Marina Sergeevna estava ajoelhada diante do armário da cozinha, segurando a porta solta com o ombro enquanto, com a outra mão, tentava no escuro alinhar a dobradiça com os dois pequenos furos para os parafusos.
A porta do armário estava presa por apenas um parafuso há dois anos.
Naquela época, Igor havia prometido que compraria novas peças de montagem no fim de semana.
Depois disse isso no fim de semana seguinte.
E no outro.
Até que simplesmente parou de perceber que a porta estava torta e não fechava direito.
— Pois continue pendurada aí… — murmurou Marina para a cozinha vazia. — Você nunca incomodou ninguém.
Mas agora, por algum motivo, ela não suportava mais vê-la daquele jeito.
Ela foi até a varanda e trouxe uma velha caixa de plástico onde, há trinta anos, guardava parafusos, buchas, pedaços de fios e chaves que ninguém mais sabia para que serviam. Espalhou parte do conteúdo sobre um jornal e procurou por quase vinte minutos.
Então encontrou.
O parafuso certo.
Com calma e paciência, começou a consertar a porta. Primeiro uma dobradiça, depois a outra. Ajustou, apertou e deu um passo para trás.
A porta estava reta.
Marina empurrou suavemente com o dedo.
Ela se fechou devagar.
Clique.
Pela primeira vez em dois anos.
Ela ficou sentada no chão por alguns minutos, olhando para aquela pequena porta do armário.
E, estranhamente, foi justamente aquilo que fez seus olhos se encherem de lágrimas.
Não o fato de seu marido ter ido embora seis semanas antes.
Não a traição.
Não a humilhação.
Aquela pequena porta.
Porque de repente Marina entendeu uma coisa.
Nunca foi apenas sobre o armário.
Era ela mesma que havia ficado pendurada por anos, esperando que alguém viesse consertar tudo.
O telefone tocou enquanto ela guardava os parafusos de volta na caixa.
Na tela apareceu um nome:
“Igor”.
Não “Igorinho”, como ela o chamara durante vinte e cinco anos.
Uma semana depois que ele foi embora, ela mudou o nome no celular.
Marina limpou as mãos no avental e atendeu apenas no quarto toque.
— Sim?
— Marina, oi.
A voz dele parecia estranha. Formal. Cuidadosa. Com aquela leveza forçada que as pessoas usam quando estão desconfortáveis.
— Como você está?
— Bem. O que você quer?
— Estou ligando por causa das minhas coisas. Você lembra? Ainda deixei algumas coisas aí. Meus ternos, minhas ferramentas… e a mala grande cinza. Aquela que está no alto do armário do depósito.
— Venha buscar.
— Posso ir no sábado. Por volta do meio-dia. Tudo bem para você?
— Tanto faz para mim. Venha ao meio-dia.
— Obrigado.
Uma pausa.
— Escuta… você não trocou as fechaduras, trocou?
Marina quase sorriu.
— Troquei.
— Ah. Sim. Claro. Está certo.
Ele respondeu rapidamente, como se a decisão dela ainda precisasse da aprovação dele.
— Então eu ligo quando chegar lá embaixo.
— Está bem.
Marina desligou primeiro.
Seis semanas antes, Igor havia arrumado sua bolsa de academia, aquela que usava para ir treinar, parado na porta e dito:
“Marina, eu não consigo mais mentir para você nem para mim mesmo. Nós dois sabemos que já faz tempo que vivemos como dois estranhos.”
Depois acrescentou, olhando para algum lugar além do ombro dela:
“Conheci alguém. Com ela, finalmente consigo respirar de novo.”
O nome dela era Alina.
Ela tinha vinte e dois anos.
Era estudante do quarto ano na mesma faculdade onde Igor Vitalievich dava aulas de economia regional havia vinte anos.
Marina não descobriu por ele.
Descobriu por Liuba, a vizinha do terceiro andar.
— Marina, não pense que estou fofocando — Liuba disse cuidadosamente ao telefone. — Só quero que você saiba por mim e não por outras pessoas. É uma estudante. Muito jovem. Dizem que ele alugou um apartamento para ela na rua Tchekistov. Eles estão morando lá.
— Obrigada, Liuba — Marina respondeu calmamente. — Ainda bem que você me contou.
Ela não chorou naquela noite.
Nem no dia seguinte.
As lágrimas só vieram duas semanas depois.
Curtas.
Amargas.
Quando ninguém podia vê-la.
Depois até isso passou.
E ficou apenas o silêncio.
Um silêncio estranho e pesado naquele apartamento onde agora ela começava a consertar as coisas sozinha.
Uma hora depois, sua filha Dasha ligou por vídeo.
— Mãe, você comeu?
— Sim — mentiu Marina.
