— Eu vou embora com uma mulher mais jovem! — anunciou Vitali Petrovitch, de sessenta e cinco anos, enquanto tentava enfiar na mala uma manta xadrez que parecia estar resistindo à mudança.
Ele pronunciou aquelas palavras como se estivesse anunciando uma viagem a Marte ou a descoberta de um novo continente.
Alto, dramático e com tanta emoção que parecia esperar uma explosão a qualquer momento.
Mas a explosão não aconteceu.
Galina Sergeievna, sua esposa havia trinta e oito anos, estava tranquilamente na cozinha, descascando batatas.
— Ah, é? — foi tudo o que ela respondeu.
Vitali parou.
— O que significa esse “ah, é?”
— Nada. Você colocou roupa íntima quente na mala?
— Não preciso de roupa íntima quente!
— Estamos em novembro.
— Eu não estou indo para o Polo Norte, Galina!
Ela deu de ombros.
— Como quiser. Pelo menos colocou meias?
Vitali abriu a boca, mas tornou a fechá-la.
Meias.
Ele realmente não tinha pensado nisso.
— Compro novas, resmungou.
— E os seus remédios?
— Eu me viro.
— Os comprimidos da pressão também?
— Eu já disse que me viro!
Galina colocou as batatas na panela.
— Está bem.
Então acrescentou calmamente:
— Já que vai embora, pode levar o lixo para fora?
Vitali ficou olhando para ela, incrédulo.
Aquela não era nem de longe a reação que ele havia imaginado.
Ele esperava lágrimas.
Talvez uma discussão.
Talvez que ela segurasse seu braço e perguntasse como ele podia fazer aquilo depois de tantos anos juntos.
Mas Galina estava preocupada com o lixo.
— Eu estou indo embora com uma mulher jovem! — repetiu ele.
— Eu ouvi da primeira vez.
— Ela tem vinte e oito anos!
— Parabéns.
— Galina!
— O quê?
Vitali não sabia mais o que dizer.
Então pegou a mala e foi em direção à porta.
Ou, pelo menos, tentou.
A manta xadrez ficou metade para fora e ameaçava cair.
— Vou levar isto também — disse Vitali.
Galina olhou para a manta.
— Isso não é uma manta.
— Então o que é?
— Meu velho casaco de pele. Você deveria tê-lo levado à lavanderia.
Vitali olhou para baixo.
Era verdade. Por baixo da manta aparecia uma parte do velho casaco de pele.
— Ah…
Ele fechou a mala como pôde.
— Então vou levar isso também.
— Leve.
Vitali pegou a mala e saiu de casa.
Enquanto descia as escadas, sentia-se quase vinte anos mais jovem.
Uma nova vida.
Uma mulher jovem.
Romance.
Liberdade.
Aventura.
Pelo menos era nisso que ele queria acreditar.
—
Uma hora depois, estava parado no ponto de ônibus.
A chuva caía fria e insistente.
Seu telefone vibrou.
Era uma mensagem de Eleonora.
“Amor, estou com um problema.”
Vitali sorriu.
Digitou:
“O que aconteceu?”
A resposta veio quase imediatamente.
“Minha mãe precisa de remédios. Preciso de 5 mil rublos.”
O sorriso desapareceu.
Vitali abriu o aplicativo do banco.
4.800 rublos.
A aposentadoria só cairia dali a uma semana.
Ele escreveu:
“Só tenho 4.800.”
Eleonora respondeu:
“Mas você pode dar um jeito, não pode?”
“Não sei como.”
“Se você me ama, vai encontrar uma solução.”
Depois veio outra mensagem:
“Eu não preciso de um homem que não consegue resolver um problema tão simples.”
Vitali ficou olhando para a tela.
Então guardou o telefone no bolso.
Começou a se lembrar de todas as vezes que ela havia pedido dinheiro.

Primeiro, para um táxi.
Depois, para a internet.
Depois, para um tal “curso de inspiração”.
E agora, para os remédios da mãe.
De repente, tudo pareceu muito estranho.
Ele nunca tinha feito uma chamada de vídeo com Eleonora.
Nem uma única vez.
Sempre que sugeria, ela tinha uma desculpa.
A câmera não funcionava.
A internet estava ruim.
O telefone estava com problemas.
Ela estava cansada.
Não podia naquele momento.
Vitali começou a pensar.
E se…
Ele engoliu em seco.
E se aquela mulher não fosse nada daquilo que ele imaginava?
E se as fotos fossem antigas?
E se tudo fosse mentira?
E, principalmente…
E se ela estivesse interessada apenas no dinheiro dele?
A chuva ficou mais forte.
Vitali enfiou as mãos nos bolsos e ficou olhando para a rua.
E, de repente, pensou em Galina.
Em como ela perguntava todas as manhãs se ele tinha dormido bem.
Em como sabia exatamente onde estavam os comprimidos da pressão.
Em como passava pomada em suas costas quando doíam.
Em como preparava almôndegas cozidas no vapor quando seu fígado estava ruim.
Em como encontrava suas meias mais rápido do que ele conseguia encontrar os próprios óculos.
Lembrou-se de uma vez em que suas costas doíam tanto que ele mal conseguia se levantar.
Galina não havia feito nenhum discurso.
Simplesmente pegou a pomada, sentou-se atrás dele e começou a massagear suas costas.
— Vai passar — dissera ela.
Vitali olhou para a rua molhada.
E, de repente, uma pergunta incômoda surgiu em sua cabeça.
Se suas costas doessem na casa de Eleonora…
Ela buscaria a pomada?
Saberia onde estavam os remédios?
Ou sequer perceberia que ele estava sofrendo?
