Quando o marido dela atirou uma pasta grossa sobre a mesa, Valeria se sobressaltou. O som cortou o silêncio da sala. Ela ergueu lentamente o olhar — e ficou paralisada.
Roman estava diante dela, impecável em um terno azul-escuro perfeitamente cortado, abotoado até o topo como uma armadura. Seu rosto estava tenso, o olhar impaciente e frio.
Um forte cheiro de pós-barba com notas intensas de pinho o envolvia, misturado ao aroma de sapatos recém-engraxados.— Arrume-se — disse ele de forma curta. — Vista aquela blusa branca fechada e a saia preta mais longa. Prenda o cabelo. Tire a maquiagem.
Ele jogou um caderno espiral barato à sua frente, como se não tivesse importância alguma.— Nós saímos em quarenta minutos.Valeria piscou confusa e lentamente largou o tablet.
Ela estava esperando por esse dia — seu único dia de folga. Dava aulas de idiomas na universidade e finalmente queria descansar… e trabalhar na sua tese.
— Roman… você está falando sério? — perguntou ela baixinho. — Que saia? Eu não vou a lugar nenhum. Hoje é meu único dia livre.Ele se inclinou para frente, apoiando as mãos na mesa.
Aquela irritação familiar apareceu em seus olhos — a mesma que surgia sempre que alguém atrapalhava seus planos.— Minha assistente está doente. Tenho uma reunião com parceiros de Madrid em duas horas.
Um contrato importante. Não posso aparecer sozinho. Preciso de alguém ao meu lado… para causar boa impressão.O rosto de Valeria endureceu.
— Para causar impressão? Você quer que eu seja decoração?— Não exagera — disse ele, dispensando o comentário com um gesto. — Você só precisa sentar lá, concordar e fingir que anota.
— Você tem uma equipe inteira! — ela protestou. — Leve alguém do escritório!— Eles fazem perguntas demais — interrompeu ele. — Você pode ficar em silêncio. E são espanhóis. Se necessário, você ajuda.
Valeria sorriu amargamente.— Interessante… então minhas habilidades finalmente têm valor? Quando pedi ajuda com meu livro, você disse que era perda de tempo.
— Valeria, não começa! — ele bateu a mão na mesa. — Meu trabalho sustenta nós dois. Tudo o que eu peço é que você fique sentada em silêncio. Entendeu?
Ela o encarou por um longo momento.Oito anos antes, eles eram uma equipe. Ela traduzia para ele à noite, ajudava a construir tudo. Naquela época, estavam do mesmo lado.
Agora… ela se sentia invisível.Sem dizer uma palavra, levantou-se e começou a se arrumar.O trajeto até o centro parecia longo. Uma música baixa tocava no carro, mas a tensão pesava no ar.
Roman tamborilava os dedos no volante e murmurava frases em inglês para si mesmo — nem sempre corretas. Valeria percebia, como sempre.
O restaurante ficava no topo de uma torre. Elegante, silencioso, preenchido pelo aroma de café e comida fina.Os parceiros de Madrid já estavam à espera. Señor Alvarez, um homem grisalho de olhar calmo, e seu assistente Carlos.
— Senhor Alvarez! — disse Roman com um grande sorriso. — Esta é minha assistente, Valeria. Ela vai anotar tudo.Valeria sentou-se, colocou o bloco à sua frente… e permaneceu em silêncio.
A reunião começou.Roman falava com confiança — pelo menos era o que ele achava. Seu inglês era irregular, as frases às vezes inseguras. Os espanhóis ouviam atentamente.
Então Carlos se inclinou para Alvarez e sussurrou em espanhol:— Ele é um pouco confiante demais, não?A mão de Valeria parou no ar.Alvarez sorriu levemente.
— Um típico arrivista. Tem base, mas não entende estratégia. Acredita que vamos assinar qualquer coisa.Roman sorriu satisfeito, convencido de que falavam da comida.
Mas Valeria entendia tudo.— Vamos adicionar o ponto 4.12 — continuou Alvarez. — Penalidades por atraso. Com a logística dele, certamente vai falhar.
— E então podemos assumir parte da empresa dele — acrescentou Carlos.— Especialmente se não lerem as letras pequenas… — Alvarez lançou um olhar para Valeria. — Com uma moça tão silenciosa, não haverá problemas.
O rosto de Valeria esquentou.Uma moça silenciosa.Invisível.Ela olhou para o marido. Ele parecia satisfeito. Orgulhoso.E completamente alheio.

Quando Alvarez passou para o inglês e pediu garantias, Roman hesitou. Procurava palavras, cometia erros.O momento havia chegado.Valeria pousou lentamente a caneta.
— Nenhum documento será assinado hoje, señor Alvarez, sem uma análise cuidadosa do ponto 4.12.Um silêncio pesado caiu sobre a mesa.Carlos deixou cair a caneta.
Roman empalideceu.— Lera… o que você está fazendo?! — sussurrou ele, furioso.Ela nem olhou para ele.— E se o plano de vocês é adquirir parte da empresa através de dívidas artificialmente criadas
— continuou em espanhol perfeito — então precisarão encontrar outros parceiros.Alvarez pousou lentamente o copo.— Você… fala espanhol?
— Eu ensino na universidade — respondeu Valeria calmamente. — E entendi tudo.Uma breve pausa.Então Alvarez começou a rir.— Bem… então vamos recomeçar. O ponto 4.12 será removido. Um acordo justo.
Valeria fechou seu bloco.— Vocês podem discutir os detalhes com meu marido. Meu papel aqui terminou.Ela se levantou, ereta, com passos firmes e seguros.
Roman a alcançou do lado de fora.— Você ficou louca?! — exclamou ele. — Você quase estragou tudo!Valeria o encarou com calma.— Eu salvei você.
— Eu não pedi!— Esse é exatamente o problema.Ele ficou em silêncio.— Eu vou para casa — disse ela por fim. — Para pegar minhas coisas.
O rosto dele ficou pálido.— O quê?!— Estou cansada de ser invisível na sua vida.Um vento frio tocou seu rosto enquanto ela saía para a rua.Valeria pegou o telefone e chamou um táxi. E enquanto esperava… pela primeira vez em muito tempo, sentiu que era livre.


