— Nós somos uma família, Alina. Volta, eu vou perdoar o seu ataque de histeria.

Meu marido comprou apenas uma passagem para as nossas férias juntos — e então percebeu que a “dona de casa” não estaria mais esperando por ele em casa

— Você comprou apenas uma passagem? — A voz de Alina soou tão calma, como se ela estivesse apenas perguntando quanto custava um quilo de pão. Mas, naquele momento, eles não estavam falando sobre o preço de uma passagem de avião. Estavam falando sobre o destino da família.

— Claro. Quantas eu deveria ter comprado? — Roman nem tirou os olhos do monitor. Na tela, um mar azul-turquesa brilhava na página de reservas de um hotel de luxo. — Está claramente escrito: “Single, all inclusive”.

Alina ficou olhando para o marido por alguns segundos.

— Nós tínhamos combinado de ir para a casa da sua mãe, no interior. Todos nós. Eu, você, Misha e Polina. Você concordou. Disse: “Ótima ideia”.

Roman finalmente girou a cadeira na direção dela.

— Alina, que interior? Trabalhei a temporada inteira. Você sabe o que é operar drones agrícolas em um calor de trinta graus? À noite, parece que meus olhos vão saltar das órbitas. Eu preciso de férias. De uma renovação completa. Sem mosquitos, horta e — desculpe — sem crianças gritando.

Alina apertou Polina, de dois anos, mais perto do peito enquanto a menina se mexia em seus braços.

— E eu?

Roman arregalou os olhos, sinceramente surpreso.

— Você? Querida, você fica em casa o dia inteiro. Está de licença-maternidade. O seu dia inteiro é praticamente descanso. Você dorme, come, passeia com o bebê no carrinho… Sinceramente, não entendo do que você pode estar cansada. Das séries?

Alina ficou imóvel.

O que mais doía não era o que Roman havia dito.

Era o fato de ele realmente acreditar naquilo.

De repente, ela se lembrou de cada noite dos últimos três anos. As cólicas de Misha. A gravidez. O nascimento de Polina. Mais noites sem dormir. Roupa para lavar, comida para preparar, casa para limpar, médicos, compras, fraldas, choro, colocar as crianças para dormir — e depois tudo começava novamente.

E quando finalmente todos adormeciam, Alina muitas vezes pegava seus pedaços de mosaico. À noite, trabalhava com pequenos pedaços de vidro no banheiro para não perder completamente suas habilidades profissionais. Às vezes, aceitava pequenas encomendas para ganhar algum dinheiro.

Roman, por outro lado, achava que ela simplesmente “ficava em casa”.

— Está bem — disse Alina finalmente, em voz baixa. — Vá por uma semana. Nós vamos ficar bem. Quando você voltar, cuide das crianças e eu vou para a casa da minha mãe por cinco dias. Só quero dormir. Cinco dias.

Roman riu.

— Ah, não começa. Quem vai ficar com as crianças? Eu? Tenho que trabalhar. Preciso me recuperar depois das férias para estar pronto para a nova temporada. Pronto. Fim da discussão. Eu mereço isso.

Alina não respondeu.

Durante a semana seguinte, ela se movimentou pela casa como um robô.

Cozinhou. Lavou roupa. Preparou as coisas de Roman. Separou suas bermudas, protetor solar e sandálias. Cuidou de tudo.

Roman, enquanto isso, se preparava alegremente para a viagem, assobiando.

Experimentou uma bermuda nova. Falou sobre o protetor solar. Comentou sobre como seria o mar.

Nem uma única vez perguntou como Alina conseguiria cuidar sozinha de duas crianças pequenas.

Na manhã da partida, Roman pegou a mala.

— Bom, não fiquem entediados! Talvez eu ligue se tiver sinal.

A porta se fechou.

Alina ficou parada no corredor por vários segundos.

Polina começou a chorar.

Misha puxou sua calça.

— Mamãe, uma história!

Alina fechou os olhos.

— Está tudo bem — sussurrou. — Está tudo maravilhosamente bem.

Naquela noite, sua mãe, Valentina Semyonovna, chegou.

Ela não fez nenhuma pergunta.

Um único olhar foi suficiente.

Ela viu o rosto da filha, as olheiras e os brinquedos das crianças espalhados pela casa.

— Ele foi embora? — perguntou enquanto servia o chá.

— Foi. Para “se recuperar”.

A mãe assentiu.

— E você, é claro, é feita de ferro.

Alina deu um sorriso amargo.

— Mãe…

— Nada de “mãe”. Tirei alguns dias de folga. Estarei aqui às oito da manhã todos os dias. Vou ajudar você.

Enquanto isso, Roman vivia a vida dos seus sonhos nas redes sociais.

Lagosta.

Coquetéis.

Piscina.

Festa da espuma.

E, ao fundo, silhuetas femininas bronzeadas.

Roman sorria em todas as fotos.

