— Sviet, não estou a perceber — Ruslan parou no meio da cozinha, com um prato na mão, como se de repente tivesse esquecido para onde ia. — Vais mesmo sozinha?
Svetlana estava junto à janela a apertar o relógio. Lá fora, o março de Yaroslavl ia-se desfazendo lentamente: um limpa-neves empurrava a lama de neve com uma raiva surda para o passeio, e num banco à entrada do prédio uma mulher alimentava um gato vadio com ossos de frango cozido. Tudo era como sempre. Só ela não.
— Sim. Um bilhete. Sozinha.
Ruslan pousou o prato. No rosto dele surgiu aquela expressão bem conhecida: quando o mundo se recusa a obedecer ao que ele tinha planeado.
— Tu disseste que íamos juntos.
— Eu disse: se pagasses a tua parte. Não a minha. A tua parte. Tiveste três meses.
Um pequeno sorriso passou pelo rosto de Svetlana, mas não de calor.
— A minha parte… — Ruslan soltou uma risada amarga. — Até em casa falas como contabilista. Sabes que agora está tudo uma confusão.
— Com “agora” não está uma confusão — respondeu ela baixinho. — Comigo, isso é o estado normal.
O ar entre eles ficou tenso.
Ruslan aproximou-se, instintivamente estendeu a mão ao ombro dela — antes, esse gesto terminava todas as discussões. Agora Svetlana recuou um passo. Não de forma dramática. Apenas definitiva.
— Sviet, o que é isto? Eu sou o teu marido.
— Precisamente por isso é cansativo ter de explicar a um adulto as regras básicas da vida adulta.
O telemóvel vibrou: Liubov Anatolievna. Svetlana olhou e rejeitou a chamada.
E saiu. Em silêncio. Sem bater a porta.
Na fábrica de processamento de carne, Svetlana era contabilista principal. Lá tinham-lhe respeito — e medo também. Pensava em números, não em desculpas. Sabia quando tentavam inflacionar valores e quando uma decisão mentia sob o rótulo de “situação familiar”.
Em casa, durante muito tempo, não quis ver o mesmo.
Conheceu Ruslan no aniversário de um colega. Ela tinha trinta e dois, ele trinta e um. Ruslan era leve, atento, aparecia sempre “por acaso” ao lado dela — trazia um copo, fazia uma piada, levava café.
Seis meses depois já chamava “o nosso apartamento” à casa de Svetlana, com uma naturalidade como se sempre tivesse sido assim.
No início, essa naturalidade até parecia agradável.
Depois tornou-se rotina.
Contas esquecidas. Trabalhos adiados. “Agora é uma fase difícil.” E sempre uma nova ideia, um novo começo, uma nova explicação.
A família foi-se infiltrando entre eles. Primeiro “uma pequena ajuda”. Depois “até se resolver”. Por fim, tornou-se uma exigência.
Svetlana pagava. Primeiro por educação. Depois por hábito. No fim, por medo de ser egoísta.
À noite, a mesa estava posta.
Alho, carne assada, cuidado em excesso.
Ruslan estava sentado de camisa branca, como se estivessem a fingir uma celebração.
— Não deixes isto virar guerra — disse ele baixinho.
— Então vamos falar — respondeu Svetlana.
Ele serviu-lhe vinho. Um gesto raro. Tarde demais.
— Estás cansada — começou Ruslan. — Talvez eu tenha mesmo adiado demasiado o trabalho, mas… não quero ir para qualquer sítio. Não para um lugar humilhante.
Svetlana pousou lentamente o garfo.
— E eu tenho direito a viver num lugar humilhante?
Silêncio.
Depois ela falou — baixo, mas já sem retorno:
— Quando a tua irmã envia o número de conta sem perguntas. Quando a tua mãe fala do meu apartamento como se já fosse meio dela. Quando o teu pai diz que “pelo menos contigo não temos de nos preocupar”. E tu ficas calado. Isso estava tudo bem?
Ruslan desviou o prato.
— Tu também deste dinheiro. Ninguém te obrigou.
— É precisamente por isso que parei.
Levantou-se. Foi até à janela.
Lá fora já era noite.
Na mesa, colocou papéis.
Contas. Transferências. Listas. Nomes.
Ruslan passou os olhos.
— Tu estiveste a fazer isto sobre mim?
— Estava a fazer sobre mim. Para finalmente ver o que estava a acontecer.
— Como se eu fosse um fornecedor?
Svetlana sorriu.
— Os fornecedores pelo menos assinam contratos.
Ruslan bateu com o punho na mesa. O copo tremeu.
— Amanhã vais-te embora — disse Svetlana calmamente. — Eu também.
— Isto é a minha casa!
— Não. Este é o meu apartamento.
A frase foi simples. E final.
O telefone voltou a tocar. Liubov Anatolievna.
Svetlana colocou em altifalante.
— Svietochka, a Tamara está à espera do dinheiro…
— Não vou enviar mais dinheiro. Nem a ela, nem a ninguém.
— Mas somos família!
— Estranhos pedem menos — disse Svetlana, e desligou.
Ruslan acabou por sair.
Não houve cena. Apenas movimentos, caixas, silêncio.
A porta fechou-se sem som.

Na Turquia, nos primeiros dias, Svetlana quase não falava.
Depois comprou um vestido que nunca compraria por ser “útil”.
No terceiro dia entregou o pedido de divórcio.
Quando voltou, a fechadura já era outra.
O pai esperava-a no aeroporto.
— Aguentas? — perguntou.
— Sim — disse Svetlana.
E pela primeira vez não soou como uma resposta. Mas como um estado.
Um mês depois viu Ruslan à porta de uma loja.
Trabalhava como estafeta.
Acenou. Sorriu.
Mas o sorriso não chegava a lado nenhum.
— Estou a trabalhar — disse ele. — Finalmente.
— Bom.
— Talvez se isto não tivesse acontecido…
Svetlana olhou para ele.
— Não me tornes responsável pelo que tu adiaste.
Silêncio.
— Mudaste — disse ele baixinho.
— Não — respondeu Svetlana. — Só que agora não vivo pela vida dos outros.
Um mês depois comprou um bilhete para Kazan.
Sozinha.
E, pela primeira vez, não precisou de explicar nada.


