— Você tem uma fita métrica por aqui? Ou nesta casa só se acumula poeira e teias de aranha?Gleb nem tirou os tênis. Com os solados molhados e cobertos de lama, ele pisava no velho piso de carvalho, deixando marcas escuras como pequenas ameaças. Atrás dele, entrou sua mãe,
segurando a bolsa firme contra o corpo, como se pudesse se contaminar com a “pobreza” do ar.— Gleb, não seja rude com sua irmã — disse ela com aquela severidade falsa, só para quem olha de fora. Depois, se voltou para mim. — Polina, não estamos aqui para tomar chá. Sente-se. Precisamos conversar.
Fiquei de pé junto à janela. O café na minha xícara já estava frio. Lá fora, o pomar de macieiras estava molhado pela chuva, cinza e silencioso. Durante três anos, cuidei de cada árvore, calquei os troncos, aparei os galhos. Conhecia cada irregularidade do solo, cada rachadura na casca.
— Prefiro ficar de pé — respondi calmamente.Minha mãe se deixou cair na poltrona do avô. A madeira rangeu em protesto.— A situação é séria. Sweta terá o bebê em janeiro. Não se pode viver em um apartamento de um quarto com uma criança. Seu pai e eu fizemos as contas. Esta casa senhorial é capital morto. Você só está colocando dinheiro nela.
— E então?Gleb sorriu e tirou de dentro do bolso um papel dobrado.— Temos um comprador. Um homem confiável. Quer demolir — ele só quer o terreno. Pagará à vista, um preço muito bom. Dá para comprar um apartamento de três quartos no centro. E ainda sobra dinheiro para reformas.
Para você também — talvez para um carro novo. O seu está acabado.O porcelanato tilintou quando coloquei a xícara no parapeito da janela.— Demolição? — perguntei baixinho. — Vocês querem reduzir à terra a casa da vovó? O forno de azulejos? A biblioteca? A escada entalhada?
— Chega dessa sentimentalidade! — rosnou minha mãe. — Madeira podre e nostalgia não pagam contas. Seu irmão tem família. Um herdeiro. E você? Vive sozinha em duzentos metros quadrados. Pra quê?— É a minha casa. Por testamento.O olhar de Gleb endureceu.
— Testamentos podem ser contestados. A vovó estava confusa no final. Um atestado de incapacidade financeira é fácil de conseguir. Você quer ir para o tribunal? Com peritos, processos, sujeira? Conseguiremos o que precisamos. Seu pai já conversou com um advogado.
Então percebi: eles não estavam blefando.— Me deem uma semana — disse eu após uma pausa. — Vou arrumar minhas coisas.O alívio foi instantâneo. Minha mãe bateu palmas, quase empolgada.— Viu? Sabia que você era sensata.
Eles foram embora. No pátio, ouvi Gleb ao telefone:— Tudo certo. Baixe o preço. Ela aceitou.Quando o som do motor se afastou, restou apenas a chuva.Peguei um número que não discava há meses. Konstantin. Restaurador. Homem de negócios. Cínico, com fraqueza por casas antigas.
Uma vez, em uma exposição, ele me disse:— Se algum dia decidir vender esta obra-prima, me ligue primeiro. Não deixarei morrer.O sinal de chamada parecia interminável.— Alô? — sua voz soava áspera.— Kostia. Polina aqui. Sua oferta ainda está de pé?
Silêncio curto.— Depende do preço.— O contrato precisa ser assinado amanhã. E ninguém pode saber que você é o comprador.Ele não hesitou nem por um segundo.— Fechado.A semana passou como um funeral. Empacotei fotos, cartas, meus livros. Os móveis ficaram — eles pertenciam à casa.
Cada passo pelos cômodos doía, mas sabia: era a única maneira de salvar a casa do meu irmão e de seu bulldozer.Na sexta-feira, a família apareceu completa. Até Sweta, grávida, já avaliava o terreno.— Nosso comprador chegará em uma hora — disse meu pai sem cumprimentar.
— Não vai — respondi calmamente.— Como é?! — Gleb deu um passo à frente.— A casa já foi vendida.Silêncio. Depois, caos.— Para quem? Por quanto? Onde está o dinheiro?— Vendida há três dias. O dinheiro está em uma conta bloqueada por cinco anos. Meu fundo de aposentadoria.
Sweta começou a gritar. Eles já tinham pago o adiantamento do novo apartamento. Eu tinha arruinado os planos deles.— São decisões de vocês — disse eu, pegando minha bolsa. — O novo proprietário está a caminho. Vocês deveriam ir.Gleb tentou arrombar a porta. Nesse momento, um SUV preto parou no portão.

Dois seguranças desceram. Depois, Konstantin — de sobretudo escuro, calmo, quase entediado.— Algum problema? — perguntou ele.A família ficou em silêncio.— Propriedade privada. Vocês têm um minuto.Eles recuaram, cuspindo ameaças. Eu saí da casa naquela noite.
Meses na cidade foram silenciosos e duros. Nenhuma ligação. Nenhuma palavra. Só rumores: Gleb tinha feito um empréstimo. O apartamento devorava dinheiro. Eles reclamavam de mim em cada jantar.Konstantin aparecia ocasionalmente:
— O telhado está novo.— O forno funciona novamente.— As molduras entalhadas das janelas foram salvas.Ele nunca me convidou. E eu não perguntei.Em maio, uma ligação.— Aqui é a administradora do boutique hotel “Istok”. O proprietário convida você para a inauguração.
Quando fiquei diante do portão, fiquei sem fôlego. Minha casa — e ainda assim renascida. Fachada nova, ornamentos restaurados. O jardim em verde perfeito. Do antigo galpão, um elegante pavilhão.Não era mais ruína. Era uma joia.Entre os convidados, vi o carro antigo do meu pai. Toda a família desceu. Incerta, deslocada.
— Esta é nossa casa! — ouvi Gleb gritar para o segurança. — Nossa irmã foi enganada!Konstantin saiu. Terno sob medida, calma fria.— Eu sou o proprietário. O que exatamente vocês estão alegando?Eles gritaram. Exigências. Ameaças.Konstantin apenas sorriu e trouxe uma pasta.
— Contrato de compra notariado. Laudo sobre a capacidade dos vendedores. Gravação da conversa de vocês com o empreiteiro da demolição. Se não saírem imediatamente, processarei por difamação e tentativa de extorsão.Foi como esvaziar um balão de ar. Gleb ficou pálido.
Meu pai não disse mais nada. Eles se foram.— Satisfeita com a apresentação? — perguntou Konstantin, suavemente, ao meu lado.Virei-me. Ele segurava duas taças de vinho tinto.— Foi difícil — disse eu.— Necessário.Ele olhou para a casa.
— Preciso de alguém que dê alma a este lugar. Uma administradora. Alguém que saiba como acender corretamente o forno e quando a Antonovka está madura.Fiquei em silêncio.— Volte, Polina. Não como convidada. Como dona da casa. O resto… resolveremos com o tempo.
As janelas refletiam o pôr do sol. Por um instante, senti que a casa respirava.— Vamos conseguir — disse eu.E sorri. Pela primeira vez em um ano, de verdade.Um mês depois, Gleb apareceu novamente — queria se candidatar a jardineiro. Os guardas o expulsaram sem dizer uma palavra.
Eu observava da biblioteca.Nenhum triunfo.Nenhuma compaixão.Apenas silêncio.E o aroma das maçãs Antonovka, finalmente minhas.


