A enfermeira completamente exausta entrou por engano no carro do xeque mais perigoso e adormeceu no banco de trás. Mas, poucos minutos depois, ouviu acidentalmente a ordem que o homem deu ao motorista em árabe. Permaneceu imóvel, tentando controlar as batidas descontroladas do coração. O que descobriu a seguir fez seu sangue gelar…
Leila saiu da clínica particular poucos minutos antes das onze da noite, atravessando a pesada porta de vidro. Lá fora, foi recebida pelo ar quente e seco da noite. Um céu escuro cobria a cidade, os postes de iluminação projetavam manchas douradas sobre o asfalto e, ao longe, ouvia-se o ruído constante do trânsito.
Mas, naquela noite, até mesmo aquele silêncio parecia alto demais para ela.
Leila passara o dia inteiro de pé. Pela manhã, uma colega adoecera inesperadamente, obrigando-a a assumir o trabalho de duas pessoas. Ora corria para atender a um exame urgente, ora verificava o soro de um paciente, ora auxiliava os médicos enquanto as portas dos corredores se abriam e fechavam sem parar.
Durante a tarde, ficara horas ao lado de uma senhora idosa que se recuperava de uma cirurgia complicada. A paciente gemia de dor repetidamente e apertava com força a mão de Leila sempre que o medo tomava conta dela.
— Não me deixe sozinha, minha filha — sussurrara a mulher certa vez.
Leila inclinara-se na sua direção, oferecendo-lhe um sorriso cansado.
— Não vou a lugar nenhum. Ficarei aqui consigo enquanto precisar de mim.
E, de fato, ficara.
Quando o seu turno finalmente deveria ter terminado, novos pacientes chegaram à clínica. Quando conseguiu concluir todas as tarefas urgentes, as pernas doíam como se tivesse passado o dia inteiro carregando pedras pesadas. As pálpebras estavam cada vez mais pesadas, as costas doíam e ela só tinha um desejo: chegar a casa, tomar um banho e dormir pelo menos algumas horas.
Nem sequer tivera forças para trocar de roupa. Ainda vestindo o uniforme branco de enfermeira, saiu do edifício, colocou a bolsa gasta sobre o ombro e pegou no telemóvel.
Chamou um táxi.
Alguns minutos depois, recebeu uma notificação no ecrã a informar que o motorista tinha chegado.
Leila levantou os olhos.
À entrada da clínica estavam estacionados vários carros de luxo pretos. A pintura brilhava sob a luz dos postes, como se os veículos tivessem acabado de ser polidos. A porta traseira de um deles estava aberta, e do interior vinha uma fraca luz azulada.
Leila olhou para o telemóvel, mas, devido ao cansaço, mal conseguia distinguir os números.
— Finalmente chegaste… — suspirou, aliviada.
Sem verificar a matrícula, caminhou até ao carro, inclinou-se e entrou.
No instante seguinte, encontrou-se sentada ao lado de um homem desconhecido.
Ele teria cerca de quarenta anos e parecia alto e forte, mesmo sentado. Vestia uma kandura branca como a neve, perfeitamente passada, e tinha sobre os ombros uma capa preta com bordados delicados. No dedo, brilhava um enorme anel de ouro. No pulso, usava um relógio tão caro que Leila poderia viver durante vários anos com o dinheiro necessário para comprá-lo.
Os seus olhos escuros eram frios e atentos. O rosto permanecia praticamente imóvel, e a sua postura transmitia uma autoridade natural que não precisava de ser demonstrada com palavras ou gestos exagerados.
O homem virou lentamente a cabeça na direção dela.
Leila nem sequer reparou.
— Desculpe — murmurou, colocando a bolsa sobre o colo. — Preciso de ir para a Rua Al-Marin, número 82. Por favor, conduza depressa. Mal consigo manter-me de pé.
No banco da frente, o motorista ficou paralisado. Apertou o volante com mais força e olhou incrédulo pelo espelho retrovisor.
Por um instante, o olhar do homem sentado ao lado de Leila tornou-se mais duro.
Ela não percebeu nada.
— Na noite passada, quase não dormi — acrescentou, encostando a cabeça ao apoio do banco. — Quando chegarmos, por favor, acorde-me.
O homem não respondeu.
Leila ainda tentou manter os olhos abertos durante alguns segundos. Mas, por fim, o cansaço venceu-a. Os dedos afrouxaram em torno do telemóvel, a cabeça tombou para o lado e, pouco depois, a sua respiração tornou-se regular.
O motorista engoliu em seco, nervoso.
— Senhor… o que devo fazer? — perguntou baixinho.
O homem continuou a observar a jovem adormecida.
Chamava-se xeque Karim al-Hadid.
