„Fingi que a minha sobrinha era minha filha para testar o meu noivo — o que ele fez depois disso acabou com o nosso noivado.“

A pergunta de Richard ficou suspensa no ar, como a fresta de uma porta mal fechada por onde entra uma corrente fria no quarto.

— Tens uma filha? Porque não me disseste? — repetiu, mas já não com a mesma voz. Não havia curiosidade nela. Mais cálculo.

A colher ficou imóvel na minha mão. Observei o seu rosto. Os olhos. Procurava aquele momento em que a pessoa larga o papel e sai dele.

Mas ele não saiu. Apenas continuou a atuar, de forma mais suave.

— Não achei importante no início da nossa relação — disse calmamente. Calmo demais. — Agora, sim.

Vi-o processar aquilo. Rápido. Rápido demais.

— Entendo — assentiu por fim. — E… onde é que ela vive?

Esse foi o primeiro verdadeiro teste.

A pergunta não era sobre a filha. Era sobre o contexto. Sobre a profundidade da responsabilidade. Sobre o tamanho do possível “peso”.

Deixei o garfo.

— Estuda no estrangeiro. Vem raramente a casa.

O rosto de Richard relaxou ligeiramente. Como se tivesse marcado um cálculo interno.

— Isso… facilita as coisas — disse, e acrescentou de imediato: — Quero dizer, a logística.

A palavra “logística” saiu-lhe como uma frase treinada demasiadas vezes.

Sorri. Inclinei ligeiramente a cabeça.

— Sim. A logística é sempre importante.

E nesse momento decidi continuar.

Nos dias seguintes, observei-o como uma investigadora que não procura a resposta, mas a falha no sistema.

Pequenas coisas mudaram.

Ele perguntava mais. Mas não sobre mim — sobre as minhas circunstâncias.

“Ela já tem poupanças próprias?”

“Com que frequência falam?”

“Existe alguma sensibilidade… médica na família?”

Todas as perguntas eram educadas. Demasiado educadas. Como um formulário preenchido com um sorriso.

Uma noite, ficou em minha casa, e as taças de vinho já estavam meio vazias. Sentou-se ao meu lado no sofá.

— Sabes — começou devagar — na vida o mais importante é ver tudo com clareza. Sem surpresas. Sem mal-entendidos.

A voz era quente. As palavras, frias.

— Sim — disse eu. — A clareza é importante.

E então tocou suavemente na minha mão.

— Já falaste com ela… sobre o futuro? Sobre começares uma nova vida?

Por trás da pergunta havia outra coisa. O lugar que ele ocupava nesse “futuro” e tudo o que poderia ser um obstáculo.

Sorri.

— Sim. Ela aceita.

Não era verdade.

Mas a mentira já circulava num espaço comum entre nós.

Os olhos de Richard brilharam por um instante. Alívio. Ou vitória.

Ainda não sabia qual.

Nessa noite não dormi.

Olhei para o teto e pensei em quando tudo tinha mudado. Quando o romance se tornou estratégia. O cuidado, controlo. As perguntas, um mapa para a minha fortuna.

No dia seguinte, liguei para a Maggie.

— Ainda continuamos? — perguntou ela de imediato.

— Sim.

— Não gosto disto.

— Eu também não — disse honestamente. — Mas já estou a meio.

À noite, Richard voltou.

Desta vez não trouxe flores.

Colocou uma pasta sobre a mesa.

— O que achas disto? — perguntou.

Não a abriu. Apenas deixou-a ali.

— O que é?

— Apenas um plano — disse. — A estrutura financeira da nossa vida em comum. Para que tudo seja transparente.

A ênfase em “vida em comum” foi demasiado precisa.

Peguei na pasta. Não a abri.

— Isto está a avançar depressa.

— As coisas boas começam sempre depressa — sorriu.

Foi nesse momento que quase me ri.

Quase.

Mas em vez disso, apenas disse:

— Preciso de falar com a minha filha.

Richard assentiu, mas o olhar dele ficou mais tenso.

— Claro. É importante que todos estejam na mesma página.

“Todos.”

Não “nós dois”. Não “nós três”.

Todos.

Na tarde seguinte, Maggie chegou.

Parecia ter vinte e cinco anos se não olhasses bem. Se olhasses, vias que era muito mais madura do que Richard alguma vez imaginaria.

— Então é ele? — perguntou baixinho quando Richard saiu para atender uma chamada.

— Sim.

— E?

— Ele observa.

— Isso não é uma resposta.

— Ainda não.

Maggie olhou à volta do apartamento.

— Sabes o que eu vejo? — perguntou.

— O quê?

— Alguém que não te quer a ti. Quer a tua estabilidade.

A frase era demasiado precisa.

Richard voltou nesse momento.

Sorria.

Mas já não da mesma forma.

Como se sentisse que algo no espaço tinha mudado.

Sentou-se à nossa frente.

— Estou muito feliz por finalmente nos conhecermos — disse a Maggie.

— Eu também — respondeu ela.

Silêncio.

Depois Richard virou-se para mim.

— Tenho pensado muito. A tua filha… é um fator importante.

“Fator.”

Essa foi a segunda palavra que o revelou.

E então Maggie falou:

— Não precisa de se preocupar comigo.

Ele virou-se para ela.

— Eu não estou preocupado.

Sorria.

Mas os olhos já não acompanhavam o sorriso.

E eu percebi, nesse momento, algo de forma definitiva.

A questão não era se ele amava.

Era o que ele considerava um “risco”.

E nesse instante já não tinha certeza de que ele era o único a jogar este jogo.

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