«Chama a tua mãe do campo», zombou a sogra. Mas quando ela entrou na sala, nem todos riam mais.

— Róman, você também sabe que temos que chamar a sua mãe, certo? — Antónina Pavlovna nem olhou para Anna enquanto falava. Era como se a noiva nem estivesse ali.— Mãe, claro — Róman pegou o garfo e começou a mexer a salada.

— Mas seria melhor se pudéssemos prescindir disso. O que ela veria ali, no seu próprio Kinesmé? Sete dias sem água quente, certo? — provocou.Anna fechou o punho debaixo da mesa. Queria dizer algo, mas um nó apertava sua garganta.

— Desculpe, querida — finalmente se dirigiu a Anna Antónina Pavlovna. — Só quero organizar tudo direitinho. Sua mãe provavelmente é uma mulher simples. Táxi do aeroporto, hotel pago antecipadamente… Chegar dois dias antes para se acostumar. Tomar banho direito.

— Minha mãe toma banho todo dia — sussurrou Anna.— Eu sei, eu sei. Só que no interior, quem sabe… às vezes a água não é limpa. Aqui pelo menos ela se prepara bem para o grande dia.Róman ficou em silêncio.

Cortava o tomate em pedacinhos. Muito pequenos.— E vamos sentá-la separada. Na mesa dos parentes distantes. Tia Zina, tio Vova… São pessoas simples, vai ser mais confortável para ela. Não precisa ficar nervosa com os nossos convidados, certo?

— Antónina Pavlovna, minha mãe…— Silêncio, querida. Eu entendo tudo. Boa menina. Mas sejamos sinceras. Chame sua mãe do interior, e nós faremos de tudo para que ninguém perceba. É do seu interesse, não é?

Anna levantou-se da mesa. As pernas tremiam— Desculpe, preciso sair.Róman nem levantou o olhar.Lá fora, Anna imediatamente ligou para sua mãe.— Mãe, sou eu.— Ah, Ana, o que aconteceu?

— Nada. Só… a madrasta disse que você tem que ir ao casamento. Dois dias antes. Para… se preparar direitinho. Tudo dito literalmente na frente do Róman.Silêncio. Respiração profunda.— E ela… o que fez?

— Comeu salada.Uma longa e pesada pausa.— Está bem. Eu vou. Me manda o endereço.— Mãe, você realmente quer ir? Vai sentar na mesa distante. Todo mundo vai ver que você veio do interior. Todos… Eu me sinto envergonhada.

— Eu não me envergonho, querida. Vou. Depois veremos quem vai sentir vergonha.O casamento aconteceu em um clube no interior. Tendas brancas, caminhos de pedra, esculturas de gelo. Mais de cem convidados.

Anna mal conhecia alguém: amigos de Antónina Pavlovna, colegas de trabalho do marido, parceiros de negócios.Nadezda Stepanovna chegou uma hora antes do início. Anna esperava no estacionamento. Sua mãe vestia um terno cinza simples, sem joias. O rosto tranquilo. Quase frio.

— Mãe, você está bem? — perguntou Anna.— Sim. Me mostra essa “maravilha” — disse Nadezda calmamente.Antónina Pavlovna os recebeu com champanhe na mão, sorriso no rosto, mas olhar julgador.

— Ah, aqui está a convidada de Kinesmé! Como chegaram aqui? O avião deve ter sido uma grande experiência.— Tudo bem, obrigada pelo cuidado — respondeu Nadezda.— Então, vamos. Sua mesa é lá, na entrada técnica, infelizmente não havia outra.

Vocês ficarão com os parentes distantes, pessoas simples. Mais confortável.— Obrigada. Vou respirar um pouco — disse Nadezda.Anna segurou a mão da mãe.— Desculpe. Por tudo isso.— Por que pede desculpas, querida? Você não escolheu o lugar.

— Mas eu trouxe ela aqui. Concordei com este casamento.Nadezda Stepanovna olhou para Anna.— Ana, você ama o Róman?— Não sei… antes eu amava. Agora só estou cansada. Da mãe dele, do silêncio, do sentimento de culpa.