Era considerado um dos homens mais ricos e influentes do país. Possuía enormes empresas, participações na indústria petrolífera, hotéis luxuosos e vastas propriedades. O seu palácio, situado nos arredores da cidade, era protegido por muros altos e guardas armados. Até os convidados tinham de passar por rigorosos controlos de segurança antes de entrar nas suas propriedades.
Circulavam inúmeras histórias sobre Karim.
Alguns descreviam-no como um empresário implacável, que jamais perdoava uma traição. Outros afirmavam que conseguia silenciar uma sala de reuniões inteira com um único olhar. Mas havia algo que todos sabiam: os seus homens obedeciam-lhe sem questionar.
E ninguém, absolutamente ninguém, entrava no seu carro sem a sua autorização.
— A mulher confundiu claramente o nosso carro com um táxi — disse o motorista. — Devo dizer-lhe que tem de sair?
Karim baixou os olhos para o crachá preso ao peito da jovem.
Leila.
O uniforme branco estava ligeiramente amarrotado depois do longo turno. Sob a iluminação do interior, o seu rosto parecia pálido, e havia sombras escuras debaixo dos olhos. Uma pequena madeixa de cabelo escapara-se do penteado e repousava sobre a sua face.
Karim observou-a durante vários segundos.
— Não — respondeu finalmente.
O motorista olhou para ele, surpreendido.
— Senhor?
— Arranca.
O motorista hesitou, mas não se atreveu a fazer outra pergunta. Fechou as portas e saiu das instalações da clínica.
O carro preto deslizou silenciosamente pelas ruas noturnas. No centro da cidade, alguns restaurantes ainda estavam abertos, os últimos peões apressavam-se para chegar a casa e a luz fria refletia-se nas montras. Leila não se apercebia de nada. Dormia profundamente, sem imaginar que o veículo não a estava a levar para casa.
Alguns minutos depois, o motorista voltou a falar.
— Senhor, o que vamos fazer com ela? Não sabemos quem é realmente.
Karim virou lentamente a cabeça para a janela.
— Vamos descobrir em breve.
Em seguida, continuou a falar em árabe. A sua voz era baixa e tranquila. Não gritava nem ameaçava ninguém. E era precisamente essa calma que tornava as suas palavras tão assustadoras.
— Não vás para o endereço que ela indicou. Segue pela estrada do lado oriental.
Leila começou a despertar lentamente do sono profundo. O ruído monótono do motor passou para segundo plano, enquanto as vozes dos homens se tornavam cada vez mais nítidas.
No início, não percebeu por que razão estavam a falar árabe.
Depois, reconheceu a voz de Karim.
E, de repente, compreendeu cada palavra.
Leila aprendera árabe vários anos antes. Durante os estudos universitários, dedicara muito tempo ao domínio da língua. Mais tarde, também trabalhara com pacientes que falavam árabe. Era fluente, mas quase ninguém na clínica sabia disso.
E o xeque muito menos suspeitava.
Leila ficou imóvel. O coração batia-lhe tão violentamente que temeu que o homem pudesse ouvi-lo.
— Para onde devo levá-lo, senhor? — perguntou o motorista.
A resposta de Karim foi curta e decidida.
— Para a minha propriedade. Lá, ninguém a encontrará até de manhã.
Leila apertou o telemóvel com tanta força que os dedos começaram a doer.
Para a propriedade dele?
Por que razão um desconhecido queria levá-la consigo? Por que mentia sobre o destino? E por que falava dela como se ela não tivesse sequer o direito de decidir para onde queria ir?
A resposta à pergunta seguinte superou todos os seus receios anteriores.
— E se ela acordar, senhor? — perguntou o motorista.
Karim permaneceu em silêncio por alguns instantes antes de responder friamente:
— Diz-lhe que estamos a levá-la para o endereço que indicou. Quando perceber o que está a acontecer, já estará comigo.
O estômago de Leila contraiu-se.

A sua primeira vontade foi levantar-se imediatamente e abrir a porta. Mas receava que um movimento precipitado tornasse a situação ainda mais perigosa. Estava sozinha com dois homens dentro de um carro em movimento, ao lado de alguém cujo poder era tão grande que até aqueles que nunca o tinham conhecido falavam dele em voz baixa.
Precisava de esperar pelo momento certo.
O motorista permaneceu calado durante alguns segundos e, depois, perguntou cautelosamente:
— Posso perguntar por que razão quer levá-la para a sua propriedade?
Karim soltou uma pequena gargalhada. Não havia alegria na sua voz, apenas uma autoconfiança inquietante.
— Gosto dela. É jovem, bonita e, aparentemente, não há ninguém que cuide dela. Vai ficar comigo. Talvez se torne a minha quarta esposa.
