– Divorciei-me do seu filho! A senhora já não manda no meu apartamento! – a sogra apareceu com o filho, um passaporte e uma exigência.

— Abre, Katjuska, nós somos uma família! — a voz doce e excessivamente polida de Antonina Pavlovna ecoou pelo corredor, abafando o longo e insistente toque da campainha. — Deixa ao menos o rapaz entrar com as coisas dele… não o podes deixar na rua, depois resolvemos tudo com calma, em família!

Kata inclinou-se para o olho mágico. No corredor meio escuro estava a ex-sogra, e atrás dela Vagyim mexia-se nervosamente, como se não soubesse a que corpo pertenciam os próprios pés. Aos seus pés havia duas enormes malas de viagem xadrezadas. Algo se apertou na garganta de Kata, mas ela soltou o ar devagar. Rodou a fechadura e abriu a porta apenas uma fresta, sem tirar a corrente.

— Nós nos divorciámos — disse ela baixinho, mas cada palavra caiu com firmeza. — Você aqui já não é “família”. Este apartamento não tem mais nada a ver com vocês.

O rosto da sogra mudou num instante. O sorriso cuidadoso caiu, como uma máscara mal colocada.

— Não tentes fazer-me de tola! — explodiu ela. — O ex-marido tem direitos! Ele estava registado aqui! Vamos contestar isto no tribunal, estás a ouvir?!

Kata olhou para Vagyim. O homem nem sequer a encarava. Sacudia o casaco, como se tudo aquilo fosse apenas uma espera desagradável.

— Kata, deixa-me entrar — disse ele com indiferença. — Estou cansado. Tens comida?

Essa indiferença doeu de uma forma mais forte do que qualquer humilhação anterior. Na mente de Kata passaram anos: as críticas, os “estás a fazer isso mal”, o processo em que tentaram até arrancar metade do apartamento das suas mãos.

— Vou chamar a polícia — disse ela.

— Chama! — respondeu a sogra triunfante, empurrando todo o corpo contra a porta. — Vamos ver em quem eles acreditam!

O metal rangeu. Por um momento Kata ficou a olhar para eles, depois retirou lentamente a corrente.

E assim deixou-os entrar.

O apartamento encheu-se de movimentos estranhos. Vagyim já pendurava o casaco com familiaridade, como se tivesse chegado a casa. A sogra entrou na cozinha de sapatos, como se estivesse em inspeção, não numa invasão.

— As malas ficam no corredor — ordenou. — Eu vou pôr isto em ordem. E tu, Katerina, tira alguma coisa do frigorífico para ele. É preciso aprender a viver juntos.

Kata não respondeu. Trancou-se na casa de banho e marcou um número.

— Houve uma entrada ilegal. Eles recusam-se a sair — disse calmamente.

Quando saiu, pegou na pasta azul. E esperou.

Meia hora depois, Vagyim já estava estendido na sala.

— Onde está o comando? — gritou. — E faz-me qualquer coisa para comer, a minha mãe está a arrumar a cozinha.

Kata não respondeu. Apenas olhava para o relógio.

Quando a campainha tocou, tudo parou.

Dois polícias.

Antonina Pavlovna deu imediatamente um passo à frente.

— Oh, senhores agentes, é apenas uma discussão de família! Nada de grave!

O polícia mais velho olhou para Kata.

— Quem é o proprietário?

Kata abriu a pasta.

— Eu. Aqui está a escritura. Aqui está o divórcio. Aqui está a anulação do registo de residência. Eles não têm qualquer base legal para estar aqui.

O polícia assentiu.

— Documentos, por favor.

O ar mudou de repente. A confiança desapareceu.

— Façam as malas. Têm de sair imediatamente — disse o polícia.

A sogra ainda tentou gritar algo, mas já ninguém a ouvia.

No corredor, tudo se desfez: o fecho de uma mala cedeu, roupas escorregaram para o chão de betão. Vagyim agachou-se para apanhá-las, mas já não havia dignidade ali, apenas pressa.

A sogra olhou para Kata pela última vez.

— Vamos voltar! — sibilou. — Vais arrepender-te disto!

Kata não respondeu. Apenas fechou a porta.

O clique da fechadura soou — pela primeira vez — como uma linha de fronteira.

No dia seguinte, foi instalada uma nova fechadura. No terceiro dia, uma câmara. No quarto dia, voltaram.

Primeiro apenas puxavam o puxador.

Depois gritavam.

Depois colavam mensagens na porta.

Kata registava tudo. Sem raiva, sem pressa — apenas precisão.

Quando, na esquadra, o jovem agente viu as gravações, disse apenas:

— Apresente queixa. Isto já é assédio.

Kata escreveu. Em linhas limpas, como se documentasse a vida de outra pessoa.

Nessa noite, ao chegar a casa, a luz azul da câmara brilhava suavemente, como um olho constante.

O telefone tocou.

“Vais arrepender-te disto tudo! O polícia humilhou o Vagy! Vais ficar sozinha na vida!”

Kata sorriu.

E bloqueou o número.

O apartamento estava em silêncio. Não aquele silêncio tenso, à espera.

Mas aquele que, finalmente, já não deixa entrar mais ninguém.

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