“Vou ter que me casar com ela, tenha paciência!” sussurrou o noivo. Ele não sabia que a noiva estava a um metro de distância e ouviu tudo.

A pesada bolsa de esporte caiu com um baque seco no chão de concreto do corredor do prédio. Logo depois, um saco com camisas caras deslizou atrás dela e parou junto ao corrimão.

— Dasha, você ficou completamente louca?! — a voz de Oleg ecoou pelo espaço estreito. Ele puxava com força a maçaneta metálica, mas a porta não cedia. — Abra agora! O que é essa palhaçada?!

Lá dentro, silêncio.Dasha encostou a testa quente no metal frio da porta. Não sentia pânico nem vontade de chorar. Apenas um vazio estranho… e uma clareza cortante, como se tudo de repente fizesse sentido.

Respirou lentamente, tirou os chinelos e entrou descalça na cozinha. Sentou-se à mesa e ficou olhando para a xícara de café que Oleg havia deixado. O café estava frio, com uma fina película na superfície.

Eles se conheciam há pouco mais de um ano.Dasha trabalhava como restauradora em uma pequena oficina. Dava nova vida a móveis antigos — cômodas desgastadas, cadeiras vienenses rangendo, armários rachados. Ela amava o que fazia. Cada peça tinha uma história.

Oleg entrou um dia por acaso. Procurava um espelho vintage para o apartamento de um cliente. Elegante, confiante, com fala impecável — conquistou-a rapidamente.

Depois disso, tudo aconteceu depressa. Ele levava chá em uma garrafa térmica. Esperava por ela depois do trabalho. Ficava para dormir. Sua escova de dentes apareceu no banheiro dela. Depois suas roupas. Por fim, ele próprio.

A primeira rachadura quase passou despercebida.Poucos dias antes do Ano Novo.— Minha mãe ligou — disse Oleg, jogando o celular sobre o balcão com irritação. — Vamos à casa dela no dia 31. A família toda estará lá, querem te conhecer.

— Mas… a gente tinha combinado de ficar só nós dois — respondeu Dasha, confusa. — Eu já comprei tudo…— A gente compra um bolo no caminho — disse ele, dispensando o assunto. — Não faz um problema do que não existe.

A noite foi fria. A mãe de Oleg analisou Dasha de cima a baixo, como se estivesse avaliando algo. O presente feito à mão foi colocado de lado sem sequer ser aberto.

Então veio a ligação.A avó de Oleg tinha recebido alta do hospital. Na véspera de Ano Novo. Sozinha.— Ela não vem para cá — disse a mãe dele friamente. — Que se resolva.

Foi nesse momento que Dasha tomou uma decisão.— Nós vamos buscá-la.A senhora era pequena, frágil e grata. Naquela noite, Dasha e ela conversaram por horas na cozinha — sobre a casa, o jardim, a vida. Oleg, enquanto isso, permanecia no celular.

Depois disso, Dasha passou a ligar frequentemente para a avó.Oleg começou a se irritar.— Não tem coisa melhor para fazer? — disse certa vez, ajustando a gravata. — Ela está entediada e se agarrando a você.

Em maio, a saúde da avó piorou.Dasha foi sozinha até lá. Durante dias, semanas, ia e voltava, levava medicamentos, ficava ao lado dela, segurava sua mão.

Oleg apareceu apenas uma vez.Depois desapareceu novamente.Alguns dias depois, a avó faleceu.O funeral foi simples. Breve. A mãe de Oleg mal ficou.

Na manhã seguinte, Dasha desceu ao porão.Estava procurando um pote de conserva.E então ouviu a voz dele.— Sim, eu sei — dizia Oleg ao telefone. — Ela deixou a casa para a Dasha. Eu vi os documentos.

Dasha parou na escada.— Vou ter que me casar com ela — continuou. — Se eu sair agora, perco tudo. Mas se a gente casar… vendemos a casa, colocamos o dinheiro em um apartamento juntos… depois nos divorciamos. Metade fica comigo.

Uma pausa.— Eu sei que você está no quinto mês… aguenta mais um pouco. Precisamos do dinheiro.Algo dentro dela se quebrou.Dasha não chorou.Não gritou.Ela apenas entendeu.Tudo.

As noites tardias. As desculpas. A frieza.Ele não apenas a traiu.Planejava usá-la.Devagar, colocou o pote de volta na prateleira. Saiu pela porta dos fundos. Não olhou para trás.

Duas horas depois, já estava na cidade.Arrumando suas coisas.Sem hesitar. Sem pensar demais.Quando Oleg voltou, seus pertences já estavam no corredor do prédio.

— Dasha! Abra!A porta se abriu um pouco.— Eu ouvi tudo — disse ela calmamente. — Seu plano. A mulher. O bebê.Por um instante, o rosto dele mudou. Depois, ele sorriu de lado.

— Ótimo — disse em voz baixa. — Assim fica mais fácil. A casa ainda será nossa.A porta se fechou.O som da fechadura foi definitivo.Os meses seguintes foram difíceis — processos, provas, tensão.

Mas a verdade estava do lado dela.A casa permaneceu com ela.No outono, ela voltou.O jardim estava coberto de folhas amarelas. O ar era frio e limpo. A casa permanecia em silêncio.

Dasha acendeu o fogão. O fogo começou a crescer lentamente.Aproximou-se da janela.As macieiras estavam paradas.Na primavera, voltariam a florescer.

E pela primeira vez em muito tempo, Dasha sabia:ninguém jamais tiraria dela aquilo que era seu.

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