A fechadura da porta clicou de forma surpreendentemente silenciosa. Dasha segurou firme a pesada maçaneta de metal, todos os músculos tensos para que nada fosse ouvido. No corredor, misturavam-se o cheiro da comida que vinha da cozinha e o perfume excessivamente forte de lavanda
— sinal claro de que Zinaida Fedorovna havia aparecido novamente sem avisar.Dasha retirou cuidadosamente suas botas de veludo. O tapete úmido nos pés transmitia o frio até as finas meias de algodão, fazendo a sola de seus pés gelar desconfortavelmente.
Ela pendurou o casaco no cabide quando sons abafados vindos da cozinha chegaram aos seus ouvidos.— Entende, meu filho, uma oportunidade dessas não pode ser desperdiçada — sussurrou Zinaida Fedorovna, animada, enquanto a colher tilintava contra a xícara de porcelana.
— Ela vai vender o apartamento de dois quartos e te dará o dinheiro. O novo apartamento será imediatamente registrado no meu nome. Você pode dizer que assim não precisa pagar imposto. E ela vai acreditar, tão ingênua que é.
— Mãe… e se ela disser não? — A voz de Maxim estava incerta, mas não havia traço de arrependimento. — Ela já paga o financiamento há cinco anos, antes mesmo de nos conhecermos. Mal consegue arcar com a dívida.
— E daí? Agora vocês são família! — resmungou a sogra, o ranger da cadeira no silêncio parecia uma ameaça. — O homem deve ser o chefe da casa. Caso contrário, a mulher se sentirá no controle em seu próprio espaço. Registramos no meu nome e, se não gostar, a colocamos para fora com uma mala.
Encontraremos uma esposa normal e obediente para você. Svetočka, do prédio vizinho, já demonstra interesse por você com frequência.Dasha estremeceu. Algo frio e pegajoso apertava seu peito. Com as mãos, ela segurou com força o tecido de lã do casaco. Nenhuma lágrima caiu, apenas a amarga percepção:
ela havia passado os últimos três anos com essas pessoas.Com passos silenciosos, recuou para o hall do prédio. Fechou a porta e apertou o botão do elevador. Precisava sair, tomar ar fresco para acalmar o coração disparado. Ainda ecoavam em seus ouvidos as palavras calmas e calculistas das pessoas mais próximas,
que queriam expulsá-la para a rua.Ao chegar ao primeiro andar, Dasha saiu para a rua fria e nevada. O vento gelado bagunçou seu cabelo e bateu em seu rosto. Ela apenas caminhou, ignorando o caminho, com fragmentos de memórias girando em sua mente:
como negava a si mesma pequenos prazeres, economizando cada centavo para o adiantamento do apartamento, passando noites preparando papel de parede enquanto massageava os ombros doloridos. Quão feliz ela se sentira ao conhecer Maxim — nos primeiros meses, ele realmente era atencioso e cuidadoso.
Trazia buquês simples, mas gentis, de crisântemos e preparava café da manhã nos finais de semana. Depois vieram buscas intermináveis por si mesma.Lembrou-se da noite anterior: Dasha estava na cozinha, batendo um creme espesso para o bolo de noiva, mãos cansadas tremendo.
Maxim entrou e estalou a língua com insatisfação ao ver a frigideira vazia:— Dasha, cadê o jantar? Passei o dia todo em entrevistas de emprego como um cachorro, e não tem nada para comer. “Entrevistas de emprego” significavam encontros com antigos colegas de classe, discutindo o plano “genial” da rede de lava-rápidos.
Dasha trabalhava como confeiteira, horas a fio, até meia-noite, atendendo pedidos particulares, preparando obras-primas de vários andares. A cozinha sempre cheirava a baunilha, canela e caramelo. Suas mãos frequentemente ficavam manchadas de vermelho pelo calor,
suas costas doíam pelo esforço, mas ela não reclamava. Acreditava que eram apenas dificuldades temporárias.Sentou-se em um banco de parque, tirou o telefone do bolso. O frio endureceu seus dedos, mas ela finalmente encontrou o número certo.

— Oi, Olya — disse, tentando parecer calma. — Você está livre hoje? Preciso muito da sua ajuda. Como advogada e amiga.— Dasha? Que pressa é essa? — A voz de Olya soava viva, ao fundo carros passavam. — Venha ao meu escritório, posso te atender até o meio-dia.
Quarenta minutos depois, já estavam sentadas em um pequeno escritório. O aroma de café recém-passado misturado com papel preenchia o ambiente. Dasha segurava firmemente o copo de papel quente e contou toda a conversa que ouvira.
Olya ouviu em silêncio, batendo a caneta na mesa.— Certo — começou Olya. — Sua sogra quer garantir o filho às suas custas. Caso clássico. E você, o que vai fazer? Gritar? Quebrar tudo?— Não sei… — Dasha olhou para o fundo do copo, onde os restos de café escuro se acumulavam.
— Contar a verdade? Colocá-la para fora hoje mesmo?— Sempre haverá tempo para expulsar — sorriu Olya. — Mas se você gritar, eles negarão tudo. Dirá que você entendeu errado. Não, querida, aqui é preciso agir com delicadeza. Deixe-os acreditar que você é uma moça ingênua e mantenha isso até o fim.
— O que você sugere? — ergueu a cabeça Dasha, uma pequena faísca de esperança acendendo nela.— Amanhã de manhã, alegremente diga ao seu marido que concorda com a ampliação. Diga que encontrou um comprador para seu apartamento. E ao mesmo tempo…
— Olya pegou uma folha limpa e começou a desenhar rapidamente. — Você tem um primo em outra cidade, em quem confia totalmente?— Sim, Kostya. Crescemos juntos.— Ótimo. Vamos conduzir o negócio real, mas dentro da família. Você venderá o apartamento para Kostya,
o dinheiro será depositado em uma conta secreta. Maxim não poderá interferir. Mas imprimimos para seu marido um contrato preliminar que pareça oficial, com o “comprador fictício”, colocamos sobre a mesa, deixe-o admirar o selo e a “vida perfeita”.
O plano parecia arriscado, mas Dasha sentiu: esta era a única maneira de se proteger e punir os traidores. À noite, a caminho de casa, comprou eclairs frescos na padaria, e o pensamento já se misturava ao doce aroma de baunilha e à vontade de vingança.


