“Arrume suas coisas para amanhã. O apartamento agora é meu”, disse à esposa — mas uma grande decepção o aguardava.

— Lucy — a voz de Alexandre soou fria e decidida — arrume suas coisas para amanhã. O apartamento agora é meu.

Ele arregaçou as mangas da camisa azul, mas seus olhos permaneceram frios e impiedosamente calmos.— Antes do casamento, tudo já estava no meu nome. Esqueça as lágrimas e as cenas dramáticas.

Lucy estava parada diante da pia, observando a água fria bater no prato. Gotas caíam sobre seu avental, mas ela não se mexeu. Lentamente, fechou a torneira, secou as mãos com uma toalha xadrez e a pendurou cuidadosamente no gancho.

Só então olhou para o marido.— Tudo bem — disse com calma. — Amanhã eu não estarei mais aqui.

Alexandre esperava uma explosão: gritos, lágrimas, o drama de dezesseis anos de vida juntos, que para ele já não tinha valor algum. Mas Lucy estava ali, contida, silenciosa, quase impenetrável.

Pegou a esponja e continuou limpando a mesa, evitando tocar nas chaves.Dezesseis anos antes, tudo era diferente.Lucy tinha vinte e seis anos e trabalhava em uma pequena copiadora no porão de um prédio antigo.

O zumbido constante das impressoras se misturava ao cheiro de tinta fresca, e o lugar parecia sempre cheio de movimento.Numa noite de fevereiro, em meio a uma nevasca,

Alexandre entrou ali. Precisava imprimir com urgência uma grande pasta de projetos. Alto, com o rosto levemente vermelho por causa do frio, ele brincava enquanto a velha máquina processava lentamente as folhas.

— Você trabalha aqui a noite toda? — perguntou, entregando a ela os papéis ainda quentes.— Hoje sim — respondeu Lucy. — Preciso terminar cedo para levar minha mãe ao médico amanhã.

— Ela não está bem?— Está muito doente — disse Lucy em voz baixa. — Tem dificuldade para andar, e o braço direito quase não funciona.

Alexandre não foi embora. No dia seguinte, voltou com chá quente e um pão de queijo e se ofereceu para levar Lucy e sua mãe ao médico em seu carro velho. Ele parecia incrivelmente confiável: sensível, atencioso e, ao mesmo tempo, seguro de si.

— Fique com ele, minha filha — sussurrou a mãe. — Ele é um bom homem.O casamento foi simples, quase secreto. A mãe de Alexandre sentou-se ereta, observando tudo com desprezo: o linóleo gasto, as cadeiras antigas, os guardanapos baratos.

— Uma moça sem contatos, pobre como um falcão — murmurava ela. — Mas se isso é importante para Alexandre…Os pais de Alexandre deram ao casal um apartamento de três quartos, registrado oficialmente no nome do filho.

Lucy organizou a casa: lavou as janelas, costurou capas para o sofá, aprendeu a preparar as sobremesas favoritas de Alexandre. Logo nasceu a filha deles, Emma.

As noites se tornaram intermináveis: choro de bebê, fraldas molhadas, o carrinho sendo balançado, leite quente. Enquanto isso, Alexandre desenvolvia sua carreira, acreditando que sua contribuição para a família era pagar as contas e trabalhar.

Tudo mudou depois da morte da mãe de Lucy.Numa manhã enevoada de novembro, Lucy estava sentada ao lado da cama vazia, pressionando o rosto contra o suéter de lã da mãe. Não conseguia nem chorar. Dentro dela havia apenas um vazio profundo.

Na noite após o funeral, Alexandre tirou a gravata preta e a jogou sobre uma cadeira.— Finalmente acabou — disse com alívio. — Amanhã poderemos dormir em paz.

Lucy levantou os olhos. Não havia nenhum sinal de compaixão em Alexandre — apenas irritação e cansaço dos últimos anos.Os anos passaram. Emma cresceu e entrou no ensino médio. Lucy descobriu que estava grávida novamente.

