Durante 3 anos, ela tomou comprimidos para dormir por causa da insônia. Um dia, abriu a porta: no tapete da entrada estava aquele que a curou em uma semana.

Durante três anos ela tomou comprimidos para dormir. Um dia abriu a porta — e aquele que iria curá-la estava sentado no tapete

Quando voltei do meu turno da noite, ele estava lá.

Sentado bem em frente à minha porta.

Sujo. Ruivo. Com a orelha esquerda rasgada. E olhava para mim como se não tivesse chegado ali por acaso, mas como se soubesse exatamente onde deveria estar.

Como se tivesse marcado um encontro comigo.

Eu morava no primeiro andar de um prédio antigo. No inverno, o ar quente subia das grades da cave, e os canos do aquecimento passavam exatamente por baixo das minhas janelas. Os gatos da vizinhança conheciam aquele lugar quente melhor do que qualquer canalizador.

Mas aquele gato ruivo eu nunca tinha visto antes.

Talvez eu simplesmente nunca tivesse reparado nele.

Ou talvez ele só tivesse aparecido quando o frio de verdade chegou, quando até os animais abandonados tinham dificuldade para sobreviver na rua.

O meu nome é Svetlana. Tenho quarenta e três anos e trabalho como enfermeira no serviço de urgência de um hospital da cidade.

Turnos noturnos. Pernas cansadas. Dores nas costas. Uma vida sempre a correr de um lado para o outro.

O meu pequeno apartamento de um quarto era tudo o que restava depois do meu divórcio.

Paredes com papel de parede antigo. Uma torneira a pingar na cozinha. E silêncio demais.

No começo, achei que gostava daquele silêncio.

Depois de dez anos de discussões, críticas e frases como “tu nunca fazes nada certo”, a tranquilidade parecia um presente.

O meu ex-marido, Andrei, foi morar para o interior com a nova esposa. A minha filha, Yulia, estudava em São Petersburgo. Ela ligava uma vez por semana.

— Mãe, está tudo bem?

— Sim, está tudo bem.

As nossas conversas eram sempre curtas.

Como se nós duas tivéssemos medo de que, se falássemos por mais tempo, tudo aquilo que guardámos durante anos acabasse por sair.

E então havia aquele gato.

Sentado à minha porta.

A esperar.

Passei por ele, entrei em casa, tirei o casaco e coloquei a chaleira no fogo.

Só mais tarde voltei a abrir a porta.

Ele ainda estava lá.

Na mesma posição. A cauda enrolada nas patas, como se tentasse guardar o pouco calor que tinha.

— A quem pertences? — perguntei.

O gato piscou lentamente.

O olhar dele parecia dizer:

“Essa é mesmo a pergunta mais importante?”

Na manhã seguinte, ele continuava lá.

Era magro. Muito magro. As costelas apareciam por baixo do pelo sujo e embaraçado. Numa das patas dianteiras tinha uma ferida antiga.

Mas os olhos dele eram diferentes.

Não havia medo.

Não havia pedido de ajuda.

Apenas calma.

Como se ele não estivesse a implorar nada.

Como se simplesmente dissesse:

“Eu estou aqui.”

Peguei num pedaço de frango cozido do frigorífico e coloquei-o junto à porta.

Ele cheirou.

Olhou para mim.

Depois começou a comer.

Não com desespero.

Não com pressa.

Devagar.

Com uma dignidade que me surpreendeu.

Como alguém que conheceu a fome, mas nunca perdeu o orgulho.

A minha vizinha, Nadezhda Pavlovna, viu o gato.

— Svetka, estás a alimentar esse gato abandonado?

— Não. O frango simplesmente sobrou.

Ela abanou a cabeça e foi embora.

Mas eu fiquei a pensar naquela palavra.

Sobrou.

O frango não tinha sobrado.

Eu apenas não quis comê-lo no dia anterior.

Nos dias seguintes, tudo se repetiu.

Eu ia trabalhar.

Voltava para casa.

E ele esperava.

