– O que é isto? – perguntou ele com uma voz fria, apontando com o dedo para a pasta sobre a minha mesa.
Levantei lentamente a cabeça.
À minha frente estava Denis Kovaliov, o novo diretor-geral da empresa. Ele tinha vindo da sede central três semanas antes e já se comportava como se fosse o dono de todo o edifício há anos. Tinha trinta e dois anos, usava sempre ternos perfeitamente ajustados e, no pulso, ostentava um relógio tão grande que parecia falar mais sobre ele do que as próprias palavras.
No primeiro dia, reorganizou completamente os móveis da receção. No segundo, mandou retirar o bebedouro do quarto andar. No terceiro, ordenou que ninguém mais deixasse flores nos parapeitos das janelas, porque, segundo ele, “uma empresa séria não é um jardim de infância”.
– É um pedido de certificação para um novo conjunto de produtos – respondi calmamente. – É o mesmo processo que seguimos há anos.
– “O mesmo processo”? – repetiu ele com um sorriso irónico. – Aqui tudo funciona da mesma maneira há anos. A única pergunta é: onde estão os resultados?
Não respondi de imediato.
Desde 2007 eu trabalhava naquele edifício.
Quarto andar. Terceira sala à esquerda do elevador.
Inessa Pavlovna Rogova. Especialista em certificação.
Durante dezenove anos eu verificara documentos, analisara requisitos de conformidade, mantivera contacto com laboratórios e preparara os papéis sem os quais nenhum produto poderia chegar ao mercado.
A minha assinatura não era apenas tinta num documento.
Era responsabilidade.
Durante esse tempo, quatro diretores-gerais tinham chegado e partido.
Cada um trazia as suas próprias regras.
Cada um queria mudar tudo.
E eu continuava ali.
Denis aproximou-se da minha mesa. O perfume caro dele encheu a pequena sala — um cheiro forte demais, doce demais.
– Amanhã às nove da manhã quero o relatório completo de certificação dos últimos seis meses. Todos os projetos. Todos os prazos. Todos os erros e desvios. Em formato de tabela. Não nestas suas velhas pilhas de papéis.
Cruzei as mãos sobre a mesa.
– Denis Andreievich, preparar um relatório assim leva pelo menos três dias úteis. Temos dezassete projetos. Cada um envolve várias etapas de verificação, resultados laboratoriais, atas e pareceres de especialistas.
Ele olhou para mim.
– Tem uma noite.
Por um momento, o silêncio tomou conta da sala.
– Se ainda quiser continuar a trabalhar aqui.
Depois virou-se e saiu.
O som dos seus sapatos ecoou pelo corredor. Preciso. Ritmado. Como se cada passo dissesse:
Agora sou eu quem manda.
Vera, a minha colega de escritório, levantou lentamente os olhos por detrás do monitor.
– Ele falou a sério?
Encolhi os ombros.
– É um novo chefe. Todos são assim no início. Depois percebem como as coisas realmente funcionam.
Mas, enquanto dizia aquilo, ficou dentro de mim uma sensação amarga.
Não era raiva.
Era a estranha impressão de que alguma coisa estava apenas a começar.
Não fiquei no escritório durante a noite.
Na manhã seguinte cheguei como sempre: às oito e meia.
Tirei o casaco, liguei o computador, limpei a mesa com um pano macio e continuei o relatório.
Cerca de um terço do trabalho estava pronto.
Para o resto, eu precisava dos dados de três laboratórios diferentes. Eles só começavam a trabalhar às dez.
Às nove e quinze, Denis convocou todo o departamento.
Éramos catorze pessoas na sala de reuniões.
Estavam lá Lena, Natasha e Irina da contabilidade. Dois funcionários das compras. Da nossa área de certificação: eu e Vera. Os responsáveis pela logística, Yuri e Kostya. Anja, a secretária. E mais alguns colegas das áreas relacionadas.
A sala de reuniões do quarto andar era sempre fria. Havia uma grande mesa no centro e doze cadeiras à volta, por isso duas tinham sido trazidas do corredor.
A janela dava para o estacionamento, onde a chuva desenhava pequenos rios nos para-brisas dos carros.
Denis estava de pé junto ao quadro.
As mangas da camisa estavam arregaçadas até aos cotovelos. O famoso relógio brilhava novamente no pulso.
– Então – disse ele, batendo a mão na mesa. – Dei uma tarefa simples. Pedi um relatório para as nove horas.
Olhou para mim.
– Inessa Pavlovna, levante-se.
Levantei-me.
Os olhos de catorze pessoas voltaram-se para mim.
