— Anya, é apenas uma questão de impostos. Só tens de assinar onde está assinalado — disse o filho, enquanto levava a mãe de 78 anos ao notário. Mas sobre a mesa da cozinha havia um bolo, do qual alguém já tinha cortado uma única fatia.
Vlad apareceu na quarta-feira às sete e meia da noite. Não telefonou antes. Simplesmente tocou à campainha e colocou uma caixa sobre a mesa.
— Mãe, sei que gostas de bolo Praga.
Hanna Tarasovna limpou as mãos no avental e abriu a caixa.
O bolo estava quase inteiro.
Só faltava uma fatia.
Não tinha sido arrancada nem cortada às pressas. Alguém a tinha cortado cuidadosamente com uma faca, exatamente como se corta uma fatia para comer à mesa.
Da inscrição feita com creme, restavam apenas algumas palavras:
“…para o negócio!”
Hanna ficou alguns segundos em silêncio.
— Senta-te — disse por fim. — Vou fazer chá.
Vlad sentou-se no lugar de sempre. Nos últimos três anos, chegava sempre da mesma maneira: ainda de casaco, sentava-se apenas na ponta da mesa e colocava o telemóvel ao lado, com o ecrã virado para cima.
— Mãe, precisamos de pôr algumas coisas da casa em ordem. Aumentaram os impostos e tu terias de pagar com a tua reforma, mas eu tenho direito a algum tipo de benefício. Não é nada de mais. Apenas um documento. Já marquei para quinta-feira, às dez.
Hanna colocou o chá diante dele.
Usava a sua própria chávena, aquela com a asa lascada. A chávena intacta permanecia no armário dos convidados.
Vlad não era um convidado.
— Quinta-feira — repetiu a mulher.
— Para quê adiar? Somos família. Não precisamos de tratar disso com estranhos.
Bebeu o chá em três goles e foi embora.
O bolo ficou sobre a mesa.
Hanna permaneceu sentada ao lado dele durante muito tempo.
Lembrou-se de que, na primavera, Vlad tinha andado pela casa com uma fita métrica, medindo os quartos e anotando tudo no telemóvel. No verão, começou a trazer alimentos que a mãe nunca tinha pedido e saía levando consigo garrafas vazias.
Hanna tinha reparado em tudo.
Tal como, muitos anos antes, sabia exatamente quantos quilos de farinha, açúcar e arroz eram necessários para preparar 280 refeições.
Trabalhou durante 41 anos na cozinha de uma escola.
Durante 41 anos preencheu faturas, recibos, guias de entrega e documentos de receção.
E aprendera uma regra que nunca esquecera:
Quem tem muita pressa para conseguir uma assinatura geralmente tem um motivo.
Na quinta-feira, levantou-se às seis da manhã.
Passou a ferro a blusa que costumava usar nas cerimónias de final de ano da escola. Pegou na sua velha mala castanha e retirou do armário uma pasta antiga, revestida de oleado.
Na pasta, escrita com tinta branca, havia uma única palavra:
“REFEIÇÕES”.
Colocou-a na mala e saiu.
O escritório do notário ficava no segundo andar de um prédio, por cima de uma farmácia.
No corredor, uma mulher de casaco bege falava ao telefone.
— Seis mil. Sim. Hoje vão assinar. Estou aqui.
Quando viu Hanna, virou-se para a janela.
No gabinete do notário havia cheiro de papel e de impressora.
Olga Stepanovna, a notária, colocou duas folhas diante de Hanna.
Vlad estava sentado diretamente ao lado da mãe.
O joelho dele tocava no dela.
A esposa, Tânia, permanecia junto à porta. Olhava para o telemóvel, mas ao mesmo tempo observava a parede, o cofre e a secretária.
— Não há nenhuma tomada aqui? O meu telemóvel está quase sem bateria.
Ninguém respondeu.
Olga Stepanovna olhou para Hanna.
— Hanna Tarasovna, compreende exatamente que, com esta procuração, autoriza o seu filho a vender a sua casa e a receber o dinheiro obtido com a venda?
— Mãe — interrompeu Vlad imediatamente. — Isto são apenas formulações oficiais. É por causa dos impostos. Só tens de assinar aqui e aqui. É tudo.
Hanna abriu a mala.
Tirou os óculos, que guardava dentro de uma velha caixa de medicamentos.
Colocou-os.
Depois pegou na primeira folha.