Parecia feliz.

Mais do que isso, parecia quase provocativamente feliz sem eles.

No quinto dia, Alina pegou seu grande caderno preto.

E começou a escrever.

Não as despesas.

As palavras de Roman.

“Você fica em casa o dia inteiro.”

“Do que você está cansada?”

“Eu mereço isso.”

Alina anotou cada frase.

Depois fechou o caderno.

Algo havia mudado dentro dela.

Ela não queria mais se justificar.

Dez dias depois, Roman voltou para casa.

Bronzeado, bem-humorado e cheirando fortemente a álcool caro.

— Olá, pessoal! Que caras são essas? — gritou enquanto jogava a mala no meio da sala. — Tem alguma coisa para comer? A comida do avião estava horrível.

Alina estava sentada no sofá, dobrando roupas.

Nem levantou os olhos.

— Tem sopa na geladeira.

— Que sopa?

— Sopa para as crianças. Sem sal.

Roman ergueu as sobrancelhas.

— E para mim?

— Não tem para você.

— O quê?

Alina olhou lentamente para ele.

— Passei dez dias tentando sobreviver. Misha estava com trinta e nove graus de febre. Polina passou a noite inteira sofrendo com os dentes. Eu não dormi. Mal comi. Não consegui nem tomar um banho em paz. Não tive sequer uma hora para mim.

Roman suspirou.

— Ah, não. Você vai começar de novo.

— Você disse que eu estava descansando.

— Bom, sim. Porque você está em casa.

Algo mudou no olhar de Alina.

— Amanhã vamos ao parque aquático — anunciou Roman. — Pelo menos você poderá relaxar.

Alina riu.

Não foi uma risada alegre.

— Ao parque aquático? Para eu correr atrás de duas crianças em um chão escorregadio enquanto você fica sentado na jacuzzi?

— Você ficou completamente louca?

Roman se levantou.

— Eu trabalho! Sou eu quem traz o dinheiro para casa! Tenho direito de descansar!

— E eu não?

— Você não seria ninguém sem mim!

Depois dessas palavras, o silêncio tomou conta da sala.

Mas Roman continuou.

— O apartamento, o dinheiro, tudo é meu. Você simplesmente vive às minhas custas.

Alina levantou-se lentamente.

Durante três anos, ela havia recuado em situações como aquela.

Mas não daquela vez.

— O que você disse?

— Você ouviu. Sem mim, você é uma nulidade.

A mão de Alina parou no meio do movimento.

Então ela deixou as roupas de lado.

— Há três anos sou eu quem mantém esta família unida — disse ela. — Fui eu quem criou seus filhos. Mantive a casa em ordem. Passei noites em claro. Abandonei minha carreira. E, quando todos dormiam, eu ainda trabalhava para não perder completamente quem eu era.

Roman fez um gesto de desprezo.

— Drama.

Foi naquele momento que Alina entendeu.

Ela já não via um marido diante dela.

Via um homem que considerava normal ter sempre alguém para servi-lo.

— Acabou — disse ela.

— O quê?

— Eu cansei.

Roman sorriu com desprezo.

— E para onde você vai?

Alina subiu para o quarto das crianças.

Arrumou as malas.

Não de forma organizada.

Não cuidadosamente.

Apenas rapidamente.

Misha e Polina observavam em silêncio.

— Vamos para a casa da vovó — disse Alina. — Lá tem um bolo delicioso esperando por nós.

Roman gritou atrás dela:

— Vá! Ninguém vai querer você com duas crianças!

Alina não se virou.

O apartamento de Valentina Semyonovna recebeu os três com silêncio e o cheiro de bolo recém-assado.

— Não me pergunte nada, mãe.

— Não vou perguntar.

Sua mãe pegou Polina no colo.

— A banheira está cheia. Vá. Durma.

Durante dois dias, Alina praticamente não fez nada além de descansar.

E algo estranho aconteceu.

O mundo não desabou.

Pelo contrário.

Era como se tudo finalmente tivesse ficado claro.

Ela não precisava mais agradar ninguém.

Não precisava mais ter medo da próxima crítica.

Não precisava mais servir um homem adulto que se chamava de chefe da família enquanto se comportava como uma criança mimada.

No terceiro dia, Roman começou a ligar.

Primeiro, ameaçou.

“Vou bloquear seus cartões!”

“Vou me divorciar de você!”

“Vou tirar as crianças de você!”

Depois começou a reclamar.

“Onde estão minhas meias azuis?”

“Não tem comida em casa.”

Finalmente veio a frase conhecida:

“Nós somos uma família, Alina. Volte. Eu vou perdoar essa sua crise de histeria.”

Alina leu a mensagem.

Depois deixou o celular de lado.

E pegou seus pedaços de mosaico.

Entre os fragmentos de vidro colorido, ela de repente enxergou a própria vida.

Ela havia se despedaçado.

Mas ainda podia ser reconstruída.

