Na noite do casamento, meu sogro fechou a porta de repente e, abrindo a mão, me entregou oitocentos mil forints, dizendo apenas:– Pegue o dinheiro, vista outra roupa e saia pela porta dos fundos. Agora, imediatamente.
– László… o que está acontecendo? – perguntei, a voz tremendo, enquanto um caos tomava conta da minha mente.– Não há tempo para explicações. Corra, menina, corra – respondeu, e havia em sua voz uma mistura de medo e urgência que me tirou o fôlego.
– Eles já estão aqui – disse, e suas palavras caíram sobre mim como uma realidade fria e crua. Quem? Não sabia, mas obedeci. Minha obediência salvou minha vida.Os últimos convidados só saíram por volta da meia-noite. No quarto do segundo andar, finalmente sozinha, sentei-me à beira da cama.
Minhas pernas pareciam feitas de chumbo depois de oito horas de salto alto; cada músculo estava tenso, cada parte do meu corpo exausta. Lá embaixo, Tamás ainda se despedia dos parentes; risadas e conversas baixas chegavam até mim abafadas, portas batiam, copos tilintavam, como se eu estivesse em outro mundo.
O vestido de noiva bordado com pérolas jazia na poltrona, uma nuvem branca. Eu já usava um roupão de seda, e o espelho antigo da penteadeira refletia uma imagem pálida e embaçada. Olhei meu rosto, tentando assimilar que tudo aquilo agora era a minha vida: a casa perto de Szeged, o casamento para cem pessoas, o anel de ouro no meu dedo.
O clique da fechadura me fez virar, sorrindo – tinha certeza de que era Tamás. Mas na porta não estava ele; era meu sogro. László Király, sessenta e dois anos, corpo robusto, têmporas grisalhas, mãos duras, um homem que conhecera apenas o trabalho durante toda a vida.
Ele girou a chave por dentro. Instintivamente, agarrei meu roupão e o apertei contra o peito.– László… o que aconteceu?Ele não respondeu de imediato. Caminhou até a escrivaninha perto da janela e deixou sobre ela um maço grosso de dinheiro. Outro.
Mais alguns. Oito pacotes empilhados, desordenados, como se por si só representassem ameaça. Só então virou-se para mim, e seu olhar me percorreu a espinha com um arrepio.– Vista-se – disse, com voz baixa, mas firme, sem margem para questionamentos. – Jeans, casaco, tênis. No fundo do armário. Rápido.
– Eu não entendo…– Não há tempo – ele olhou para o jardim escuro por um instante. – Pegue o dinheiro. Seus documentos estão na bolsa de tecido sobre a cadeira. Você vai sair pela saída dos fundos, atravessar a horta, até o portão distante. Lá te esperam.
De fora, ouvi barulho: cascalho sob rodas, o ronco de motos. Não era um carro, mas vários. Sua mandíbula se tensionou, e ele congelou por um instante.– Quem são eles? Onde está Tamás? – minha voz falhou.
– Corra, menina – disse, e suas palavras caíram sobre mim com tanto peso que a pergunta ficou presa na garganta. – Já chegaram. Se não fizer o que eu digo, você morre aqui esta noite. Confia em mim?
Olhei nos olhos dele. O mesmo cinza claro de Tamás, com veias avermelhadas, mas carregado de um medo que superava o meu.– Não por mim… por você eu confio – sussurrei, e me dirigi ao armário.
O jeans serviu perfeitamente, o casaco era largo, parecia de um homem estranho, mas não me importei. Calcei os tênis, sem me preocupar com os cadarços, coloquei a bolsa no ombro e conferi passaporte e alguns papéis.
– E você? Fico aqui?Meu sogro olhou pelo corredor.– Venha comigo. Silenciosa.Descemos pela escada de serviço, o cheiro de maçã e madeira antiga misturando-se à penumbra da despensa. László afastou sacos de batata e abriu uma porta baixa. Do outro lado, a estufa e os canteiros desenhavam contornos na noite de agosto.
– Siga em linha reta. Não saia do caminho. Há uma estrada de terra atrás da cerca, alguém estará esperando com o carro. Chama-se Imre Kelemen. Levará você a um lugar seguro.– László… o que está acontecendo? Quem são essas pessoas? Onde está meu marido?
