Vou lavar os pés da sua filha, e ela voltará a andar.

“Eu vou lavar os pés da sua filha, e ela voltará a andar.”Alejandro Villarreal caiu na gargalhada. Depois, congelou.Havia dois anos que ele não dormia direito.

Dois longos anos desde que uma encefalite roubara a força das pernas de sua única filha, Ana Sofía, de cinco anos. Desde então, a menina estava presa a uma cadeira de rodas.

Os melhores médicos da Cidade do México haviam passado pela mansão em Lomas de Chapultepec, um após o outro, mas nenhum conseguira realizar um milagre.

O diagnóstico era sempre o mesmo: danos permanentes. Pouca esperança. Quase nenhuma.Numa manhã de terça-feira, Alejandro levava a filha para mais uma consulta médica.

O carro diminuiu a velocidade ao se aproximar do portão de ferro da propriedade. Foi então que ele viu o menino.Devia ter cerca de oito anos.

Pele morena, magro, parado à beira da estrada com uma camiseta vermelha desbotada. Ele não olhava para o carro. Nem para Alejandro. Seu olhar estava fixo, imóvel, na cadeira de rodas de Ana Sofía.

Alejandro teve o impulso de acelerar, mas o menino se aproximou da janela.— Senhor… posso falar com o senhor por um minuto?A voz era calma demais para uma criança daquela idade.

Mais por curiosidade do que por educação, Alejandro baixou o vidro.— O que você quer, garoto? Estou com pressa — rosnou.O menino lançou um olhar à garota.

— Eu vi que ela não pode andar. Se o senhor permitir, eu lavo os pés dela… e ela vai andar de novo.Alejandro riu alto — um riso amargo, quase desesperado.

Ele havia gastado mais de um milhão de pesos em tratamentos, terapias, especialistas — e agora um menino de rua lhe oferecia um milagre com uma bacia de água?

— Escuta aqui — disse, balançando a cabeça — não sei que tipo de golpe você está tentando—— Não é golpe, senhor — interrompeu o menino imediatamente.

— Minha avó me ensinou. Ela curava as pessoas do nosso bairro. Eu sei como massagear as pernas com ervas medicinais.Alejandro parou de rir.

No rosto do menino não havia astúcia. Nem ganância. Nem súplica. Apenas uma certeza inabalável — algo que Alejandro não via nos olhos de ninguém havia dois anos.

Ana Sofía inclinou-se um pouco na cadeira.— Papai… quem é esse menino? — perguntou baixinho.O garoto sorriu.— Oi, princesa. Eu sou Mateo. Mateo Reyes. E você é Ana Sofía, não é?

Alejandro franziu a testa.— Como você sabe o nome dela?— Todo mundo aqui na região sabe — respondeu Mateo com simplicidade. — Disseram na loja que a filhinha do empresário estava doente e que ele estava muito triste por causa disso.

Um aperto tomou o peito de Alejandro. Sua dor havia ultrapassado os muros da casa.Ana Sofía olhou para o pai com aqueles olhos aos quais ele nunca soubera dizer não.

— Papai… ele pode me ajudar?Alejandro hesitou.— Filha… não é tão simples assim.— O senhor não perde nada — disse Mateo em voz baixa.

— Só uma bacia com água morna e algumas plantas. Se não funcionar, pode me mandar embora. Mas se funcionar… — ele fitou Alejandro nos olhos — …a princesa vai correr de novo.

As palavras dos médicos ecoaram na mente de Alejandro: não há volta. Dano permanente. E, ainda assim… algo se moveu dentro dele. Uma mistura perigosa de esperança e desespero.

— De onde você vem? — perguntou. — Onde aprendeu tudo isso?— Eu moro em Santa Isabel — respondeu o menino. — Minha avó, Doña Remedios, era curandeira. Ela dizia que minhas mãos eram especiais.

— E onde está sua avó agora?O olhar de Mateo escureceu.— Ela morreu há três meses. Disse que eu precisava continuar o que ela começou. Não queria que o conhecimento morresse com ela.

Naquele instante, Alejandro compreendeu: o menino estava sozinho no mundo.— Você tem certeza? — perguntou em voz baixa.— A certeza pertence a Deus — respondeu Mateo. — Mas se o doente quer se curar e a família acredita… o corpo acompanha.

Ana Sofía bateu palmas.— Papai, por favor! Deixa ele tentar!Alejandro olhou para a filha. Depois, para o menino.— Está bem. Venha conosco. Vamos conversar com minha esposa em casa.Mateo hesitou.

— Senhor… eu sou pobre. Não quero causar problemas.— Se você ajudar minha filha — disse Alejandro com firmeza — nunca será um peso nesta casa.

O portão se abriu lentamente. Mateo observava, maravilhado, o jardim, a piscina, a mansão. Era outro mundo.Na garagem, Alejandro ajudou Ana Sofía a sair do carro. Mateo observava cada movimento com atenção.

— Você sente alguma coisa nas pernas? — perguntou suavemente.— Às vezes dá um formigamento — respondeu a menina.— Isso é um bom sinal — sorriu Mateo. — Minha avó dizia que onde há sensação, há esperança.

Dentro da casa, Alejandro apresentou o menino a Monica. Ela o olhou com desconfiança no início.— Uma criança da rua? — perguntou com um sorriso amargo.

Mateo tirou do bolso um pequeno caderno gasto. Ele estava cheio de desenhos, plantas e anotações escritas à mão.Monica começou a folheá-lo. Aos poucos, o sorriso desapareceu.

— De onde vem esse conhecimento?— Da minha família — respondeu o menino. — E se eu não usá-lo… ele morre comigo.Monica olhou para Ana Sofía. Depois, para o marido.

— E você quer que tentemos isso… aqui?Mateo assentiu.— Só água morna. E um pouco de hortelã e alecrim do jardim.Monica respirou fundo.E naquele momento, ela ainda não sabia que essa decisão mudaria para sempre a vida de todos eles.

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