O plástico escuro tinha desaparecido. Vera esvaziou toda a sua grande bolsa na cama: cremes, chaves, pó compacto e balas de hortelã rolaram pelo chão. O porta-cartões não estava lá.
E junto com ele, o dinheiro que ela e Denis haviam guardado para comprar o terreno da casa.Vera se agachou e olhou debaixo do criado-mudo. O ar parecia pesado, difícil de respirar.
Ela lembrava-se de que, na noite anterior, depois de pagar a entrega, havia colocado o cartão no bolso da bolsa. A bolsa, no entanto, permaneceu pendurada no corredor a noite inteira.
Da cozinha vinha um cheiro forte, adocicado demais e quase enjoativo. Lírios, que haviam se mudado para o apartamento junto com Nina Yurievna alguns dias atrás. Ela chegou sem avisar, com uma mala, determinada a “colocar ordem” na casa do filho.
Vera ajustou a camiseta e entrou na cozinha. A sogra estava ao fogão, mexendo algo com a espátula. Ela usava o avental de Vera, que esta própria havia encontrado no armário.
— Finalmente acordou — disse Nina, sem se virar. — Denis saiu com fome. Só deu um gole de água e saiu correndo. Isso é normal? A esposa fica em casa, rabiscando no tablet, enquanto o marido passa fome.
Vera permaneceu em silêncio. Ela era artista, frequentemente trabalhava até tarde à noite em ilustrações de livros, mas para uma ex-chefe de departamento de vendas isso não contava como trabalho.
— Nina Yurievna — disse Vera, parada na porta — você mexeu na minha bolsa no corredor?A mulher virou a comida na frigideira, o óleo crepitou.
— Por que eu precisaria da sua bolsa? Estava limpando o pó, talvez tenha encostado. Procure você mesma. Com você, tudo está sempre espalhado.
Vera apertou os olhos. Lembrou-se de que, no jantar de ontem, a sogra reclamara longamente que não tinha nada para vestir no inverno e elogiara roupas de uma loja cara próxima.
E também lembrou que, uma semana atrás, havia mudado a senha do cartão e anotado em um papel, colado no telefone. Ontem, o telefone estava na mesa, bem na frente de Nina Yurievna.
Vera voltou para o quarto e fechou a porta. Rapidamente abriu o laptop e entrou no aplicativo do banco. O saldo carregou lentamente, mas o dinheiro estava lá — toda a quantia que haviam economizado durante meses.
Os dedos ainda tremiam um pouco. Ela não bloqueou o cartão imediatamente; se fizesse isso, o terminal da loja não funcionaria e Nina poderia alegar que havia encontrado o cartão no chão.
Não. Vera transferiu tudo para outra conta, invisível ao cartão. Na conta principal, sobraram apenas dezesseis rublos.“Que o caixa diga isso em voz alta na frente de todos”, pensou Vera.
Uma hora depois, ouviu barulho no corredor.— Estou indo! — gritou Nina. — O almoço está no fogão, faça algo, não se envergonhe!A porta bateu. Vera olhou pela janela enquanto a mulher, de boina colorida, seguia animada até o ponto de ônibus.
Nas duas horas seguintes, Vera não conseguiu se concentrar no trabalho. Olhava constantemente para o telefone. Às duas horas, uma ligação: era Denis.
— Vera, eu não entendo — disse o marido, preocupado, com o barulho da fábrica ao fundo — O que aconteceu?— O que aconteceu? — respondeu Vera calmamente.
— Minha mãe está chorando desesperadamente. Não consigo entender nada. Ela grita ao telefone: “Filho, peguei o cartão da sua esposa e está vazio!” Como ela conseguiu? Você deu a ela?
Vera sentiu um alívio imediato.— Denis, eu não dei nada a ela. Ela fuçou minha bolsa, pegou o cartão, viu a senha e tentou gastar nosso dinheiro no terreno.
Houve silêncio no telefone. Só o zumbido das máquinas podia ser ouvido.— Sério? — sussurrou Denis.— Transferi tudo para outra conta esta manhã, assim que percebi que o cartão havia sumido.
Se eu tivesse dormido, ficaríamos sem nada, enquanto sua mãe compraria alguma coisa para ela.Denis suspirou profundamente.— Estou indo para casa agora.
À noite, voltaram juntos. Denis entrou primeiro, cansado e abatido. Nina veio atrás, segurando uma bolsa vazia, o rosto vermelho e resfolegando de raiva.
— Tirem os casacos — disse Vera no corredor, de braços cruzados.— Você! — gritou a sogra, jogando a bolsa na cômoda. — Fez isso de propósito! Queria me humilhar!
Eu estava na fila do caixa, atrás de mim uma fila enorme! Entrego o cartão e aquela menina grita alto: “Sem dinheiro, recusa!” Todos riram! O segurança me olhou como se eu fosse uma criminosa!
— Calma, mãe — tentou Denis. — Vera não quis fazer mal.Vera olhou para o marido.— Não quis fazer mal? Denis, ela roubou o cartão. Isso não é uma pequena coisa.
— Eu teria devolvido! — gritou Nina. — Tenho minha aposentadoria! Por que faz isso pelas minhas costas?— Com parentes próximos, você sempre pergunta antes — disse Vera, dando um passo à frente.
— O que vocês fizeram é roubo. Entraram na minha bolsa privada e tentaram gastar o dinheiro que seu filho trabalha para ganhar, só por causa de um casaco.

Denis permaneceu em silêncio, olhando ora para a mãe, ora para a esposa.— Você está virando ele contra mim? — sibinou Nina. — Então fiquem nesse caos! Eu não vou ficar aqui!
— Arrume suas coisas — disse Denis, firme. — Vou chamar um carro.Nina ficou boquiaberta, entrou no quarto, bateu portas do armário, empacotou com raiva e saiu sozinha.
A casa ficou silenciosa. Só o barulho da geladeira persistia. Denis sentou-se no corredor, escondendo o rosto nas mãos.— Ela realmente queria gastar — murmurou.
— Até o fim, eu não acreditei. Pensei que estivesse enganada. Mas no táxi disse: “De qualquer forma, estavam ali.”Vera sentou-se ao lado dele. Nada disse. Às vezes, certas verdades precisam de tempo para serem aceitas.
Oito meses depois, em julho, Vera e Denis compraram o terreno — com árvores e uma base sólida para a casa.Nina não havia ligado por seis meses. Denis ligava de vez em quando só para saber como ela estava.
As conversas eram curtas. Mas no dia da assinatura do contrato, o telefone de Denis tocou. Ele ativou o viva-voz.— Denis? Ouvi dizer que vocês compraram o terreno.
— Sim, mãe. Tudo foi finalizado hoje.Silêncio. Só a respiração podia ser ouvida.— Parabéns — disse Nina — e… Vera, eu vou enviar o porta-cartão pelo correio. Ele ficou perdido na bolsa naquela época. Não guardem rancor. Eu entendi agora.
Vera olhou para Denis. Ele sorriu.— Tudo bem, mãe. Obrigado.Eles desligaram. Vera olhou pela janela para os campos verdes. Estabelecer limites nunca é fácil
— através de brigas e ressentimentos —, mas é a única maneira de construir uma vida em que cada pessoa valorize a outra.


