Vika esperava por esta noite há muito tempo. Era o concerto dela…

Vika já esperava por aquela noite há semanas. Quase todos os dias pensava em como seria especial: um concerto com o seu ator favorito, a quem admirava desde a infância. Não era apenas uma simples admiração de fã, mas algo mais profundo, mais pessoal.

Cresceu a ver os filmes dele, e a sua voz e o seu sorriso muitas vezes lhe davam força nos dias mais difíceis.Ela comprara os bilhetes um mês antes e, desde então, todas as manhãs, ao passar pelos cartazes na cidade,

imaginava como iria aplaudir, como seria vê-lo ao vivo e como seria escapar da rotina por uma noite.No trabalho, até tentava concentrar-se, mas os pensamentos estavam sempre a fugir. Comprou um vestido novo para a ocasião,

escolheu sapatos elegantes e até uma pequena bolsa delicada que combinava perfeitamente com o conjunto. De manhã, arranjou cuidadosamente o cabelo e, ao olhar-se ao espelho, sorriu ao ver o rosto iluminado.

Como se o próprio universo quisesse que aquela noite fosse perfeita.O marido, Guennádi, porém, estava invulgarmente calado naquele dia. Ela sempre o conhecera como um homem responsável: um engenheiro que levava o trabalho muito a sério, talvez até demais.

Mas Vika tinha a certeza de que ele iria com ela. Afinal, tinham combinado isso quando compraram os bilhetes.Mas a vida, às vezes, muda os planos precisamente quando tudo parece estar a correr da melhor forma.

À tarde, de repente, o telefone de Guennádi tocou.Ele afastou-se, respondeu rapidamente e, poucos minutos depois, voltou, mas o seu rosto estava diferente. Parecia cansado, tenso, como se um sentimento de culpa lhe pesasse nos ombros.

O coração de Vika apertou-se.— Só não me digas que agora te chamaram para o trabalho e que não vais comigo… — disse com cuidado, como se tivesse medo das próprias palavras.Guennádi levantou o telemóvel.

— Matvei Fiódorovitch ligou pessoalmente. Há um problema na obra. Dizem que há uma fissura na fundação, tenho de ir imediatamente.Vika ficou em silêncio, mas uma sensação estranha começou a mexer dentro dela. Ele estava a explicar demasiado. Como se já tivesse ensaiado tudo.

— Primeiro — disse ela finalmente —, eu nem ouvi quem ligou. Podia muito bem ter sido a jovem esposa dele, a Alla. Como é que eu sei?— O quê?! — exclamou Guennádi. — Porque é que eu haveria de mentir? É um problema sério! Fendas… fissuras à volta de toda a base!

Vika ficou paralisada.“Normalmente ele nunca se justifica tanto”, pensou. “E agora, de repente, há detalhes a mais. Isso é suspeito.”— E segundo — continuou friamente —, desde quando chamam alguém ao domingo à noite? Isto não é uma cirurgia de emergência.

— Eu sou o engenheiro-chefe, tenho responsabilidades! — tentou defender-se, mas a sua voz já não parecia tão segura.Durante alguns segundos, Vika apenas ficou ali. Sentiu a alegria que guardara o dia inteiro transformar-se lentamente em dor.

— Está bem — disse de repente. — Não te justifiques. Para mim já está tudo claro.Virou-se e saiu sozinha.Na rua, a cidade estava barulhenta, mas tudo parecia distante. Os passos de Vika ecoavam no passeio,

como se ouvisse as batidas do próprio coração. Lembrou-se de tudo o que preparara: o vestido, o cabelo, o sonho de irem juntos.E agora tudo desmoronava com uma simples chamada telefónica.

Mas, à medida que se aproximava da sala de concertos, uma nova sensação começou a nascer dentro dela.“Esta é a minha noite”, pensou. “Ninguém me pode tirar isso.”Quando entrou no salão, o mundo mudou de repente.

As luzes, a música, o murmúrio animado do público — tudo a envolveu. O ar estava cheio de expectativa, de festa, de vida.Sentou-se no seu lugar, fechou os olhos e respirou fundo.O palco iluminou-se.

O artista apareceu, e a plateia recebeu-o com uma explosão de aplausos. O coração de Vika batia forte. Cada movimento, cada palavra, cada sorriso era exatamente como ela imaginara. A magia do concerto foi apagando lentamente a decepção.

Ela riu, aplaudiu e, por um momento, esqueceu o mundo lá fora.No final, sentiu como se tivesse aprendido algo importante.Não sobre se o marido tinha errado ou não.Mas sobre o facto de que a felicidade, às vezes, não depende dos outros.

No caminho de volta, o ar fresco do outono acariciava-lhe o rosto. As luzes da cidade refletiam-se no asfalto molhado.Em casa, Guennádi estava sentado no sofá.— Como foi? — perguntou baixinho.

Vika tirou o casaco devagar.— Foi maravilhoso — respondeu. — E ainda bem que fui.Não era preciso discutir. O silêncio dizia mais do que qualquer palavra.Na manhã seguinte, Vika encontrou um bilhete em cima da mesa:

“Perdoa-me por ontem. Espero que a tua noite tenha sido especial. Amo-te.”Ao lê-lo, um sorriso surgiu no seu rosto.O concerto ficaria para sempre na memória — não apenas pelo espetáculo, mas porque ela aprendeu que, às vezes, uma pessoa também consegue criar a sua própria celebração, mesmo sozinha.

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