— Igor, olha só! — a colher de prata tilintou contra a borda do pires de porcelana. — Você vê como ele segura o garfo? Com o punho todo, como um proletário!
Eleonora Pavlovna estava sentada à cabeceira da mesa, com uma blusa de seda e jabô de renda, como se estivesse numa recepção da rainha da Inglaterra, e não numa cozinha de prédio de painéis.
Seu rosto, coberto com uma espessa camada de pó — não só para esconder a palidez natural, mas também as manchas da idade — exibia um desgosto teatral.
Meu filho de cinco anos, Vanya, congelou com a carne no garfo. O bife estava delicioso, feito pela vovó (ou melhor, pelo vovô, já que Eleonora Pavlovna nunca cozinhava
— “guardo minhas mãos para a música”, dizia), e ele queria muito comer. Mas sob o olhar da “avó condessa”, o pedaço não descia pela garganta.
— Mãe, ele é só uma criança! — murmurou Igor, meu marido, enfiando o rosto no celular, tentando se tornar invisível. Aos quarenta anos, ele ainda não tinha aprendido a contrariar a mãe, mesmo com a barba já salpicada de grisalho.
— Uma criança é uma folha em branco! — cortou minha sogra. — O que você escreve, isso será. E na sua família, o que está escrito? “Coletivo”?
Natasha, ela se virou para mim, e eu me senti como uma mosca sob um microscópio, — “Eu já queria dizer há muito tempo, a aparência dele me preocupa.”
Cortei cuidadosamente uma fatia de pepino.— O que exatamente te preocupa, Eleonora Pavlovna?— Tudo! — ela gesticulou teatralmente. — Olhe para esse nariz! Na nossa família, os Zavadski, sempre tivemos perfil grego — ossos finos, ligeira giba.
E as orelhas? Grandes e abertas! Meu bisavô tinha orelhas coladas à cabeça. E isso… — ela apontou para Vanya, que naquele exato momento tomou um gole alto de suco — “isso é diluição genética! Não reconheço mais a nossa linhagem!”
Meu sogro, Viktor Petrovich, sentado à janela (mais perto do exaustor para poder fumar pela fresta), grunhiu, mas não disse nada. Ele falava pouco.
Sua função na família era “trazer, servir, trabalhar, não atrapalhar”. A vida inteira na fábrica, agora de táxi, financiando silenciosamente os caprichos “aristocráticos” da esposa, desde a porcelana antiga até as aulas de francês pelo Skype.
— O que você está insinuando? — perguntei calmamente, embora meu corpo inteiro estivesse tenso. Eu sabia aonde aquilo levaria, não era a primeira performance dela.
— Não insinuo nada, querida, estou apenas constatando um fato — ergueu-se minha sogra. — Eu planejava transferir este apartamento para meu neto… para que ele tivesse um começo na vida. Mas agora estou em dúvida.
Um silêncio caiu sobre a cozinha.O apartamento em que vivíamos — eu, Igor e Vanya — pertencia legalmente à minha sogra. Pagávamos contas, fazíamos reformas, mas os documentos estavam no nome dela.
“É mais seguro assim, nunca se sabe”, havia dito Igor cinco anos atrás.Agora, esse “nunca se sabe” estava sentado à minha frente, passando manteiga na torrada.

— Não vou deixar o ninho da família para um cuco — disse Eleonora Pavlovna firmemente. — Preciso ter certeza de que corre meu sangue neste garoto. O sangue dos Zavadski. Não… — lançou-me um olhar significativo — um acaso.
Igor finalmente ergueu a cabeça do celular.— Mãe, vamos, ele parece comigo, olha os olhos…— Os olhos dele são castanhos! Os seus são cinza! De quem são os castanhos? Os de Natasha são verdes!
— Meu pai tinha olhos castanhos — murmurei.— Viu! — ela levantou o dedo triunfante. — Genes proletários! Natasha, não tenho nada contra sua origem, mas o apartamento… é sério. Exijo um teste de DNA.
Igor permaneceu em silêncio, olhando para o prato como se estivesse transmitindo a final da Liga dos Campeões.Ele não disse: “Mãe, pare, este é meu filho, ponto final.” Ele ficou em silêncio, com medo de perder o favor da mãe.
— Igor? — chamei.Ele levantou os olhos, com culpa.— Natasha… talvez façamos? A mãe vai se acalmar, a pressão dela é importante. Não temos nada a esconder, certo?
Olhei para seu perfil grego nobre, suas mãos macias, que nunca haviam trabalhado pesado.E percebi: eu estava sozinha.Meu marido — não era uma parede, era drywall. Liso, bonito, mas se você cutucar, faz um buraco.

