Frank Sinatra e Dean Martin passaram oito anos sem realmente conversarem.Claro, eles se viam.Cruzavam-se em eventos da indústria, trocavam cumprimentos educados, algumas palavras vazias, sorrisos breves. Mas nada além disso.
Nada como antes.Nada desde 21 de março de 1987, o dia em que o filho de Dean, Dean Paul Martin, morreu.Ele tinha trinta e cinco anos.Piloto da Guarda Aérea Nacional.O orgulho e a alegria do pai.Naquele dia, voava um caça F-4 Phantom quando a aeronave colidiu com a montanha San Gorgonio.
A morte foi instantânea.E algo dentro de Dean Martin morreu junto com ele.Frank tentou alcançá-lo.Tentou falar, tentou estar presente, tentou ser amigo.Mas Dean se fechou.Cancelou todos os shows.Parou de sair de casa.
Não atendia o telefone.Era como se tivesse tomado uma decisão silenciosa e definitiva:“O mundo tirou meu filho. Então eu acabei com o mundo.”Frank entendia a dor.Ele também havia perdido pessoas.Também atravessara infernos pessoais.
Mas aquilo era diferente.Dean não estava apenas de luto.Dean havia desaparecido.Como se alguém tivesse apagado a luz por trás de seus olhos.Em 1995, Frank já quase aceitara a verdade mais dolorosa: Dean estava vivo, mas a amizade deles havia morrido.
Era assim que as coisas eram.Até que o telefone tocou.Dezembro de 1995.Do outro lado da linha, Deana Martin, com a voz trêmula:— Frank… papai quer te ver.Houve uma pausa.— Por favor… venha.
Frank largou tudo.Entrou no carro.Dirigiu até Beverly Hills.Quando Deana abriu a porta, Frank mal reconheceu o homem sentado na sala.Em oito anos, Dean havia envelhecido trinta.Estava magro.
Frágil.À beira da morte.Mas quando viu Frank, sorriu.Aquele sorriso antigo.O sorriso lendário de Dean Martin.E por vinte minutos, o tempo voltou atrás.Eles eram novamente dois garotos que haviam conquistado o mundo.Riram.
Relembraram histórias.Foram, por um instante, eles mesmos outra vez.Então Dean falou.Três palavras em inglês.Poucas sílabas.Peso de uma vida inteira.Palavras que significavam tudo.Frank Sinatra chorou.
Chorou como talvez nunca tivesse chorado nem quando criança.Para entender por que aquelas palavras o destruíram, é preciso compreender a profundidade da amizade deles.Não era uma amizade superficial de Hollywood.Não era conveniência.
Não era imagem, nem interesse, nem espetáculo.Era real.Era profunda.Uma amizade que ultrapassava fama, dinheiro e ego.Frank e Dean se conheceram no fim dos anos 1940.Frank já era uma estrela.
O garoto magro de Hoboken que se tornara a maior voz da América.Dean ainda lutava.Ia de clube em clube, sem fama, mas cada vez mais perto do sucesso.Eles se reconheceram imediatamente.
Frank viu em Dean algo que os outros não viam: por trás da fachada “cool”, havia um homem autêntico, verdadeiro.Dean também enxergou Frank.Por trás do ego e da intensidade, havia lealdade absoluta.Se Frank fosse seu amigo, ele morreria por você.
Nos anos 1960, eles se tornaram o Rat Pack: Frank, Dean, Sammy Davis Jr., Peter Lawford e Joey Bishop.Dominavam Las Vegas.Casas lotadas.Filmes.Festas.Um mundo de brilho aparentemente infinito.Mas o centro era Frank e Dean.
Irmãos não de sangue, mas de escolha.Frank era o líder.Dean era o equilíbrio.Quando Frank ficava intenso demais, Dean o trazia de volta com uma piada.Quando Dean se fechava, Frank o puxava de volta para a realidade.
Eles precisavam um do outro.Então veio 21 de março de 1987.Tudo mudou.Dean Paul Martin — piloto, talentoso, jovem, cheio de vida — se foi.Frank correu para a casa de Dean.Foi um dos primeiros a chegar.E quando viu o olhar vazio do amigo sentado na sala, não encontrou palavras.
O que se diz a um homem que perdeu o filho?Frank tentou.Mas Dean não respondeu.Não olhou para ele.Apenas encarava o nada.Por semanas, Frank insistiu.Telefonemas.Visitas.Recados.Nada.Dean não falava com ninguém.

Não ia a lugar nenhum.Cancelou tudo: shows, turnês, filmes.Quarenta anos de carreira simplesmente cessaram.No fim de 1987, Dean estava completamente isolado.Apenas as filhas e a governanta o viam.Frank tentou por um ano inteiro.Até que parou.
Não por indiferença.Mas porque doía demais ver o melhor amigo daquele jeito.Em 1990, Frank aceitou: Dean estava vivo, mas a amizade deles havia acabado.Então veio a reviravolta de dezembro de 1995.A saúde de Dean piorou rapidamente.Os médicos falavam em semanas. Talvez dias.
E então Dean disse a Deana:— Quero ver o Frank.Ela ligou imediatamente.Frank partiu na mesma hora.Parou o carro diante da casa em Beverly Hills.Sabia o que encontraria.Quando entrou, viu o estado de Dean.
Mas, ao vê-lo, os olhos de Dean se iluminaram.— Pally — sussurrou.E por vinte minutos, ele voltou à vida.Conversaram.Riram.Choraram.Dean respirava.Dean estava ali.Então o cansaço chegou.
Frank sabia.Era o último momento.— Dean, eu…— Frank — interrompeu Dean. — Você sempre esteve lá.Aquelas palavras atingiram Frank como um golpe no peito.“Você sempre esteve lá.”O amigo que estivera ausente por oito anos… nunca tinha deixado de estar presente.Frank caiu de joelhos, segurou as mãos de Dean e chorou.
— Sempre, Dean. Sempre.Dean apertou sua mão com a pouca força que lhe restava.— Eu sei — sussurrou. — Foi por isso que quis te ver. Para agradecer por não ter desistido, mesmo quando eu desisti.Frank chorou.
Riu.E sentiu, mais uma vez, que estava com seu irmão.Dean Martin morreu no Natal, em 25 de dezembro de 1995.Tinha 78 anos.Frank viveu mais três anos.Mas algo nele mudou.
Ficou mais suave.Mais aberto.Mais carinhoso.Ligava mais.Dizia mais “eu te amo”.No bolso, carregava um pedaço de papel.Nele, estavam escritas as palavras de Dean:“Você sempre esteve lá.”Aquilo se tornou um mantra.A lição final.
Porque presença importa.Persistência importa.Amor que não desiste importa.Hoje… quem você vai ligar para lembrar que você está lá?Você é o amigo que fica quando a luz se apaga?


