“Afaste-se do quadro, trabalhador!” — zombou o chefe. Um minuto depois, todos pararam de rir.

O tampão plástico da caneta de feltro bateu na divisória de vidro com um estalo seco e nítido, depois caiu em um arco imprevisível e deslizou para debaixo do sofá de couro, como se nunca tivesse pretendido voltar ao seu lugar.

— Desculpe… estão a gozar comigo agora? — a voz de Inga Valerievna mal se elevou. Era mais baixa do que raivosa. Ainda assim, atravessou a sala de reuniões como um vento frio e cortante. Treze pessoas ficaram tensas ao mesmo tempo.

Estavam no vigésimo oitavo andar. Do outro lado da janela panorâmica, a cidade afundava num crepúsculo acinzentado, e lá dentro o centro logístico “Global-Transit” parecia um aquário fechado e sobreaquecido: o zumbido dos portáteis, o cheiro amargo do café, a rigidez dos colarinhos suados.

Já fazia dois dias que ninguém realmente saía dali.

— Valerievna… compreenda-nos — Vágim ajustou nervosamente a camisa perfeitamente engomada. A voz tremia, mas ele tentava manter firmeza. — Corremos o modelo cinco vezes. O nó sul não aguenta a carga. Se desviarmos para a linha de reserva, todo o sistema para até aos Urais.

— O sistema não falha — disse Inga baixinho. — Apenas mostra o que lhe forçaram a conter.

Olhou à volta da mesa. Os treze analistas encontraram, ao mesmo tempo, algo “de extrema importância” nos seus portáteis.

— Para vocês isto é um contrato de vários milhares de milhões — continuou. — Quero uma solução às oito da manhã de amanhã. Não explicações.

E saiu.

A porta fechou-se com demasiada força.

Ficou o silêncio.

— Vamos fumar. Agora — resmungou Vágim.

E a sala esvaziou-se como se nunca tivesse estado ninguém ali a trabalhar.

Mas o enorme quadro branco ficou. Uma rede caótica de linhas vermelhas e pretas: becos sem saída, nós sobrecarregados, números riscados. Um sistema que já parecia mais um organismo à beira do colapso do que logística.

No corredor, ouvia-se entretanto um rangido ritmado e suave.

Denis empurrava o carrinho de limpeza. A cabeça do esfregão deixava escorrer lentamente a água com cheiro a limão. Tinha trinta e nove anos, mas as mãos e o olhar pareciam mais velhos.

Parou junto à parede de vidro.

Lá dentro, na sala de reuniões, ainda vibrava a tensão.

Depois viu o quadro.

Não viu números.

Viu estrutura.

Antigamente fora engenheiro de pontes. Na sua mente, os números transformavam-se sempre em matéria: tensão, pontos de apoio, pontos de rutura. Agora acontecia o mesmo.

O sistema comprimira todo o tráfego num único gargalo. Como uma ponte com carga excessiva concentrada num só pilar. Um único erro de distribuição… e tudo colapsa.

Denis entrou.

Ninguém o notou.

Pegou no marcador.

— Ei! O que estás a fazer?! — gritou uma voz atrás dele.

Vágim estava à porta.

Denis não se virou.

— Sai do quadro! — Vágim aproximou-se. — És um empregado da limpeza. Volta ao esfregão.

Denis virou-se lentamente.

O momento esticou-se.

Depois voltou-se para o quadro e, num único movimento, riscou um nó vermelho com uma linha azul grossa.

— Ficaste louco?! — a voz de Vágim explodiu. — Vais estragar tudo!

Denis não respondeu.

Traçou outra linha. Depois mais uma.

De repente, o sistema deixou de ser um único tubo e tornou-se ramificado.

Ganhou vida.

— Isto é… isto é absurdo! — Vágim já gritava. — Estás a sobrecarregar toda a rede!

Nesse momento, Inga também apareceu à porta.

Parou.

O ar mudou.

— O que está a acontecer aqui?

— Este homem está a riscar o modelo! — disparou Vágim.

Inga aproximou-se. O olhar percorreu as linhas azuis.

Não falou de imediato.

— Quem fez isto?

— Eu — disse Denis calmamente.

Silêncio.

— Isto não funciona! — Vágim riu nervosamente.

Inga levantou o tablet.

— Testem.

— Isto é uma piada…

— Testem.

Sete minutos.

O ecrã ficou verde.

A sobrecarga crítica desapareceu.

Redução de oitenta por cento.

O sistema estabilizou.

Silêncio.

— Nome? — perguntou Inga.

— Denis Sokolov.

— Formação?

— Engenharia. Três semestres.

— Por que não terminou?

Denis desviou o olhar por um momento.

— A vida aconteceu. A minha esposa ficou doente… depois morreu. Fiquei com a minha filha.

Ninguém na sala se mexeu.

— Volte amanhã — disse Inga.

Vágim riu, mas ninguém o ouviu.

No dia seguinte, Denis saiu de um pequeno apartamento.

— Pai, onde vais? — perguntou a filha.

— Trabalhar.

A criança deu-lhe um pequeno dinossauro de plástico.

— Ele é corajoso. Não tem medo de nada.

Denis sorriu.

No escritório, todos olhavam enquanto ele entrava.

Como um erro no sistema.

Mas depressa passou a ser ele quem encontrava erros.

E quando falava, riam-se dele.

— Volta para a limpeza!

Mas Inga olhou para ele uma vez, e no dia seguinte ele já não era empregado da limpeza.

Era líder da equipa.

O sistema começou a funcionar.

Mas a equipa começou a desmoronar-se.

E quando Inga lhe perguntou:

— Porque não revida?

Denis encolheu os ombros.

— Não quero esmagar pessoas.

— Então aqui não pode ficar.

— Então vou-me embora.

Deixou o cartão de acesso.

O sistema ficou perfeito sem ele.

Mas ele desapareceu.

Um mês depois, Inga encontrou-o num bairro residencial. Denis montava uma bicicleta com crianças.

— O seu lugar é aqui — disse ela.

Denis abanou a cabeça.

— Não.

Silêncio.

— Se voltar, será com outras condições — acrescentou Inga.

O pequeno dinossauro mexeu-se no bolso de Denis.

Ele sorriu.

— Então apenas pelas minhas regras.

— Acordado.

E pela primeira vez, pareceu que o sistema e o ser humano finalmente falavam a mesma língua.

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