Versão em português, A porta se abriu com força, como se a própria tempestade tivesse invadido o apartamento.Uma fotografia emoldurada caiu da parede, o vidro estilhaçando-se aos pés de Svetlana. Mas ela não se moveu. Apenas ficou ali, segurando uma xícara de café pela metade,
como se o mundo tivesse parado de repente.— Faça as malas. Agora! — ecoou uma voz.Raíssa Petrovna entrou no apartamento como um veredicto. No rosto, um sorriso de triunfo; nos olhos, uma determinação fria.Atrás dela, um tabelião de terno gasto arfava, segurando um grosso maço de documentos.
Svetlana colocou a xícara lentamente.Sua mão não tremia.Ela esperava por esse momento há três anos.Três anos desde que Andreï morreu naquele acidente de moto.Três anos desde que sua mãe agiu como se Svetlana nunca tivesse existido.E agora ela estava ali. Com um tabelião.
— Este apartamento era do meu filho. Portanto, agora é meu! — Raíssa Petrovna olhou pela sala, como se já estivesse avaliando onde colocaria seu armário favorito. — Você tem uma hora. E nem pense em levar qualquer coisa dos pertences de Andreï!O tabelião pigarreou, ajustou os óculos e abriu o documento.
— Segundo o testamento do falecido Semionov Andreï Viktorovitch, feito duas semanas antes de sua morte…Algo se quebrou no peito de Svetlana.Testamento?Duas semanas antes do acidente?Naquela época, eles haviam brigado. A mãe de Andreï exigia que se mudassem para a casa dela.
Andreï, furioso, bateu a porta e foi embora por três dias.Seria possível que naquele momento…— Todos os bens passam para a única herdeira, sua mãe, Raíssa Petrovna Semionova — leu o tabelião com voz monótona.Svetlana sentou-se lentamente no sofá.
Não foi a dor que a fez ceder.Mas a percepção da traição.Sete anos juntos.Planos compartilhados.Filhos, futuro, esperança.E, após uma simples briga familiar… Andreï deixou tudo para a mãe.— O tempo está passando! — Raíssa Petrovna olhou ostensivamente para o pulso. — Deixe também todas as chaves aqui. Todas!
Svetlana levantou-se.Havia algo estranho em seus movimentos.Não era medo.Não era desespero.Era uma determinação fria, assustadora.Em silêncio, passou pela sogra e se dirigiu ao quarto.Raíssa Petrovna resfolegou, satisfeita.Achava que a nora já estava quebrada.
Mas Svetlana não começou a fazer as malas.Ela abriu o armário e tirou uma pequena caixa.Cheia de documentos.Contrato de compra.Recibos de pagamento da hipoteca.Extratos bancários.Sete anos.Mais de dois milhões de rublos.De seu próprio salário.
Ela trabalhava como enfermeira em uma clínica privada, enquanto o negócio de Andreï ainda engatinhava.Svetlana carregou o fardo.Quase sozinha.Ela voltou para a sala, segurando os documentos.Raíssa Petrovna já vasculhava, abria armários, conferia tudo como se procurasse um tesouro.
— Raíssa Petrovna — disse Svetlana, com uma calma excessiva. — Olhe para isto.Ela espalhou os papéis sobre a mesa, como um jogador de cartas revela suas mãos.— Aqui está o contrato de compra. O apartamento está em nome de Andreï, sim. Mas aqui estão os pagamentos.
Todos feitos da minha conta.Dois milhões e trezentos mil rublos.Em quatro anos.Aqui está o extrato bancário.Aqui está meu contrato de trabalho.Raíssa Petrovna deu de ombros.— E daí? Você era esposa. Era seu dever! O apartamento era dele. O testamento é meu. Faça suas malas!
O tabelião pigarreou novamente.— Na verdade… se a esposa puder comprovar sua contribuição financeira…— Cale-se! — gritou Raíssa Petrovna. — Você fez seu trabalho!Mas o tabelião não se moveu.— Raíssa Petrovna… não é tão simples. O tribunal pode reconhecer o direito de Svetlana Igorievna a uma parte do apartamento.
— Que tribunal?! Eu tenho um testamento!Svetlana recolheu os papéis.— Sugiro que resolvamos amigavelmente. Você fica com metade conforme a herança. Eu fico com o que paguei. Vendemos o apartamento e nos separamos.

— Nunca! — Raíssa Petrovna ficou vermelha. — Você não vai receber um centavo!Svetlana assentiu.— Tudo bem.Então nos vemos no tribunal.Até lá, eu fico aqui.Este é também o meu lar.As semanas seguintes se tornaram um inferno.Raíssa Petrovna não saiu.
Ocupou o quarto.Jogou fora os pertences de Svetlana.De madrugada fazia barulho, ligava a TV no máximo, chamava amigas que comentavam em voz alta:— Vejam como ela é ingrata!Svetlana ficou em silêncio.Trabalhou.Sobreviveu.Dois meses de guerra.
Escândalos.Chantagem.Chamadas à polícia.A audiência foi marcada para o final do terceiro mês.Na véspera do julgamento, Raíssa Petrovna ainda trouxe um homem para morar: seu sobrinho, Viktor.Svetlana telefonou.— Mikhail? Aqui é Svetlana. Preciso de segurança. Agora.
Quarenta minutos depois, dois seguranças chegaram e Viktor foi removido.A decisão do tribunal foi clara:Svetlana tem direito à metade do apartamento.A outra metade pertence a Raíssa Petrovna.Raíssa Petrovna enfureceu-se.— Isso é injusto!
— A decisão pode ser apelada — encerrou o juiz.Um mês depois, o apartamento foi vendido.Raíssa Petrovna não conseguiu comprar a parte de Svetlana.O comprador foi uma jovem família.Por um bom preço.No banco, ao receber o dinheiro, Raíssa Petrovna sibilou amargamente:
— Você me tirou a lembrança do meu filho!Svetlana apenas balançou a cabeça.— Não fui eu.Você destruiu tudo.Você escolheu a guerra.E na guerra, não há vencedores.Apenas sobreviventes.Uma semana depois, Svetlana se mudou.
Novo trabalho em Moscou.Uma página em branco.Ela levou apenas uma pequena foto de Andreï, em um medalhão.Não a lembrança da traição.Mas a prova de sete anos de amor verdadeiro……antes que a mãe de Andreï quisesse tudo para si.