Ele se imaginou sentado em um apartamento desconhecido, com dor nas costas, sem meias, sem remédios e com uma mulher jovem esperando pela próxima transferência de dinheiro.
Vitali suspirou.
O ônibus chegou.
As portas se abriram.
Vitali deu um passo à frente.
Depois parou.
Olhou para o ônibus.
Depois para o telefone.
Depois para a mala.
— Não… — murmurou.
Ele não entrou.
Virou-se e começou a caminhar de volta para casa.
—
É claro que o elevador não funcionava.
Vitali carregou a mala escada acima até o terceiro andar.
Quando chegou à porta, estava sem fôlego.
De repente, sentiu medo.
E se Galina tivesse ido embora?
E se tivesse trocado a fechadura?
E se não quisesse mais deixá-lo entrar?
Ficou alguns segundos parado diante da porta.
Então apertou a campainha.
A porta se abriu.
Galina estava ali, usando seu robe.
Olhou para Vitali.
Depois para a mala.
— Você levou o lixo para fora?
Vitali abaixou a cabeça.
— Eu… esqueci.
Galina suspirou.
— É claro.
Abriu a porta completamente.
— Entre, Romeu. O chá vai esfriar. Vá lavar as mãos.
Vitali ficou parado por alguns segundos.
Então alguma coisa dentro dele se rompeu.
As lágrimas vieram.
Não eram lágrimas discretas e dignas.
Ele chorou como uma criança.
De vergonha.
De alívio.
De gratidão.
Tudo ao mesmo tempo.
Galina não disse nada.
Apenas esperou.
Na cozinha, sua caneca favorita estava sobre a mesa.
Ao lado, havia um prato com almôndegas cozidas no vapor.
As favoritas dele.
Vitali sentou-se.
— Galina…
— Primeiro coma.
— Preciso dizer uma coisa.
— Coma enquanto está quente.
Ele deu uma mordida.
E começou a chorar novamente.
— Eu sou um idiota.
— Isso eu já sabia há muito tempo.
Vitali riu entre as lágrimas.
— Eleonora não era nada do que eu imaginava.
— É mesmo?
— Ela fuma.

Galina levantou uma sobrancelha.
— Que mulher terrível.
— E vive falando palavrão.
— Horrível.
— E só quer dinheiro.
Galina assentiu solenemente.
— Bem, você, como um cavalheiro tão refinado, naturalmente não poderia suportar uma coisa dessas.
Vitali começou a rir.
Depois de algum tempo, levantou-se.
— Eu sinto muito, de verdade.
Galina olhou para ele.
— Eu sei.
— Como você sabia que eu voltaria?
Ela não respondeu imediatamente.
Então apontou para a mala.
— Por causa disso.
— Por causa da mala?
— Você não levou roupa íntima.
Vitali ficou surpreso.
— O quê?
— Nem meias.
Ele olhou para a mala.
— E deixou os remédios na prateleira.
Vitali ficou em silêncio.
Galina continuou:
— Você só levou aquela manta.
Vitali assentiu.
— E meu velho casaco de pele.
— Que você deveria ter levado à lavanderia.
Durante alguns segundos, houve silêncio.
Então os dois começaram a rir.
Tão alto que provavelmente o vizinho também ouviu.
Galina balançou a cabeça.
— Seu velho tolo.
Vitali segurou a mão dela.
Era áspera e quente.
— Obrigado por abrir a porta.
— E onde mais eu colocaria você?
—
Na manhã seguinte, começaram a conversar sobre ir para a casa de campo.
— Podemos fazer um churrasco — sugeriu Vitali.
— Em novembro?
— Por que não?
— Ainda precisamos tirar os potes da despensa.
— Só se vive uma vez.
Galina olhou para ele desconfiada.
— O que aconteceu com você?
Vitali sorriu.
— Que se dane o fígado. Só se vive uma vez.
Galina riu.
Vitali beijou sua mão.
Então o telefone vibrou.
Uma nova mensagem de Eleonora:
“ONDE VOCÊ ESTÁ??? MINHA MÃE ESTÁ MORRENDO!! MANDE PELO MENOS MIL!”
Vitali olhou para a tela.
Depois bloqueou o número.
E apagou toda a conversa.
— O que você está fazendo? — perguntou Galina.
— Nada.
— Ótimo.
Vitali se levantou.
— Eu mesmo vou temperar a carne.
Galina olhou para ele.
— Você?
— Eu.
— Depois de dez anos?
— Algum dia eu tinha que começar.
Ela sorriu.
Vitali ficou alguns segundos olhando para ela.
Então disse:
— Galina… eu te amo.
Ela respondeu sem sequer levantar os olhos:
— Coma.
Lá fora, a tempestade de novembro castigava as ruas.
Mas dentro da cozinha estava quente.
E Vitali finalmente compreendeu algo que havia levado sessenta e cinco anos para perceber.
Não é possível comprar de volta a juventude.
E o amor nem sempre se parece com rosas, jantares em restaurantes ou grandes declarações.
Às vezes, o amor é uma mulher de robe perguntando se você levou o lixo para fora.
Às vezes, é um prato de almôndegas quentinhas.
Às vezes, é uma mão passando pomada nas suas costas doloridas.
E, às vezes, o amor é simplesmente alguém que abre a porta quando você se perde.
Vitali achava que estava abandonando sua velha vida para encontrar algo novo.
Mas, quando ficou diante de Galina, finalmente entendeu a verdade.
Ele já tinha tudo aquilo que havia procurado durante tantos anos.
Uma vida construída a dois.
Trinta e oito anos de lembranças.
Um lar.
E uma mulher que ainda sabia exatamente onde estavam seus comprimidos para a pressão.
E aquilo, ele percebeu, valia muito mais do que toda a juventude do mundo.