Leila sentiu como se alguém lhe tivesse despejado água gelada pela nuca.
Para aquele homem, ela aparentemente não era uma pessoa com casa, trabalho, família e vontade própria. Era apenas uma desconhecida que ele acreditava poder levar consigo simplesmente porque tinha poder para o fazer.
Mas o medo começou lentamente a transformar-se em raiva.
Leila trabalhara arduamente durante toda a vida. Passara noites a estudar, preparara-se para os exames e escolhera a profissão de enfermeira porque queria ajudar outras pessoas. Não lutara tanto para acabar à mercê dos caprichos de um desconhecido.
Num único instante, tomou uma decisão.
Abriu os olhos.
— Pare o carro! — gritou, tão alto que o motorista se sobressaltou.
O homem travou imediatamente, enquanto Karim se virava bruscamente para ela.
Leila já não se importava com o tremor da sua voz.
— Deixe-me sair imediatamente!
Karim fixou o olhar no rosto dela.
— Percebeste o que eu disse? — perguntou em árabe.
— Cada palavra — respondeu Leila na mesma língua. — Também percebi que me quer enganar. E que me está a levar para um lugar onde nunca concordei em ir.
A expressão de Karim mudou. A surpresa desapareceu rapidamente, substituída por um olhar frio e calculista.
— Onde aprendeste árabe?
— Isso não lhe diz respeito! Não muda nada do que fez! O senhor não é o meu motorista de táxi. Eu não sou sua convidada e, muito menos, a sua futura esposa!
O motorista já não sabia o que fazer. Karim nunca tinha encontrado uma mulher desconhecida que ousasse falar-lhe daquela maneira, tão abertamente.
— Acalma-te, Leila — disse o xeque lentamente, em árabe. — Não precisas de fazer uma cena.
— Não me diga como devo comportar-me! Pare o carro!
Finalmente, o veículo encostou junto a uma estrada larga e bem iluminada. Nas proximidades, brilhava o letreiro de néon de uma loja aberta vinte e quatro horas por dia. No passeio, algumas pessoas conversavam em frente a um café.
Para Leila, aqueles desconhecidos eram a sua única oportunidade de alcançar um lugar seguro.
Abriu a porta de repente, saltou do carro e começou a correr. A bolsa batia-lhe contra a anca, os saltos dos sapatos ecoavam no asfalto e os pulmões ardiam com a respiração acelerada.
Só quando chegou à entrada da loja abrandou o passo.
O homem atrás do balcão olhou para ela, surpreendido.
— Menina, está tudo bem?
Leila olhou por cima do ombro. O luxuoso carro preto continuava parado à beira da estrada.
— Por favor… — pediu, com a voz trémula. — Posso usar o seu telefone? Preciso de chamar um táxi.
Sem dizer uma palavra, o homem entregou-lhe o aparelho.
Com os dedos a tremer, Leila ligou para o número de emergência. Depois, abriu a aplicação de mapas no seu próprio telemóvel para indicar a localização exata. Queria chegar a um lugar seguro a qualquer custo.
Entretanto, Karim permanecia imóvel no banco traseiro do carro.
O motorista observava-o pelo espelho retrovisor.
— Devo segui-la, senhor?

O xeque demorou muito tempo a responder. O rosto parecia novamente calmo, mas os dedos pousados sobre o joelho começaram a contrair-se lentamente.
— Não — respondeu finalmente.
Depois, pegou no telemóvel e ligou a alguém.
— Preciso de todas as informações sobre uma enfermeira chamada Leila que trabalha na clínica particular. Quero saber de onde vem, onde estudou e por que razão fala árabe tão perfeitamente.
Fez uma pausa de alguns segundos.
— E mais uma coisa — acrescentou em voz baixa. — Ninguém deve aproximar-se dela antes de eu descobrir quem ela realmente é.
A chamada terminou.
Karim olhou mais uma vez na direção da loja, onde Leila explicava aos polícias o que tinha acontecido.
No rosto do xeque surgiu algo que o motorista raramente via nele: verdadeira incerteza.
Porque Leila não se limitara a compreender árabe.
Quando Karim pronunciara o nome dela ao telefone, pouco antes, uma expressão fugaz atravessara o seu rosto, como se tivesse recordado alguma coisa que até ela própria temia.
Karim não conseguia compreender o significado daquele momento.
Leila ainda tremia. Acreditava que já tinha ultrapassado a pior parte daquela noite. Não fazia ideia de que o xeque queria descobrir a sua identidade não apenas porque ela ouvira a sua ordem secreta.
Karim tinha-se lembrado de um nome que ouvira muitos anos antes.
Um nome que conduzia a um antigo segredo de família.
E cuja revelação poderia colocar todo o seu império em perigo.


