Jardim sob o céu severo.O céu cinzento e pesado de 1939, antes da tempestade, parecia pressionar as casas da aldeia, cujas paredes estavam banhadas em tons de chumbo.
Vera Artemieva estava sentada junto à janela da cozinha, os dedos amassando instintivamente a tira de couro sobre a mesa. Os segundos do relógio de parede passavam lentamente, cada instante pesando em seu peito.
Sua filha não chegara mais uma vez na hora combinada. Quantas vezes isso havia acontecido nos últimos anos… Anna, de dezessete anos, parecia testar deliberadamente a paciência da mãe:
vivia sua própria vida, rápido, alto, ignorando todas as regras e esperanças silenciosas.Na casa, ao lado dela, cresciam duas crianças mais novas:
Gennady, de oito anos, sério e reflexivo, e Svetlana, de seis anos, uma menina calma e alegre, sempre pronta para ajudar. Eles eram as alegrias silenciosas de Vera, ilhas de paz em um mar de preocupações constantes.
Anna, por outro lado, era filha do primeiro casamento de Vera, já há muito desfeito — como se fosse de outro mundo: caprichosa, audaciosa, vivendo nas melodias do acordeão, nas risadas e nos encontros constantes com vizinhos.
Seus pensamentos foram interrompidos por uma batida suave. No limiar, estava Klavdiya, a vizinha, seu rosto misturando a habitual gentileza com preocupação.
Movia-se nervosamente, passando de um pé para o outro, como se tivesse medo de falar.— Vera… desculpe interromper… Eu sei que você está ocupada, brigadiera, mas… não posso ficar em silêncio.
Talvez você devesse controlar sua filha antes que algo sério aconteça.— Do que você está falando, Klavdiya? Diga-me.— É sobre a sua pequena Anna. Hoje a vi… no campo, do outro lado do rio.
Fui dar água à vaca, e lá… sua filha estava deitada na grama alta, ao lado de uma camisa de homem, suas roupas… Chamei-a, ela riu e disse que só estava descansando.
Mas os arbustos… pensei que fosse Pavel e me assustei. Quando a vaca fugiu, corri atrás… Quando voltei, ninguém estava lá. Só este pequeno lenço ficou.
Klavdiya estendeu a Vera um pequeno pedaço bordado. Vera congelou por dentro. Era seu trabalho, um presente que dera a Anna no aniversário.
— Não diga nada a ninguém, Klavdiya. Por favor.— Fique calma, Vera. Só sinto muito por você. Sua filha é grande, mas assim… quem a tomaria como esposa?
Depois que a vizinha se foi, Vera afundou-se na mesa, e as lágrimas correram sozinhas. Já não era apenas vergonha, nem fadiga pelos rumores.
Era medo — medo do colapso final, da vergonha que lançava sombra sobre tudo: sobre ela, sua posição, as crianças mais novas. Ela estava paralisada pela impotência.
Quando passos rápidos e leves finalmente se ouviram no limiar, Vera se levantou, a tira de couro pesada na mão. Mas não era quem ela esperava. Ilya, seu marido, pai de Gennady e Svetlana, padrasto de Anna, entrou.
— O que aconteceu, Vera? Seu rosto está pálido, e o que você tem na mão?— Quero ensinar Anna. As palavras não a alcançam mais. Queria que você fosse rigoroso, pelo menos uma vez!
— Bater na filha? Não é minha função. Ela não é de meu sangue, e esse não é meu método.Eles conversaram em voz baixa para não acordar os mais novos, quando Anna entrou.
Parou na porta, olhando para a tira da mãe, e um sorriso habitual e zombeteiro apareceu em seu rosto.— Vamos dar conselhos de novo ou será só tapa desta vez?
— Não, Anna — a voz de Vera estava incomumente baixa. — Não haverá mais conselhos.Ela deu um passo à frente. Ilya tentou interpor-se, mas Vera o afastou.