Ele apertou minha mão com firmeza.– Não olhe para trás. Não pare. Corra! – e me empurrou para a escuridão.Corri pelos canteiros de tomate, tropeçando em estacas e cordas, a grama molhada chicoteando minhas pernas.
O cheiro de terra negra e endro enchia meus pulmões. Um cachorro latiu,portas batiam, vozes masculinas estranhas ecoavam da casa. Não olhei para trás.Cheguei ao portão, senti a trava, puxei-a e corri pela estrada de terra, ladeada por campos de girassóis sombrios. Parecia que a própria noite me observava.
A poucos metros, um Niva estava parado, faróis apagados. Ao lado, um homem baixo e robusto fumava, rosto inesquecivelmente comum.– Nóra Erdélyi? – perguntou. – Sim? Entre, rápido.Sentei-me no banco do passageiro; a porta já batia, e o carro partiu.
Imre Kelemen conduzia com firmeza, sem luzes, como se cada curva estivesse gravada em sua memória. Olhando para trás, vi luzes acenderem na casa, sala por sala, andar por andar, outros carros chegando ao portão com faróis cegantes.
– Não olhe – disse Imre, sem me encarar. – Não vai adiantar, só vai se inquietar.– Quem são eles?– Pessoas perigosas.– Já percebi! – explodi. – Tenho direito de saber do que estou fugindo na noite do meu casamento!Imre ficou em silêncio, depois ligou os faróis ao alcançar o asfalto.
– Quem sabe demais está em perigo. Foi o que László Király disse. Meu trabalho é garantir que você chegue segura. O resto não me diz respeito.Segurei a bolsa no colo, olhando os postes piscando, tentando absorver que algumas horas antes gritos de “beijo!” cercavam-me, e agora eu estava ao lado de um estranho, sem saber se meu marido estava vivo.
Paramos em uma vila abandonada. Cerca de dez casas, telhados desabados, janelas tapadas. Apenas uma emitia luz amarela fraca.– Margit Mészáros espera por você – disse Imre. – Eu fico aqui.

A mulher que abriu a porta era robusta, mãos de trabalho, rosto enrugado, mas olhos vivos.– Entre, querida – disse. – Beba um pouco de chá quente, você está pálida.Dentro, o cheiro de lenha e ervas secas preenchia a sala. A lareira ocupava metade do espaço; sobre a mesa, chá fumegante e bolos frescos.
– Não estou com fome – disse.– Coma, vai precisar de força – insistiu, e mordi obedientemente, mal sentindo o gosto. De repente, comecei a chorar silenciosa e descontroladamente, borrando a maquiagem.
– Não entendo… por que estou aqui? Por que meu sogro me enviou? Onde está Tamás?– Ele fez isso para salvar você – respondeu Margit em voz baixa. – Eu também não sei mais, e você não precisa saber. Hoje você dormirá aqui, amanhã seguirá viagem.
– Para onde?– Para um lugar mais seguro.Virei-me na cama estreita, ouvindo o tique-taque do relógio, o ranger do piso, o farfalhar de um rato. Pensei em Tamás: suas mãos, seu riso, como ele sussurrava: “minha esposa”. Será que ele sabe que desapareci? Procura por mim? Ou foi tudo uma armadilha?
Perto do amanhecer, adormeci, acordando com o toque de Margit.– Levante-se, é hora de ir.A vinte quilômetros dali, levaram-me a uma casa de caça: um tronco no meio de uma clareira, com poço e lenha empilhada.
– Se perguntarem, você veio de Debrecen, é minha sobrinha – disse Margit. – Entendeu?– Sim.Então Imre falou:– Todos que ajudam são pessoas de László Király. Ele ajudou essas pessoas uma vez. Agora eles retribuem.
– Por quê? Mal me conheceu – perguntei.– Disse que você foi a primeira coisa boa na vida do filho dele em muitos anos. E ele se apegou muito a você – disse, cansado.Baixei os olhos. Cresci em orfanatos, em famílias adotivas, nunca fui realmente deles. E agora alguém arriscou tudo por mim.
E o segundo…O pensamento se interrompeu enquanto a luz da manhã lentamente entrava pela janela. Ainda não suspeitava que aquilo era apenas o começo.