Só que, desta vez, seria ela quem escolheria o desenho.

Uma semana depois, alguém tocou a campainha.

Era Yelena Petrovna, mãe de Roman.

Ela era uma mulher severa. Durante toda a vida, havia criado cacatuas raras e não tolerava desordem nem conversa fiada.

— Quero conversar com você — disse ela.

Alina a deixou entrar.

— Conte. Mas apenas os fatos.

Alina contou tudo.

As férias.

A passagem única.

A frase “você fica em casa o dia inteiro”.

Os insultos.

A declaração “sem mim, você é uma nulidade”.

Yelena Petrovna ouviu tudo sem interromper.

Então fez apenas uma pergunta:

— Você tem fotos das férias?

Alina mostrou o celular.

Em uma das fotos, Roman ria entre duas mulheres de biquíni, com um charuto entre os lábios.

A expressão de Yelena Petrovna não mudou.

— Entendi.

Ela se levantou.

— Vá se vestir.

— Para onde vamos?

— Até ele.

— Eu não vou voltar.

— Não estou pedindo que você volte. Apenas venha comigo e vamos ver que tipo de homem eu criei.

Roman estava sentado em casa diante do computador.

O apartamento parecia ter passado por uma pequena guerra.

Caixas de pizza.

Louça suja.

Roupas espalhadas.

— Finalmente! — gritou quando ouviu a chave na porta. — Você voltou? Eu disse que você acabaria voltando. Estou com fome.

Então viu sua mãe.

Yelena Petrovna estava parada no meio da sala.

— Levante-se quando falar comigo.

Roman ficou pálido.

— Mãe…

— Você chama isso de família? Você viaja para se divertir enquanto sua esposa fica sozinha em casa com duas crianças pequenas?

— Essas fotos são falsas!

— Eu também vi seus extratos bancários.

Roman ficou em silêncio.

— Eu sei quanto você gastou. Sei onde você esteve. E também sei que você não deixou sequer um centavo para sua família.

— É o meu dinheiro!

— Não. É o dinheiro da sua família.

Roman lançou um olhar furioso para Alina.

— Você contou tudo para ela!

— Não foi preciso — respondeu Yelena Petrovna. — Seu próprio comportamento me contou tudo.

Roman deu um passo em direção a Alina.

— Você…

Mas Yelena Petrovna se colocou entre os dois.

— Nem mais um passo.

Roman parou.

— Mãe, este apartamento é meu.

Yelena Petrovna deu um sorriso amargo.

— Não, Roma. É justamente sobre isso que eu vim falar.

A expressão de Roman mudou.

— Você se lembra de quem lhe deu o capital inicial para comprar os drones agrícolas?

Silêncio.

— Lembra quem pagou a primeira parcela deste apartamento?

Roman não respondeu.

— E se lembra daquele contrato de doação que você assinou na época para conseguir condições tributárias mais favoráveis?

Roman ficou pálido.

— Mãe…

— Dentro de uma semana, você vai sair daqui.

— O quê?!

— O apartamento ficará para as crianças. Alina e os filhos vão ficar aqui.

— Você não pode fazer isso!

— Posso.

— Eu sou seu filho!

Uma expressão de dor apareceu nos olhos de Yelena Petrovna.

— Justamente por isso tenho vergonha de mim mesma.

Roman ficou parado.

— Não me arrependo de ter ajudado você — continuou a mãe. — Arrependo-me de ter acreditado que estava criando um homem adulto. Em vez disso, criei alguém que só se sente forte quando outra pessoa é mais fraca do que ele.

Roman ficou sem palavras.

E, pela primeira vez, Alina sentiu que não precisava mais se defender.

Um mês depois, Alina terminou sua primeira grande obra de mosaico.

Uma enorme fênix erguia-se das chamas.

Suas asas eram compostas por centenas de pequenos pedaços de vidro de cores diferentes.

A obra foi instalada no saguão de um novo centro empresarial.

Alina recebeu um bom pagamento por ela.

Roman, por sua vez, passou oficialmente a pagar pensão alimentícia pelos filhos. Yelena Petrovna garantiu que o filho não “esquecesse” nenhum pagamento.

Roman também aprendeu a cozinhar para si mesmo.

Entre outras coisas, aprendeu a fazer pelmeni.

Às vezes, a vida nos ensina de maneiras muito estranhas.

Naquela noite, Alina estava sentada em sua própria cozinha.

As crianças já dormiam.

O apartamento estava silencioso.

Mas aquele já não era o silêncio do abandono.

Era o silêncio da liberdade.

Alina serviu uma xícara de chá.

Depois olhou pela janela escura.

E sorriu.

Pela primeira vez em muitos anos, não sentia que havia perdido alguma coisa.

Sentia que finalmente havia recuperado a si mesma.

Um capítulo de sua vida havia terminado.

Mas, na página seguinte, era ela quem segurava a caneta.

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