O primeiro tapa queimou o ar. O segundo… o terceiro… E então Anna deslizou para o chão, protegendo-se com os braços, e gritou:— Mãe, pare! Eu não estou sozinha!
A mão parou, a tira caiu no chão com um estalo. Vera recuou como se tivesse sido queimada, e o silêncio foi quebrado por soluços amargos e incontroláveis.
Ilya, pálido, ajudou Anna a levantar e a levou para o jardim. Suas vozes filtravam-se pelas paredes como um zumbido confuso e abafado.
Quando Anna retornou, Vera a fez sentar. Sua voz estava seca, sem vida.— Quem é o pai?— Não tenho pai — a filha baixou os olhos obstinadamente.
— Com quem você estava? Diga!— Com ninguém. Não direi. Não se preocupe, vou à tia Darya, ela fará uma poção, tudo vai passar.
— Você acha que isso basta?
— Vera olhou para a filha como se fosse uma estranha. — Você é uma vergonha. Eu suportei, mas agora… Você vai para a cidade. Vai estudar.
— Estudar? Não é pra mim! — Anna explodiu.— Não me importa. Você vai desaparecer da minha vista. Se não quiser — vai trabalhar na granja de porcos. Escolha.
Ilya voltou à discussão:— Meninas, esperem… Ir à tia Darya leva ao cemitério. Ela precisa dar à luz. Nós criaremos a criança. Todos juntos.
— Você enlouqueceu? — Vera não acreditava. — É preciso saber quem é o pai!— Ela não diz. Teimosa. As pessoas… dirão qualquer coisa. O outono se aproxima, o inverno.
E você… você finge esperar. Quando chegar a hora, diremos que é nosso, tarde. Não há outro caminho.Debateram até a madrugada. Com o primeiro canto do galo,
Anna e Vera, exaustas e completamente cansadas, aceitaram a mentira absurda e desesperada.O inverno daquele ano foi rigoroso, cinza-chumbo. Roupas quentes e grossas cobriam tudo.
Vera habilmente escondia almofadas debaixo das roupas; a aldeia se acostumou lentamente com a ideia de que a brigadiera Artemieva esperava o quarto filho. Anna aparecia raramente, e quando o fazia, vestia roupas largas e exageradas.

Em meados de março, enquanto os últimos vestígios de geada ainda brilhavam nas janelas, Anna entrou em trabalho de parto. Um menino nasceu, oficialmente chamado Nikolai Ilyich Artemiev, filho de Vera e Ilya.
Vera esperava que a maternidade mudasse a filha, aquecesse seu coração. Mas quando Anna estendeu a mão para a criança, virou-se para a parede.
— Não. Agora este é seu filho. Que seja meu irmão.— Como você pode fazer isso? Abrace-o!— A mãe da Gena não tinha leite, e mesmo assim ele cresceu. Kola também crescerá.
— Você… não é mãe. — Vera não encontrou palavras. — Devemos colocá-lo num orfanato e dizer a todos que morreu? — perguntou friamente.
Outro tapa soou no silêncio. Vera olhou para a própria mão com nojo, apenas lamentando não ter batido antes, mais frequentemente, com mais rigor.
Três dias depois, Anna deixou a casa com uma pequena bagagem rápida. Ilya a acompanhou até a estação com olhar escuro e perdido.— Fizemos certo, Vera?
— Não havia outra maneira, Ilyushka. Não havia… Criei um pequeno monstro. Onde errei?Anna começou a trabalhar na fábrica central, esquecendo o menino, os estudos e a casa.
Vera, por sua vez, aquecia o neto junto ao peito e começava lentamente a esquecer o terrível segredo. Kola tornou-se simplesmente o filho mais novo, o favorito de todos.
Gennady e Svetlana, conhecendo a verdade, protegiam a mãe e o irmão mais novo. Ilya adorava o pequeno menino. A vida parecia lentamente recuperar a ordem, encontrando uma paz frágil.
Mas 1941 já batia à porta…