Sempre no mesmo lugar.

Sempre com aquele olhar tranquilo voltado para a minha porta.

No quarto dia, caiu uma chuva fria.

Quando cheguei perto da meia-noite, o gato estava completamente molhado.

O pelo ruivo estava colado ao corpo pequeno.

Ele parecia ainda menor.

Como se apenas os ossos e a vontade teimosa de sobreviver o mantivessem de pé.

Abri a porta.

— Entra.

Ele não correu.

Não se atirou para dentro à procura de calor.

Apenas se levantou e entrou.

Calmamente.

Com dignidade.

Olhou à volta, foi até à cozinha e deitou-se perto do aquecedor.

Poucos minutos depois, adormeceu.

A respiração tranquila dele encheu o quarto.

E pela primeira vez em muito tempo senti algo que quase tinha esquecido.

Havia alguém ali.

Ele não recebeu um nome imediatamente.

Alguns dias depois, chamei-o Semyon.

Dei-lhe banho, e por baixo da sujidade apareceu um lindo pelo cor de cobre. No peito tinha uma mancha branca em forma de uma pequena estrela.

Uma noite, ele saltou para o meu colo.

Começou a ronronar.

E naquele momento eu percebi.

Ele já não era um gato abandonado.

Era o meu gato.

Uma semana depois, levei-o ao veterinário.

O médico examinou-o cuidadosamente.

— Ele provavelmente já teve uma casa. É castrado. A lesão na orelha é antiga. É um animal forte. De alguma forma conseguiu sobreviver ao inverno na rua.

Eu apenas assenti.

Porque já sabia a resposta.

Alguém um dia decidiu que Semyon já não era necessário.

Alguém abriu uma porta e deixou-o para trás.

Mas Semyon não desistiu.

Procurou calor.

E encontrou a minha porta.

Nos meses seguintes, algo mudou.

Não nele.

Em mim.

Voltei a falar.

Não apenas a dizer as palavras necessárias.

Contava-lhe sobre os meus dias.

Sobre o meu trabalho.

Sobre os meus pensamentos.

E ele sempre escutava.

Depois de três anos, finalmente consegui dormir sem comprimidos.

Não porque toda a dor desapareceu.

Mas porque o silêncio deixou de ser vazio.

Semyon ensinou-me algo importante:

Uma casa não é apenas quatro paredes.

Uma casa é o lugar onde alguém espera por ti.

Mais tarde, uma menina chamada Polina entrou nas nossas vidas.

Num dia difícil, ela ficou comigo enquanto a avó era levada para o hospital.

Ela estava assustada.

Calada.

Tentando ser forte.

Então Semyon aproximou-se dela.

Subiu para o colo dela.

E Polina começou a chorar.

Baixinho.

Como se finalmente pudesse parar de fingir que estava tudo bem.

O gato ficou simplesmente ao lado dela.

Como se soubesse exatamente aquilo de que ela precisava.

Durante o verão, Polina vinha todos os sábados.

Nós desenhávamos.

Líamos.

Ríamos.

E Semyon estava sempre connosco.

Yulia também voltou para me visitar.

Quando viu o gato, sorriu.

— Mãe, é verdade. Este gato realmente cura pessoas.

Talvez ela tivesse razão.

Porque Semyon não me deu nenhum remédio.

Ele deu-me algo que eu quase tinha perdido.

Proximidade.

Calor.

Vida.

Uma noite, fiquei junto à janela.

Lá fora, um gato cinzento e magro dormia enrolado perto da grade da cave.

Exatamente no lugar onde Semyon um dia procurou calor.

Olhei para ele.

Depois olhei para Semyon.

Ele piscou lentamente.

— Eu não consigo cuidar de dois gatos — disse eu.

Ele piscou novamente.

Suspirei.

Depois fui até ao frigorífico.

Peguei num pedaço de frango.

Porque finalmente compreendi uma coisa:

Às vezes, os capítulos mais bonitos da nossa vida começam justamente com aquilo que pensávamos que já não precisávamos.

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