— Você está brincando? — gritou Alexandre. — Tenho quarenta e três anos! Um filho agora? Preciso viajar a trabalho, trocar de carro! Decida você mesma. Eu não preciso disso!

— Eu vou ter o bebê — disse Lucy calmamente.Ilia nasceu tranquilo, mas Alexandre quase não lhe dava atenção. Em vez disso, cuidava de si mesmo: piscina, cabeleireiro, ternos caros… e o cheiro de perfume feminino no armário.

A verdade apareceu da forma mais simples. Uma velha amiga telefonou.— Lucy, não desligue. Eu vi Alexandre com uma jovem. Eles estavam de mãos dadas. Ela parecia muito jovem.

Lucy não fez escândalo. Ligou para Daniel — ex-investigador, agora detetive particular.Eles se encontraram em um café. Daniel colocou diante dela um envelope amarelo.

Dentro havia fotos: Alexandre e a jovem fazendo compras, se beijando, subindo as escadas de uma casa nova.— O que você vai fazer? — perguntou Daniel. — Se precisar ir ao tribunal, o material está pronto.

— Por enquanto, não precisamos de tribunal — respondeu Lucy. — Obrigada pelo seu trabalho.Dentro dela não havia raiva nem lágrimas. Apenas uma determinação fria e cristalina.

Algum tempo depois, quando Alexandre viajou para o sul — oficialmente para uma conferência, mas na verdade para ficar com a jovem — Lucy agiu.

Primeiro vendeu o quarto na residência estudantil. Depois vendeu o apartamento de três quartos. O preço ficou um pouco abaixo do mercado, mas a transação foi rápida e perfeita.

Transferiu o dinheiro para sua conta e comprou um espaçoso apartamento de dois quartos em seu próprio nome.Quando Alexandre voltou, bronzeado e satisfeito, não percebeu nada.

E então chegou aquela noite.— Amanhã eu não estarei mais aqui — repetiu Lucy calmamente.No dia seguinte, Alexandre chegou de carro. No banco de trás, sua mãe reclamava, verificando se Lucy não tinha levado a televisão.

No banco da frente estava a jovem amante.Eles subiram as escadas. Alexandre foi confiante até a porta e colocou a mão debaixo do tapete — vazio.

— Você esqueceu de deixar a chave, preguiçosa — murmurou, apertando a campainha.A porta se abriu.No limiar estava Daniel.— Bom dia — disse calmamente. — Quem o senhor procura?

Alexandre ficou sem palavras.— Quem é você?! O que está fazendo no meu apartamento?! Onde está Lucy?!— O senhor está enganado. Este não é mais o seu apartamento. Lucy não mora mais aqui.

— Como assim?! — gritou a mãe dele. — Eu dei este apartamento ao meu filho!— A polícia chegará em dez minutos. Mas antes, leia isto. O apartamento foi vendido. Estes são os novos proprietários.

Alexandre pegou o documento. Seu rosto empalideceu.— Eu… eu não li… pensei que fosse sobre a Emma…— Lucy pediu que eu lhe entregasse isto — disse Daniel.

Dentro havia um cheque — a parte que cabia a Alexandre após o pagamento das dívidas.— Como assim vendido?! Onde vamos morar agora?! — gritou a jovem.

— Espere… isso é fraude… — Alexandre tentou abraçá-la.— Advogados? Com que dinheiro? — respondeu ela friamente, indo embora.Em outro bairro da cidade, Lucy organizava as compras na cozinha de sua nova casa. Não havia luxo ali, mas havia calor e paz.

Ilia empurrava um caminhão de brinquedo pelo chão, Emma anunciava feliz que tinha passado no exame da universidade.Lucy colocou a chaleira no fogo.

Ela não sentiu uma alegria explosiva.Bastava saber que havia recuperado o que era seu, fechado a porta do passado e seguido em frente.A vida continuava.E nela ficaram apenas aqueles que sabiam valorizá-la.

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