„Não fique preso ao passado” — mas o passado não desaparece
Marina voltava para casa da vizinha carregando um garrafão de dois litros de leite de cabra. Suas filhas haviam pedido para o café da manhã. De longe, ela percebeu que havia algo errado.
O portão estava completamente aberto.
Ela tinha certeza de que havia fechado o trinco.
Atrás do canto da casa, uma sombra desconhecida passou rapidamente.
Marina parou e, com cuidado, contornou a varanda.
E ficou paralisada.
Encostado na parede estava Artjom.
Em uma das mãos segurava um giz de construção; na outra, um papel enrolado.
— Olá, Marina. O Gena está em casa?
A mulher apenas ficou olhando.
Dez anos.
Fazia dez anos que ela não via aquele homem diante da casa deles. E agora ele agia como se tivesse aparecido apenas para pedir uma xícara de açúcar emprestada.
— Artjom? Como você chegou aqui?
— A porta estava aberta. Esperei um pouco, depois dei uma olhada. Faz tempo que não venho aqui. A casa está bonita. Forte.
Marina colocou o leite no degrau.
Nesse momento, Gennady apareceu atrás da casa. Ele estava consertando a cerca.
Quando viu o irmão, parou.
— Artjom?
— Gena! Irmão! Quantos anos, quantos invernos!
Artjom o abraçou. Gennady retribuiu, mas seu olhar estava cheio de confusão.
— Você veio sozinho? — perguntou.
— Sim. Dária e Polinka estão na casa dos meus pais. Eles moram em um apartamento de um cômodo. Está apertado para elas. Mas não vim aqui para reclamar.
— Então por quê?
Artjom abriu o papel sobre o corrimão da varanda.
Era uma planta.
— Veja. Aqui poderia ser uma nova entrada. Aqui uma parede. Uma cozinha separada ou compartilhada, como vocês preferirem. Eu já tenho os materiais. Vou construir com minhas próprias mãos.
Gennady levantou lentamente a mão.
— Espere. Você quer se mudar para cá?
Artjom deu de ombros.
— Não temos para onde ir. Nossa casa desabou. Você sabe disso.
Marina entrou na cozinha sem dizer nada.
Pegou três canecas.
Depois guardou uma de volta.
Gennady percebeu.
Não disse nada.
Artjom sentou-se e colocou a planta sobre a mesa.
— Kuzmich me contou sobre a casa de vocês — disse Gennady. — É verdade que você removeu uma parede de sustentação?
— Eu não queria fazer isso. Achei que não fosse uma parede importante. Coloquei uma viga de apoio, mas ela não aguentou. Durante a noite, o telhado começou a ceder. Dária pegou Polinka no colo e elas saíram pela janela. Eu fui atrás delas.
— Vocês poderiam ter morrido.
— Mas não morremos.
Artjom se inclinou para frente.
— Eu não estou pedindo caridade. Tenho materiais e vou trabalhar. Só preciso de um lugar onde possa construir.
Gennady olhou para Marina.
— O que você acha?
— Eu vou dizer. Mas antes, deixe que ele escute.
Artjom suspirou.
— Eu sei que tivemos problemas no passado…
Marina riu.
— Problemas no passado?
Sentou-se diante dele.
— Então vamos falar sobre eles.
O silêncio tomou conta da sala.
— Você se lembra de quando tinha dezoito anos e exigiu que a casa dos nossos pais fosse dividida em três partes?
— Eu tinha direito.
— Sim. Você sempre diz isso. Eu tinha direito.
Marina olhou para ele.
— Você ficou com medo de que Gena e eu seguíssemos em frente antes de você. Nós nem éramos casados ainda e você já estava dividindo a herança.
Sua voz ficou mais firme.
— Você foi embora. Gena ficou. Nós construímos nossa vida nesta casa.
— Essa foi a escolha de vocês.
— Sim. Mas então veio aquela noite de novembro.
Gennady abaixou a cabeça.
— O acidente.
Marina assentiu.
— Gena dormiu ao volante. Bateu de frente com um caminhão. Quebrou seis ossos. Ficou semanas no hospital.
Artjom falou baixo:
— Eu ajudei ele.
— Sim.
Marina olhou para ele.
— Você pagou os reparos. Ajudou com o tratamento.
Ela ficou em silêncio por um instante.
— Depois ficou ao lado da cama do hospital com os documentos e disse: “Vou receber cada centavo de volta.”
Artjom não respondeu.
— Você se lembra?
— Eu também tive despesas.
— E por isso você tomou a parte da casa. E também o apartamento que nós pagamos durante quatro anos.
Gennady fechou os punhos.
— Porque naquela época eu não conseguia me defender.
A voz de Marina tremeu.
— Ficamos na rua com duas meninas pequenas. Uma de quatro anos e outra de um ano e meio. Eu trabalhava, chorava à noite e durante o dia fingia ser forte.
Artjom abaixou a cabeça.
— Eu não obriguei Gena a nada.
— Não.
Marina olhou friamente para ele.
— Você apenas esperou o momento em que seu próprio irmão estava fraco demais para dizer não.
Artjom então se levantou.
— Você não é ninguém nesta família! Você é apenas a esposa. Isso é assunto entre irmãos.

Gennady levantou-se devagar.
— Dez anos atrás você disse a mesma coisa.
Artjom olhou para ele.
— Eu salvei sua vida!
— Não. Você deu dinheiro. E em troca tirou tudo de nós.
Artjom apontou para Marina.
— Ela colocou essas ideias na sua cabeça. Ela sempre foi uma mulher amarga e maldosa.
Então disse:
— Uma cobra.
O som do tapa ecoou pela cozinha.
Marina olhou para ele com calma.
— Esse foi pelo insulto.
Fez uma pausa.
— E pelos dez anos em que eu fiquei em silêncio.
Gennady ficou ao lado de Marina.
— Esta casa não é minha. Os pais de Marina deram ela para nós. Eu também sou um convidado aqui.
Artjom olhou para ele, chocado.
— Você está dizendo não ao seu próprio irmão?
— Estou dizendo não para alguém que uma vez já tirou o lar da minha família.
No final, Artjom só pôde ficar com uma condição:
Com contrato.
Com entrada separada.
Com vidas separadas.
Durante dois meses, ele construiu o anexo com as próprias mãos.
Mas Marina não apagou as marcas de giz da parede.
Certa vez, Gennady perguntou:
— Não vamos pintar por cima?
— Não.
Marina olhou para as marcas.
— Isso não são linhas.
— São lembranças.
Seis meses depois, o pai de Artjom, Vladimir Petrovich, foi até a casa deles.
Sozinho.
— Passei o apartamento para as suas filhas — disse ele.
Marina ficou surpresa.
— Por quê?
O velho abaixou a cabeça.
— Porque há dez anos eu fiquei calado. Quando deveria ter gritado.
Quando Artjom descobriu, ficou furioso.
Mas os documentos já estavam prontos.
Ele não podia mais mudar nada.
Mais tarde, encontrou Marina no quintal.
— Você venceu.
Marina balançou a cabeça.
— Não, Artjom.
Silêncio.
— Eu não estava jogando.
Ela se virou.
— Você passou a vida inteira jogando.
— Eu apenas vivi.
Com o tempo, as marcas de giz desapareceram.
Mas a lembrança delas permaneceu.
Em Marina.
E também em Gennady.


