Igor estava estendido no sofá, com uma perna largada despreocupadamente sobre o braço, mudando os canais da televisão com expressão entediada. No chão, ao redor dele, latas de cerveja vazias espalhadas; no ar, um cheiro pesado e azedo
— resto da farra da noite anterior. Parecia alguém que já estivesse comemorando antecipadamente.Nadja ajoelhava-se no quarto, diante da mala aberta, dobrando suas roupas em silêncio, de forma metódica. Suas mãos não tremiam.
Surpreendeu-se com a própria calma. Por dentro, tudo doía, mas a dor já não a paralisava — ao contrário, aguçava seus sentidos.— Igor, este apartamento também é meu — disse ela baixinho, enquanto colocava um suéter na mala.
— Pagamos o financiamento juntos por cinco anos.— As prestações saíam da minha conta — respondeu o homem com um gesto displicente, sem tirar os olhos da tela. — O que você transferia era para as despesas da casa.
O advogado deixou bem claro: no papel, você não tem nada. Amanhã o tribunal confirma. Até a noite, desapareça. Zhanna não gosta de viver no meio do caos de mudança.A porta de entrada se abriu com estrondo.
Larissa Sergueievna, a sogra, entrou munida de fita métrica e bloco de notas.— Que penumbra horrível! — resmungou, já mexendo na janela. — Aqui precisam de cortinas romanas, bege. Zhanninha gosta de bege. E toda essa tralha pode ir para o lixo.
Nadja se levantou. Olhou para os dois: o marido, coçando a barriga com preguiça, e a sogra, que já colava mentalmente um novo papel de parede nas paredes. Naquele instante, a autopiedade desapareceu dela. Foi substituída por algo frio e organizado.
— Está bem. Eu arrumo minhas coisas.O som do zíper cortou o ar como uma lâmina.No dia seguinte, uma garoa fina caía diante do tribunal. Igor saiu do prédio com um sorriso largo, como se tivesse fechado o negócio da vida.
Ao lado dele, Zhanna desfilava em seu novo casaco curto de pele — aquele comprado com o cartão de crédito de Nadja enquanto ela dormia.— Então, ex-esposa? — Igor bloqueou o caminho dela. — O apartamento é meu.
Presente da minha mãe, antes do casamento. O carro também é meu. As dívidas são suas. Segundo o juiz, você que fez os empréstimos.— Você disse que era investimento conjunto — respondeu Nadja com calma. — Que a empresa iria crescer.
— Eu disse muita coisa. O negócio faliu. A vida é assim. Agora voe.Zhanna riu com desdém.— Igor, vamos. Não perca tempo discutindo com perdedores.O SUV preto arrancou. Nadja esperou até desaparecer na curva, então pegou o telefone.
— Eduard Viktorovitch? A decisão saiu. Ele está satisfeito.— Excelente — veio a resposta. — Na sentença consta que o dinheiro foi considerado despesa familiar. Isso é fundamental. Vamos iniciar o processo criminal.
Um quase imperceptível sorriso cruzou o rosto de Nadja.Naquela mesma noite, a música tocava alto no apartamento de Igor. Larissa abriu champanhe, Zhanna exigia outra transferência.— Cinquenta mil para a esteticista, querido — cantarolou.
Igor entrou no aplicativo do banco. Um aviso vermelho piscou na tela: conta bloqueada.— Que diabos é isso?Tentou outro cartão. A mesma mensagem.Larissa também pegou o telefone.— Igor… meu acesso também foi restringido.
Nesse momento, a campainha tocou longamente, de forma exigente.Não era um entregador, mas dois investigadores e Eduard Viktorovitch.— Igor Valerievitch Smirnov? O senhor está detido.— O quê?! Eu ganhei o processo!
— O cível — respondeu calmamente o advogado. — Agora falamos de fraude em grande escala. Acesso indevido. Falsificação de documentos.Tudo veio à tona: os acessos noturnos ao telefone de Nadja usando sua impressão digital, os empréstimos de três milhões,
o dinheiro transferido para contas próprias, a assinatura eletrônica falsificada para transferir o carro. Larissa figurava como testemunha nos contratos fictícios.— Esperamos até que o valor atingisse o limite penal — observou secamente o investigador.
Os joelhos de Igor tremeram.Diante da viatura, ele implorou:— Nadja! Devolvo tudo! Até o apartamento!— Você já não decide — respondeu ela suavemente. — O apartamento está apreendido. O carro é prova. E as dívidas agora são suas no processo criminal.

A porta se fechou.Seis anos se passaram. O clube fechado “Rosas Brancas” estava banhado em luz. Celebrava-se a fusão de duas grandes empresas. O estacionamento estava cheio de carros de luxo; no ar misturavam-se perfume e cheiro de pinho.
Nadja saiu para o terraço em um elegante vestido azul-escuro. Postura ereta, olhar tranquilo. A participação empresarial herdada do pai fora investida com sabedoria, e nos anos após o divórcio ela construíra seu próprio nome no mundo dos negócios.
— Champanhe, senhora? — perguntou uma voz rouca.O garçom estava diante dela, cabeça baixa. Um instante depois, ergueu o olhar.Era Igor.O rosto abatido, cabelos grisalhos, postura quebrada. O copo tremia em sua mão.
— Nadja…?Ela o reconheceu, mas em seu rosto não havia alegria nem ódio.— Obrigada, não quero — disse com serenidade. — E, por favor, troque este copo. Está manchado.Um homem alto, de olhar gentil, aproximou-se dela.
— Está com frio? — perguntou, colocando o paletó sobre seus ombros.— Não. Tenho tudo o que preciso.Rindo, voltaram para o salão.Igor permaneceu no terraço. Ouviu a música, as risadas, o burburinho da vida — aquela vida que perdera por causa da própria ganância.
— Ei! Os convidados estão esperando! — chamou o gerente.Igor estremeceu, baixou a cabeça e voltou apressado ao trabalho.A campainha naquela noite realmente mudou sua vida. Mas o verdadeiro castigo não foi a prisão.
Foi o momento em que percebeu: Nadja não se vingou. Ela simplesmente foi feliz sem ele.