Alguns olhavam com pena.
Outros pareciam aliviados por não serem o alvo daquela vez.
– Onde está o relatório?
– A primeira parte está pronta – respondi tranquilamente. – Para os restantes dados precisamos esperar pelas respostas dos laboratórios. Eles começam a trabalhar às dez. Eu avisei isso ontem.
Denis abanou lentamente a cabeça.
– Não. A senhora não entendeu a situação. Não faltam dados. A senhora simplesmente não cumpriu a tarefa.
A voz dele ficou cada vez mais dura.
– Estou a observá-la há três semanas. Chega às oito e meia. Sai às cinco e meia. Não vejo iniciativa. Não vejo novas ideias. Não vejo evolução.
Fez uma pausa.
– É como se fosse apenas um móvel no escritório. Está aqui, ocupa espaço e nada mais.
A sala ficou em silêncio.
Senti os meus dedos apertarem-se debaixo da mesa.
Não deixei que ele percebesse.
Eu tinha cinquenta e oito anos.
Tinha sobrevivido a quatro diretores.
A duas crises económicas.
A uma pandemia.
Também sobrevivi ao dia em que mudaram departamentos inteiros de um andar para outro e carregámos centenas de caixas de documentos pelas escadas.
Vi pessoas talentosas desaparecerem.
Vi pessoas incompetentes subirem.
Aprendi a ter paciência.
Mas a palavra “móvel”…
Essa ninguém nunca tinha usado comigo.
Denis inclinou-se para a frente.
– Vou perguntar diretamente: quem é a senhora afinal?
Anja estremeceu.
– Está aqui há dezenove anos. O que conseguiu fazer? Diga-me um único resultado do último ano!
Silêncio.
Um silêncio tão profundo que era possível ouvir o ruído constante do ar condicionado.
Vera baixou os olhos.
Lena começou a desenhar algo no caderno.
Yuri apertou os lábios.
Ninguém disse nada.
Ninguém falou:
“Denis Andreievich, isto já é demais.”
Catorze pessoas.
E silêncio absoluto.
– Sente-se – disse ele finalmente. – Até quarta-feira quero o seu plano de trabalho trimestral. Com KPIs. Se não corresponder às expectativas, vamos analisar se ainda existe lugar para si nesta empresa.
Olhou à volta.
– E isto aplica-se a todos.
Sentei-me.
O broche preso na minha blusa — a peça com uma pedra azul que o meu marido me ofereceu no nosso vigésimo aniversário de casamento — pressionava a minha clavícula.
Toquei nele.
A pedra estava quente.
Ainda guardava algo daquele tempo em que as pessoas não viam umas nas outras apenas números e KPIs.
Mas seres humanos.

A reunião continuou por mais vinte minutos.
Denis distribuiu novas tarefas, estabeleceu prazos e falou sobre indicadores de desempenho.
Eu já não o ouvia.
Apenas contava.
Dezenove anos.
Quatro diretores.
Nenhuma pessoa tinha levantado a voz contra mim diante dos outros.
Nenhuma pessoa tinha-me humilhado diante de catorze colegas.
E agora um homem de trinta e dois anos, que tinha chegado há apenas três semanas, decidiu que sabia tudo sobre mim.
Quando a reunião terminou, Vera aproximou-se.
– Iness… estás bem?
– Claro.
Mas ela sabia que não era verdade.
Saímos para o corredor.
Passámos pela contabilidade.
Junto à parede ainda estava o espaço vazio onde antes ficava o bebedouro.
Segundo Denis, “assim todos se movimentariam mais”.
Voltámos ao escritório.
Vera fechou a porta.
– Ele não faz ideia de onde veio parar – disse ela em voz baixa.
Olhei para ela.
– O que queres dizer com isso?
Aproximou-se.
– Ele não faz ideia de quem é o dono deste edifício.
Fiquei surpresa.
– Como sabes?
– Sergei Vitalievich, o antigo diretor, uma vez falou disso ao telefone. Eu levei-lhe uns documentos. Ele disse: “Tudo precisa ser combinado com o proprietário. Nem a renovação podemos decidir sem ele.”
Ela ficou em silêncio por um momento.
– Na época eu não entendi.
Vera olhou para mim.
– Depois comecei a reparar. Às vezes és tu que desces ao terceiro andar e assinas documentos com Semyon Borisovich. E na entrada há uma placa com o nome.
Ela parou.
– Rogova.
O meu coração bateu mais forte por um instante.
Vera disse baixinho:
– Iness… hoje ele chamou-te de móvel.
Fez uma pausa.
– No teu próprio edifício.