— Vou ler.
— Mãe, não faças isso! Vamos ficar aqui quarenta minutos!
— Então serão quarenta minutos.
E começou a ler.
Devagar, linha por linha.
Exatamente como antigamente verificava as guias de entrega da escola.
O que tinha recebido. Quanto tinha recebido. Quem tinha entregue. Quem tinha assinado.
Vlad começou a ficar cada vez mais impaciente.
Olhou para o telemóvel.
Depois para o relógio.
E finalmente para o corredor, onde a mulher do casaco bege continuava à espera.
— Mãe, não podias ler um pouco mais depressa? Há outras pessoas à espera.
Hanna levantou os olhos.
— Quem está à espera, meu filho?
— Mãe, tu… enfim… passaste a vida a cozinhar, não a lidar com documentos.
A mulher terminou a página.
Pousou lentamente a folha sobre a mesa.
Depois olhou diretamente para o filho.
— Vlad. Diz-me uma coisa. Para onde me vais levar daqui?
O homem abriu a boca.
Mas não conseguiu dizer uma palavra.
Por fim, tentou rir.
— Para casa, mãe. Para onde haveria de te levar?
— Para casa — repetiu Hanna. — E a partir de primeiro de outubro?
O sorriso desapareceu do rosto de Vlad.
Hanna abriu a mala castanha.
Tirou a velha pasta com a palavra “REFEIÇÕES”.
E retirou de dentro dela apenas uma folha.
Não dez.
Não vinte.
Apenas uma.
— Olga Stepanovna — disse calmamente. — Pode verificar, por favor, em nome de quem está esta casa?
A notária pegou no documento.
Leu.
Depois virou-se para o computador.
Alguns cliques.
Silêncio.
— Vladislav Lvovich — disse finalmente. — A casa da Rua Sadovaya está registada, desde 27 de setembro de 2023, em nome de outra pessoa.
Vlad ficou pálido.
— De quem?
— Elizaveta Vladislavovna Gladun é a proprietária.
O homem ficou imóvel.
— Elizaveta…
— A sua filha — respondeu a notária.
Hanna fechou os olhos por um instante.
Vlad levantou-se de repente.

— Isto é uma falsificação! Mãe, alguém falsificou isto!
— O original está comigo — respondeu Hanna. — Uma cópia está com a Liza. E outra encontra-se arquivada aqui, no cartório.
Vlad começou a telefonar.
Ninguém atendeu.
— Eu teria dado tudo a ela! — disse finalmente.
Olga Stepanovna respondeu com tranquilidade:
— Não há uma única palavra sobre isso nesta procuração.
O silêncio tomou conta da sala.
Nesse momento, a mulher do casaco bege entrou.
— Então eu também gostaria de explicar o que aconteceu — disse.
Colocou sobre a mesa uma folha dobrada.
— Dei-lhe seis mil dólares de entrada.
Hanna olhou para Vlad.
O filho não levantou a cabeça.
— Ele disse que a mãe venderia a casa porque iria para um lar de idosos — explicou a mulher.
O coração de Hanna apertou-se.
Agora sabia.
Sabia para onde o filho queria mandá-la.
E também sabia por que alguém tinha cortado a primeira fatia do bolo.
Três anos antes, Vlad tinha levado até ela um homem que dizia ser especialista em telhados.
Mas o homem não examinou o telhado.
Andou pelos quartos com uma fita métrica.
Tirou fotografias.
Mediu as paredes.
Perguntou quando a casa tinha sido construída.
Na altura, Hanna não disse nada.
Mas no dia seguinte, a vizinha avisou-a:
— Hanna, aquele homem andou a perguntar quanto valem as casas daqui. E também perguntou que documentos são necessários quando o proprietário é idoso.
Naquela semana, Hanna foi até à cidade vizinha.
Foi com Liza.
Naquela época, a neta ainda estudava para ser pasteleira.
Hanna pagava o curso com a sua reforma.
No cartório, tinham duas opções.
Testamento.
Ou doação.
Hanna escolheu a segunda.
A casa passou a pertencer a Liza.
Pediu apenas uma condição:
que pudesse continuar a viver ali até ao fim da vida.
Ninguém poderia expulsá-la.
Ninguém poderia tirar-lhe a casa.
Durante três anos, nada aconteceu.
Depois, na primavera, Vlad começou a aparecer cada vez mais.
Com a fita métrica.
