“Não há tradutor, está tudo perdido!” gritou o proprietário. Mas então a faxineira deixou o esfregão de lado e começou a falar em italiano perfeito.

Denis Rubtsov arremessou seu smartphone contra a superfície de vidro da mesa com tanta força que pequenas rachaduras se espalharam como uma teia. O telefone bateu para o lado e derrubou uma pilha de brochuras brilhantes com um estrondo.

— “Não há tradutor? Então estamos perdidos!” — gritou o dono da fábrica, caminhando de um lado para o outro. — “O que quer dizer com ‘acidente de trânsito’?

Vadim, você está pensando direito? Tragam ele do hospital! Que ele escreva no papel se precisar, mas quero ele aqui em vinte minutos!”Vadim puxou nervosamente a gola da camisa, como se o colarinho de repente o estivesse sufocando.

— Denis Sergeyevich… ele não consegue falar agora. Liguei para todos os centros de idiomas em Ecaterimburgo. Nenhum tradutor simultâneo de italiano técnico conseguiria chegar a tempo, por causa do trânsito.

No andar 38 da torre Iset, o ar-condicionado zumbia monotonicamente. Pelas janelas panorâmicas, nuvens carregadas se acumulavam, pesadas e cinzentas.

Denis apoiou-se sobre a mesa com as duas mãos e abaixou a cabeça.Em quinze minutos, Vincenzo Moretti, um conservador industrial de Milão, chegaria.

Sua assinatura decidiria se a fábrica de Rubtsov receberia as novas linhas de produção ou declararia falência em seis meses.— Talvez possamos traduzir pela internet? — sugeriu timidamente Yana, a secretária de postura impecável.

— Podemos usar um programa no laptop.Denis olhou para ela com atenção.— Yana, Moretti é alguém que percebe até como o lenço de bolso está dobrado.

Se mostrarmos a ele uma tradução automática mal feita, ele apenas se levantará e sairá. E nós ficaremos de mãos vazias.No corredor, ouviu-se o som monótono de rodinhas de borracha.

Uma carrinha azul de limpeza apareceu à porta, com Ksenia, uma mulher de cerca de 45 anos, torcendo cuidadosamente um pano cinza. Ela trabalhava naquele andar há mais de um ano.

Silenciosa, quase invisível, sempre com o olhar baixo.Ela ouviu fragmentos do diálogo: italiano… Moretti.Suas mãos pararam sobre o balde.

Por um instante, o cheiro de produtos de limpeza desapareceu, substituído por lembranças — o espresso forte na Piazza del Duomo, o farfalhar de papéis de contratos. Vincenzo Moretti. Ela conhecia bem esse nome.

Vadim suspirou, derrotado:— Sirva bebidas fortes, Denis. Vamos sorrir, acenar e nos envergonhar.Ksenia fechou os olhos. Por anos, ela havia tentado apagar seu passado. Limpava pisos e móveis para não pensar em quem era antes.

Mas a nota de desespero na voz de Denis — o único que às vezes segurava a porta do elevador para ela — a fez endireitar as costas.Ela tirou as luvas amarelas, cuidadosamente as colocou sobre a carrinha e bateu na porta aberta.

— Ksenia, não agora, pelo amor de Deus — acenou Yana. — Limpe a sala de reuniões à noite.Ainda assim, a mulher entrou.— Desculpe, Denis Sergeyevich. Acidentalmente ouvi. Precisa de alguém para a reunião com o senhor Moretti?

Denis franziu a testa.— Ksyusha, volte ao trabalho.— Falo italiano fluentemente — disse Ksenia, com voz firme, confiante.Vadim soltou um som estranho e deixou a caneta cair.

— O que você disse? — Denis inclinou-se à frente.— Vivi e trabalhei em Milão por doze anos. Conheço protocolos de negócios, especificidades de fornecimento internacional e termos técnicos. Posso conduzir sua reunião.

Yana riu nervosamente:— Ksenia, você está brincando? Esses contratos são enormes.— Localização da produção, tarifas alfandegárias, amortização de equipamentos — Ksenia disse calmamente.

— Denis Sergeyevich, vocês não têm escolha. Os italianos chegam em oito minutos.Denis a observou por longos segundos. Ela ainda parecia a mulher de uniforme de limpeza, mas os olhos… eram firmes, decididos, acostumados a tomar decisões importantes.

O telefone de Vadim vibrou.— Denis, eles entraram no saguão.— Yana! — rugiu Denis. — Leve-a para a sala ao lado! Tire o casaco. Vadim, dê a ela seu lenço reserva, o que for! Rápido!

Quando as portas do elevador se abriram, Vincenzo Moretti, alto e imponente, acompanhado de dois advogados, entrou.Ksenia deu um passo à frente, bloqueando a passagem de Denis, e com um sorriso contido disse:

— Buongiorno, signor Moretti. Benvenuti a Ekaterinburg. È un onore accogliervi nella nostra azienda.Sua pronúncia era impecável. Sem sotaque russo, com entonação lombarda perfeita.

Moretti parou, surpreso. O espanto deu lugar a um sorriso caloroso.— Buongiorno, signora. Seu italiano é excelente. Estudou na Bocconi?— Politécnico de Milão, signor — respondeu ela suavemente.

Denis respirou aliviado. Ele não entendia uma palavra, mas viu a tensão do visitante se transformar em cordialidade.A negociação começou. Denis falava frases curtas; Ksenia traduzia, mas fazia mais: suavizava, explicava detalhes locais e orientava a conversa.

Após uma hora e meia, o contrato final chegou à mesa. Denis pegou a caneta.De repente, Ksenia colocou a mão sobre a dele.— Um momento — disse, olhando rapidamente as pequenas letras. Seu rosto ficou sério.

— Desculpe, signor Moretti, — disse em italiano. — Mas a cláusula de amortização na sua filial poderia bloquear nossas contas imediatamente. Reguladores europeus já puniram empresas por estruturas similares. Não podemos correr esse risco.

O som da chuva no vidro parecia ensurdecedor. Moretti olhou para seu advogado, que desviou o olhar.— Ksenia, o que está acontecendo? — murmurou Denis, em russo. — Por que você está atrasando isso?

— Estou protegendo vocês de sérios problemas legais — respondeu com os lábios, sem tirar os olhos de Moretti.O industrial italiano recostou-se na cadeira, com profundo respeito nos olhos.

— Signora… seu nome?— Ksenia Volkova.— Signora Volkova, você é incrivelmente atenta. Meus especialistas diziam que a cláusula era clara. Obrigado pela honestidade.

Denis a chamou para o escritório.Ela contou seu passado difícil na Europa, a injustiça de acusações falsas e o recomeço na Rússia como faxineira, mas com conhecimento e experiência intactos.

— Amanhã, você não vai limpar o chão — disse Denis. — Terá um escritório ao meu lado. Liderança de projetos internacionais. Salário justo e bônus por cada negócio fechado.

Ksenia concordou, mas fez duas exigências: aumento salarial para o pessoal técnico e criação de fundo educacional para filhos de funcionários.

Denis sorriu.Um ano depois, Ksenia Volkova estava no palco de um fórum econômico.— Um ano e meio atrás, — disse ela, olhando para a plateia, — meu dia de trabalho começava às seis da manhã com um balde e um pano.

Surpresa e aplausos percorreram o salão.— Nunca subestimem alguém. Porque um dia, a pessoa com o pano pode ser quem salva todo o seu trabalho e legado.Ksenia sorriu. Ela havia finalmente voltado a ser ela mesma.

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