Lena sempre achou que tinha nervos de aço. Dez anos no barulho da redação ensinaram-lhe: o toque do telefone não a assusta, fofocas não a abalam e sanduíches de estranhos não a fazem entrar em pânico. Mas um barulho de fundo é uma coisa,
e é totalmente diferente quando esse barulho chega à sua casa com uma mala e um olhar firme dizendo: “A partir de agora, vamos morar juntos.”À noite, Kirill aproximou-se aparentemente com cuidado, mas por trás de sua voz havia a determinação bem conhecida, um comando disfarçado de cortesia.
— Lena, você se importa se minha mãe ficar um pouco conosco? — disse suavemente, mas em seus olhos já estava o plano: data, hora e tudo mais.Lena levantou lentamente os olhos do laptop, ajeitou os óculos e colocou a xícara de forma que o gato imediatamente se enfiou debaixo do sofá.
— O que você quer dizer com “um pouco”? — perguntou calmamente. — Nós temos apenas um quarto. Eu trabalho aqui. Esta é a minha casa. Minha. Eu a comprei antes de você.— Ah, já começou… — Kirill fez uma careta. — É só temporário. Ela está sozinha, o irmão dela está bebendo de novo,
a pressão sobe e desce. Não somos animais, Lena. É minha mãe, afinal.Lena respirou fundo. Lembrou-se do que uma amiga lhe disse: se te tratam como um móvel, não se surpreenda se em breve começarem a pendurar roupas em você.
— Você perguntou quanto tempo significa “temporário”? Uma semana? Um mês? Até eu acabar na psiquiatria? — disse, indo para a cozinha e fazendo barulho com as colheres para esconder os olhos.— Não exagere — acompanhou Kirill. — Foi você quem disse que queria a família por perto.
— Minha família, Kirill. Não a comunidade do nosso prédio. Eu trabalho em casa. E sua mãe… desculpe, mas é uma mulher cuja voz se ouve até na rua.— Ora, toda mãe grita na frente da TV. Coloque fones de ouvido. É só isso.Lena se virou. Seus olhos estavam frios, a voz calma, mas pairava um silêncio tenso.
— Você alguma vez se perguntou se isso me é confortável? Tudo aqui — é meu. O apartamento é meu. O carro é meu. Os brincos da minha avó, que desapareceram depois do Ano Novo — meus. E agora você decide transformar meu espaço pessoal em lugar comum?
Kirill levantou os ombros.— Lena, minha mãe vai ficar apenas algumas semanas, vamos dar os remédios, ela vai melhorar, e depois vai embora. Se você quiser, podemos colocar isso por escrito.— O que eu quero é que você entenda: uma mulher estranha na minha cozinha não é “algumas semanas”.
São minhas roupas íntimas secando à vista dela. São meus documentos na gaveta, onde ela procura iodo.Kirill sentou-se no banquinho, olhando pela janela.— Você se endureceu. Está nervosa. Não te reconheço.Lena sorriu amargamente, em silêncio.
— Você nunca me conheceu. Para você, estava tudo bem quando tudo era “nosso”. Agora que disse “não”, me tornei estranha. Acabou a Lena confortável?Kirill levantou-se e pegou o casaco.— Minha mãe vai vir de qualquer jeito. Só para você não se surpreender. E não faça drama.
A porta bateu. Lena ficou entre as fotos — casamento, mar, inverno com guirlandas. Pegou um dos quadros, tirou a foto e rasgou exatamente na altura do nariz.No dia seguinte, Lídia Petrovna mudou-se como se sempre tivesse morado ali: duas malas, uma pilha de jornais, um sorriso.
— Lenacinha, você é uma verdadeira dona de casa! Exatamente como eu imaginava: rigorosa, mas justa. Não fique brava, trouxe meus chinelos — não gosto de andar nos dos outros.Não houve escândalo. Ainda não.Mas o gato novamente se escondeu debaixo do sofá, e Lena sentiu:

o ar mudou. Tudo ficou estranho.Os primeiros dias foram cheios de pequenos gestos, silenciosos: as contas aumentaram, dois pares de brincos desapareceram. Lena sorria com os dentes cerrados. É assim que funciona: primeiro “nosso lar”, depois “não é bagunça”,
e uma semana depois, suas coisas no lixo, e você ansioso no médico.Kirill chegava tarde, comia em silêncio, olhando para o telefone. Lena voltava devagar na segunda-feira, desejando cinco minutos de paz.O apartamento a recebeu com um silêncio estranho. Meias desconhecidas na janela e uma caixa: “Joias de Lena”.
— Kirill! — gritou. — Está em casa?Silêncio.— Lídia Petrovna?— Aqui! — respondeu uma voz do banheiro. — Só não venha, estou pintando o cabelo!Lena aproximou-se da caixa, como se até o ar pudesse trair. No fundo, um recibo de penhor: “Joias de prata — 18.000”.
O telefone tocou. Kirill.— Lena, oi. A chave está no gancho. Já levamos seu carro.Lena ficou em silêncio, com os olhos ardendo.— Kirill… — sua voz era calma, fria. — Você não quer colocar o apartamento no nome do seu irmão também?— Não exagere, Lena. É só temporário.
— Vou fazer drama quando descobrir quem vendeu meus brincos. Da minha bisavó.Uma hora depois, a cena se formou: Lídia Petrovna de lenço, Kirill com o telefone, Lena de chinelos.— Chega! — gritou Lena. — Vocês devoraram a minha vida!
— Você é louca! — gritava Lídia Petrovna. — Você tem mania de controle!— Quem. Ambos. Agora. — A voz metálica de Lena não admitia discussão.Eles saíram. Com barulho, gritando. Lena sentou-se no chão e chorou. Silenciosa. A geladeira zumbia diferente.
Segunda-feira, a chuva batia na janela. Lena fez café forte, jogando canela automaticamente. Lá fora, vida; dentro, calma.Dois meses se passaram. Às vezes sentia falta… não de Kirill, mas de si mesma: a antiga Lena, ingênua. Agora, porém, era diferente. Forte. Irada.
À noite, alguém tocou a campainha. Kirill, com uma rosa, sozinho.— Lena… Minha mãe não está aqui, meu irmão está na prisão… — pediu.Ela ficou em silêncio.— Sinto muito. Não posso. Vá.A porta se fechou. No apartamento, cheiro de tangerina e silêncio. Lá fora, vida; dentro… paz.