— Então por que está aqui?— Porque já contei a todos. Porque comprei o vestido. Porque os convidados já chegaram.— Isso não são razões. São desculpas.

O jantar começou às seis da tarde. Anna sentou-se ao lado de Róman na mesa principal. Ele sorria, erguia o copo, cumprimentava todos. Como se nada tivesse acontecido. Como se a mãe dele não tivesse humilhado a mãe dela na frente de todos.

Antónina Pavlovna levantou-se para pegar o microfone. O vestido brilhava, champanhe na mão.— Queridos convidados! Gostaria de dizer algumas palavras sobre a nossa noiva. Ana — uma boa moça. De bom coração. Enfermeira.

É verdade que sua família não é muito importante, mas vamos educá-la, certo, Róman?Risos em toda a sala. Alguns altos, alguns constrangidos.Róman sorriu. Assentiu. Ergueu o copo.Anna sentiu algo se quebrar dentro dela.

— E hoje está conosco a mãe da noiva. Nadezda Stepanovna! Onde você está, por favor? Na entrada técnica. Levante-se, por favor!Nadezda levantou-se. Lentamente. Rosto tranquilo.— Gostaria que todos olhassem para esta mulher.

Ela vive em Kinesmé. Trabalha, aposentada. Provavelmente vendo este nível pela primeira vez. Nadezda Stepanovna, você gosta daqui?Alguns começaram a rir. Os outros permaneceram em silêncio.

— Gosto muito — disse Nadezda. — Só gostaria de corrigir uma coisa.— O quê? — sorriu Antónina Pavlovna.— Você disse que eu sou aposentada. Não é verdade. Sou proprietária de uma fábrica têxtil. A maior da região.

Talvez tenham ouvido falar: “Fábrica Kinesmé”. Fornecemos tecidos para todos os órgãos públicos.O salão ficou em silêncio. Antónina Pavlovna piscou.— O quê?— Não sou aposentada. Sou empresária. Depois que meu marido se foi, recuperei a fábrica que havia falido.

Dediquei-me totalmente. Trabalhei dezesseis horas por dia durante três anos. Agora tenho trezentos empregados, contratos fechados para dois anos.Antónina Pavlovna recuou.— Mas… por que… por que você não disse?

— Porque não gosto de me gabar. Diferente da senhora. A senhora passou a noite toda falando de status, contatos e dinheiro. Eu só trabalho.Então Nadezda se virou para a filha:— Ana, faça as malas. Vamos embora.

Anna levantou-se. As mãos tremiam, mas levantou-se.— Ana, espere — Róman segurou sua mão. — Minha mãe só brincava. Não queria…— Me solte.— Mas… agora estamos casados… todos os convidados estão aqui… bolo, presentes…

— Me solte, Róman.Ele soltou. Olhou para ela, depois para a mãe, para o pai, e novamente para Anna.— Eu… não sei o que dizer.— Exatamente. Você nunca sabe. Seis meses você ficou em silêncio quando sua mãe magoou minha mãe.

Fiquei quieta quando ela disse que minha mãe era do interior. Hoje também ficou quieto quando ela fez circo. Sempre em silêncio, Róman.— Mas eu te amo!— Não. Você ama o silêncio. Que tudo fique calmo. E eu não aguento mais esse silêncio.

Três meses depois, Anna voltou ao hospital. Róman ligou, escreveu, pediu para que ela voltasse. Ela lia e apagava as mensagens.No quarto dia, ele apareceu pessoalmente. Anna saiu após o expediente:

— Não há nada para discutirmos, Róman.— Mas… nós… nos amávamos.— Sabe o que eu percebi? O amor não é quando vocês estão bem juntos. É quando está ruim, e mesmo assim você permanece. Quando você protege.

Você não fez nada. Nem uma vez. Isso não é amor. É comodidade.— Mas eu tinha medo de magoar minha mãe!— E quem me protegeu? Ninguém. E agora eu fui embora, porque dignidade vale mais que um casamento.

E ela riu. Pela primeira vez em três meses — de verdade, livremente. Porque percebeu: às vezes, o maior amor é quando alguém não deixa que você se afunde onde sua vida está se destruindo.

Visited 16 times, 1 visit(s) today
Scroll to Top