— Eu vejo pelos seus olhos que não.
— Dasha, eu sou uma mulher adulta. Pare de se preocupar.
Então sorriu levemente.
— Seu pai ligou.
O rosto de Dasha mudou imediatamente.
— O que ele queria?
— Ele vem no sábado buscar as coisas dele.
— A mala? — disse Dasha com um sorriso amargo. — Que simbólico. Parece coisa de filme.
— Dasha…
— Mãe, estou falando sério. Não deixe ele conversar com você sozinha. Você sabe como ele é. Ele chega se sentindo culpado e acaba indo embora fazendo parecer que a culpa é sua.
Marina sorriu.
— Conheço seu pai há vinte e cinco anos. Consigo lidar com uma mala.
— Mãe… como você está de verdade?
Marina ficou em silêncio por um momento.
— Sabe o que é estranho? Eu achei que iria desmoronar. Achei que não conseguiria passar por isso.
Ela olhou para a porta do armário consertada.
— Mas eu consertei uma porta.
— Que porta?
— A do armário embaixo da pia.
— Aquela que papai prometeu consertar por dois anos?
— Essa mesma.
Marina riu baixinho.
— Descobri que ela precisava apenas de um parafuso e uma chave de fenda.
Dasha ficou em silêncio.
— Mãe… papai prometeu muitas coisas.
— Eu sei.
O sábado chegou.
Marina acordou cedo. Limpou a cozinha, embora quase não houvesse nada para limpar.
Tirou a grande mala cinza da prateleira e limpou a poeira.
Eles haviam comprado aquela mala anos atrás para uma viagem ao Montenegro.
Uma viagem que nunca fizeram.
Dobrou os ternos dele com cuidado.
Guardou as ferramentas em uma caixa separada.
Ela não queria vingança.
Não queria prender nada.
Nem as coisas dele.
Nem ele.
Às onze e meia, Alina chegou.
Estava pálida, mas decidida.
Marina preparou chá para ela.
Quase não conversaram.
Não havia mais nada a dizer.
Cinco minutos antes do meio-dia, o interfone tocou.
— É ele — disse Marina.
Alina ficou ainda mais pálida.
— Vá abrir.
— Eu?
— Sim.
— Por quê?
— Porque você não pode fugir do seu medo para sempre.
Com as mãos tremendo, Alina apertou o botão.
A porta de entrada abriu.
Alguns minutos depois, ouviram o elevador.
Os passos dele.
O som familiar das chaves.
Então silêncio.
Igor havia esquecido que a fechadura tinha sido trocada.
A porta abriu.
Alina estava diante dele.
Igor ficou imóvel.
O sorriso culpado que ele havia preparado desapareceu lentamente do rosto.
Porque naquele instante ele entendeu tudo.
As duas vidas que ele havia mantido cuidadosamente separadas finalmente se encontraram.
— Alina?
A voz dela tremia, mas ela não recuou.
— Oi, Igor. Eu estava esperando por você.
Então ele viu Marina parada na porta da cozinha.
— Marina… o que está acontecendo?
— Suas coisas estão prontas — respondeu ela calmamente. — E pelo visto vocês dois têm muito o que conversar.
Igor entrou.
Mas não como um homem voltando para casa.
Como um estranho entrando na casa de outra pessoa.
Porque era exatamente isso que ele havia se tornado.
Quando finalmente levou sua mala, sua caixa de ferramentas e suas últimas coisas, parou na porta.
— Marina… me perdoa.
Ela olhou para ele por um longo momento.
E percebeu algo estranho.

Não estava mais com raiva.
Estava apenas cansada.
— Vá, Igor.
Ele puxou a mala em direção ao elevador.
As rodinhas bateram suavemente no degrau da porta.
Marina fechou a porta.
Não com raiva.
Não por vingança.
Apenas definitivamente.
Ela voltou para a cozinha.
Colocou água para ferver.
Sentou-se à sua própria mesa.
No seu próprio apartamento.
Na sua própria vida.
Seu olhar caiu sobre a porta do armário.
Ela estendeu a mão e a empurrou.
Ela fechou suavemente.
Perfeitamente.
Um pequeno clique.
Exatamente como deveria.
Marina sorriu.
À noite, Dasha ligou.
— E então? — perguntou a filha imediatamente. — Ele levou a mala?
— Levou.
— Teve cena?
Marina olhou pela janela.
— Teve. Mas não a que você imaginava.
Ela sorriu.
— Agora me conte sobre esse Kostya.
— Mãe!
Marina riu.
— O quê? Por que esperar? A vida é curta.
E ela ficou ali.
Na sua própria cozinha.
Na sua própria casa.
Onde nada mais estava torto.
Tudo finalmente estava no lugar.
Até ela mesma.