No verão, começou a perguntar pelos documentos da casa.
E, no outono, certo dia, Hanna ouviu o filho ao telefone:
— Reserve para primeiro de outubro. Quarto para duas pessoas. Ela não é exigente.
Hanna não disse nada.
Foi até à cozinha.
Encheu um copo de água.
E naquela noite telefonou para o lar de idosos.
— Hanna Tarasovna Gladun? Sim, temos a sua reserva. Primeiro de outubro. Quarto duplo. Seiscentos dólares por mês. O seu filho já pagou três meses adiantados.
A mulher desligou.
Agora compreendia tudo.
No cartório, porém, não gritou.
Não acusou o filho.
Apenas deixou que a verdade viesse à tona diante de todos.
Vlad levantou-se de repente.
— Mãe, eu recebi o dinheiro adiantado! Seis mil dólares! Em dinheiro! Tenho de devolvê-los dentro de duas semanas!
A mulher do casaco bege olhou para ele.
— Isso não é problema meu.

Tânia pegou então no telemóvel.
— Eu já escrevi à Liza.
Vlad virou-se para ela, atónito.
— O que fizeste?
— Contei-lhe tudo.
Depois colocou a mão sobre a de Hanna.
— Há três anos digo-lhe que devia falar consigo com sinceridade. Ele nunca o fez.
Hanna olhou demoradamente para a nora.
— Desculpa, Tânia.
— Pelo quê?
— Pensei que também querias a casa.
Os olhos de Tânia encheram-se de lágrimas.
— No seu lugar, eu também teria pensado isso.
Nesse momento, a porta abriu-se.
Liza estava ali.
Vestia a farda branca de pasteleira e ainda tinha farinha na roupa.
— Avó!
Correu até Hanna.
Depois olhou lentamente para o pai.
— Pai… fizeste isto de propósito hoje? Sabias que hoje abria a minha primeira oficina?
Vlad não respondeu.
Liza colocou-se ao lado da avó.
— A casa não está à venda.
Depois olhou para o pai.
— Nunca.
Hanna levantou-se.
Endireitou a blusa que usara nas cerimónias da escola.
— Ouve-me, meu filho. A casa é da Liza. Eu vou continuar a viver lá. E os seis mil dólares vais devolvê-los àquela mulher. Vende o teu carro, se for preciso.
Vlad baixou os olhos.
Hanna acrescentou:
— Podes visitar-me aos sábados.
Fez uma pequena pausa.
— Mas deixa a fita métrica em casa.
No dia primeiro de outubro, ligaram do lar de idosos.
— Quer confirmar a sua entrada?
— Dêem o quarto a quem realmente precisar dele — respondeu Hanna. — Eu tenho um forno.
Em novembro, Vlad vendeu o carro e devolveu o dinheiro à mulher.
Desde então, visita a mãe todos os sábados.
Reparou o portão.
Arranjou a cozinha de verão.
Limpou a chaminé.
Mas já não anda pela casa com uma fita métrica.
Tânia visita Hanna às sextas-feiras.
Leva-lhe medicamentos e doces.
A velha chávena com a asa lascada já não é usada por Hanna quando recebe visitas.
Ela oferece a chávena boa a Tânia.
Talvez aquela seja a forma que encontraram de fazer as pazes.
Liza abriu a sua própria pequena pastelaria.
E Hanna, aos 78 anos, encontrou um novo trabalho.
Todas as manhãs, prepara sessenta bolos para uma escola.
Usa a mesma receita com que alimentou crianças durante 41 anos.
Às nove da manhã, já desapareceram todos.
Por cima da pastelaria há uma placa simples:
“PASTELARIA”.
Não há nenhum apelido.
Não é necessário.
Toda a vizinhança sabe quem faz os bolos mais deliciosos.
A velha pasta com a palavra “REFEIÇÕES” continua guardada no armário.
Uma vez por mês, Hanna limpa-lhe o pó.
Já não porque tenha medo.
Apenas por hábito.
Num sábado de março, Liza colocou um bolo sobre a mesa.
Bolo Praga.
Com nozes, seguindo a receita da avó.
Desta vez, porém, não faltava nenhuma fatia.
No topo havia uma única palavra.
A inscrição estava inteira.
Liza pegou na faca.
— Posso cortar?
Hanna sorriu.
— Corta.
E Liza colocou a primeira fatia no prato da avó.


