janelas e uma varanda ampla.

Tomamos chá juntos muitas vezes ao entardecer.

A Berta já não ladra para ele.

O gato ruivo continua a circular entre os dois terrenos como se fossem dele.

E a velha macieira continua a deixar cair frutos dos dois lados da cerca.

A diferença é que agora ele já não traz reclamações.

Traz os frutos numa cesta — para fazermos compota.

A lista das doze reclamações ainda está guardada numa gaveta.

Às vezes volto a lê-la.

E sorrio ao ver a linha sobre o “gato ruivo presumivelmente pertencente ao lote n.º 16”.

Porque a vida me ensinou algo importante:

As pessoas nem sempre procuram conflito por maldade.

Muitas vezes, procuram-no porque estão profundamente sozinhas.

E, às vezes, uma simples chávena de chá pode mudar mais do que mil discussões.

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